
Durante os últimos anos, a ideia de desglobalização tornou-se uma das explicações mais utilizadas para compreender a economia mundial. Guerras comerciais, tarifas, sanções, nacionalismo econômico, conflitos militares e a busca por cadeias produtivas mais seguras pareciam indicar que o longo ciclo de integração iniciado nas últimas décadas do século XX estava chegando ao fim. A realidade, porém, está mostrando algo diferente. A globalização não desapareceu. Ela está sendo reorganizada.
O comércio internacional continua gigantesco, as cadeias globais de produção permanecem fundamentais e empresas continuam dependendo de fornecedores distribuídos por vários continentes. Em 2025, o comércio mundial alcançou um novo recorde, impulsionado especialmente pela Ásia, pelo comércio Sul-Sul e pelas economias em desenvolvimento. As cadeias globais de valor ainda respondem por quase metade do comércio mundial.
Esses números parecem incompatíveis com a ideia de que o mundo está simplesmente se fechando.
O que está desaparecendo é outra coisa: a expectativa de que a integração econômica seguiria uma lógica predominantemente comercial, na qual empresas escolheriam fornecedores, mercados e locais de produção principalmente segundo critérios de custo e eficiência.
Segurança passou a importar tanto quanto preço.
Essa mudança altera profundamente o significado da globalização.
Durante o período de maior expansão das cadeias globais, uma empresa norte-americana podia projetar um produto nos Estados Unidos, utilizar componentes produzidos no Japão e na Coreia do Sul, realizar parte da montagem na China e vender o resultado em dezenas de mercados. A nacionalidade de cada etapa importava menos do que sua eficiência.
Hoje, governos perguntam quem fabrica, onde fabrica e, principalmente, o que aconteceria se uma crise internacional interrompesse aquele fornecimento.
A pandemia expôs vulnerabilidades de cadeias excessivamente concentradas. A guerra na Ucrânia demonstrou como energia, alimentos e fertilizantes poderiam adquirir importância estratégica. A competição entre Estados Unidos e China transformou semicondutores, inteligência artificial, telecomunicações, baterias e minerais críticos em assuntos de segurança nacional.
A eficiência deixou de ser o único critério.
Isso não significa que as cadeias estejam voltando para dentro das fronteiras nacionais. Reconstruir domesticamente tudo aquilo que foi distribuído pelo planeta durante décadas seria extremamente caro e, em muitos casos, praticamente impossível.
A resposta tem sido diversificar.
O México ganhou importância como plataforma produtiva próxima ao mercado norte-americano. Vietnã e Índia passaram a receber investimentos de empresas interessadas em reduzir sua dependência da produção chinesa. Países do Sudeste Asiático tornaram-se pontos importantes de novas cadeias industriais. Polônia e outros países da Europa Central ganharam relevância para empresas europeias preocupadas com segurança logística.
Mas essa reorganização possui uma característica curiosa: muitas vezes ela não elimina a China.
Uma empresa chinesa pode produzir componentes que serão enviados ao Vietnã, onde ocorre outra etapa da fabricação, antes de o produto chegar aos Estados Unidos. Empresas chinesas também ampliam investimentos no México, Sudeste Asiático e outros mercados. A cadeia muda de formato sem necessariamente romper seus vínculos anteriores.
Por isso, falar simplesmente em saída da China pode esconder o que realmente está acontecendo. Parte da produção está se tornando mais distribuída, enquanto empresas chinesas procuram internacionalizar suas próprias cadeias.
A China continua sendo central para compreender essa nova globalização.
As barreiras comerciais impostas pelos Estados Unidos reduziram parte do comércio direto entre as duas maiores economias do mundo. Mas os produtos chineses não deixaram de existir. Pequim ampliou suas relações comerciais com outras regiões, especialmente Ásia, África, América Latina e Oriente Médio.
Em 2025, a redução das exportações chinesas para os Estados Unidos foi acompanhada por um aumento muito maior das vendas para outros destinos.
O fluxo não desapareceu. Mudou de direção.
Essa transformação mostra por que o conceito tradicional de desglobalização se tornou insuficiente. O mundo não está simplesmente produzindo menos conexões. Está construindo conexões diferentes.
A Rússia oferece um exemplo ainda mais evidente.
As sanções impostas depois da invasão da Ucrânia reduziram drasticamente parte das relações econômicas entre Rússia, Estados Unidos e Europa. Durante décadas, a economia russa esteve profundamente ligada ao mercado europeu, especialmente pela exportação de energia. O conflito destruiu parte importante dessa estrutura.
Mas a Rússia não deixou de comercializar.
Petróleo, gás, fertilizantes e outras mercadorias passaram a seguir novas rotas. China e Índia ampliaram sua importância para Moscou. Países intermediários ganharam espaço em cadeias comerciais que se tornaram mais longas, complexas e caras.
Do ponto de vista europeu, ocorreu uma desglobalização em relação à Rússia. Do ponto de vista do sistema mundial, ocorreu principalmente uma reorganização dos fluxos.
A energia russa que antes seguia diretamente para determinados consumidores europeus passou a encontrar compradores em outros mercados. Ao mesmo tempo, a Europa buscou novos fornecedores nos Estados Unidos, Noruega, Catar e outras regiões.
A interdependência permaneceu. Os parceiros mudaram.
É justamente isso que está acontecendo em diversos setores.
Os Estados Unidos procuram reduzir vulnerabilidades diante da China, mas continuam dependendo de cadeias internacionais. A União Europeia discute autonomia estratégica, mas precisa importar energia, matérias-primas e componentes. A Índia procura desenvolver sua indústria nacional enquanto recebe capital estrangeiro e amplia suas exportações. A China busca maior autossuficiência tecnológica ao mesmo tempo que depende profundamente do comércio mundial.
Todos querem depender menos de adversários. Poucos conseguem depender menos do mundo.
Essa diferença é fundamental.
O que está emergindo não é uma economia mundial dividida em dois blocos completamente isolados, como ocorreu em grande medida durante a Guerra Fria. China e Estados Unidos possuem uma interdependência econômica muito maior do que aquela existente entre Estados Unidos e União Soviética. Empresas ocidentais continuam presentes no mercado chinês e empresas chinesas procuram oportunidades em mercados ocidentais e, principalmente, em terceiros países.
A separação completa seria extremamente custosa.
Por isso ganhou espaço a ideia de reduzir riscos em vez de romper relações. Governos procuram identificar setores considerados essenciais e diminuir dependências específicas, preservando o restante da relação econômica.
Semicondutores são estratégicos. Camisetas provavelmente não.
Baterias podem ser estratégicas. Brinquedos dificilmente terão o mesmo tratamento.
Essa distinção está criando uma globalização seletiva.
Alguns setores continuam funcionando segundo uma lógica internacional relativamente aberta. Outros passam a ser protegidos por tarifas, subsídios, controles de exportação e políticas industriais. Em determinadas áreas, governos aceitam pagar mais para reduzir vulnerabilidades.
A consequência é o retorno da geopolítica para dentro das decisões econômicas.
Uma fábrica deixou de ser apenas uma fábrica. Pode ser considerada infraestrutura estratégica.
Um porto não é apenas uma instalação logística. Pode determinar acesso a rotas comerciais.
Uma empresa de telecomunicações não vende apenas equipamentos. Pode participar de uma infraestrutura pela qual circulam informações sensíveis.
Uma mina de lítio, cobre ou cobalto não produz apenas commodities. Ela pode influenciar a capacidade de fabricar baterias, veículos elétricos e equipamentos necessários para a transição energética.
É por isso que países anteriormente considerados periféricos passaram a ocupar posições mais importantes.
A Indonésia utilizou suas reservas de níquel para estimular processamento e produção industrial dentro do próprio país. A República Democrática do Congo tornou-se essencial pela concentração de minerais utilizados em tecnologias modernas. Chile e Argentina possuem recursos importantes para cadeias relacionadas ao lítio. Brasil combina minerais, energia, agricultura e um grande mercado consumidor.
A fragmentação da globalização pode, portanto, abrir oportunidades.
Se empresas não querem depender de um único fornecedor ou de um único país, novos lugares podem entrar nas cadeias internacionais. Economias que anteriormente tinham dificuldade para competir com a escala chinesa podem receber investimentos destinados à diversificação.
Mas essa oportunidade não surge automaticamente.
Ter recursos naturais não garante industrialização. Receber uma fábrica não significa dominar a tecnologia. Participar de uma cadeia global pode gerar empregos sem necessariamente produzir inovação ou maior autonomia.
A disputa passa a ser não apenas por investimentos, mas pela posição ocupada dentro da cadeia.
Esse debate aparece com força na África.
Durante décadas, grande parte do continente exportou matérias-primas com pouco processamento e importou produtos industrializados de maior valor. A transição energética aumenta a demanda por minerais presentes em países africanos e cria a possibilidade de renegociar esse modelo.
Governos procuram atrair investimentos chineses, europeus, norte-americanos, indianos e dos países do Golfo. Quanto maior a competição entre investidores, maior pode ser a capacidade de exigir infraestrutura, processamento local, empregos e transferência de conhecimento.
A nova globalização oferece mais parceiros.
Também oferece novas dependências.
A China tornou-se o principal parceiro comercial de grande parte do mundo em desenvolvimento e um importante financiador de infraestrutura. Isso reduziu a dependência exclusiva das instituições e mercados ocidentais, mas criou novas preocupações sobre concentração.
O mesmo raciocínio vale para tecnologia. Um país que deseja diminuir sua dependência de plataformas norte-americanas pode recorrer a fornecedores chineses. Mas substituir um fornecedor dominante por outro não é necessariamente autonomia.
Por isso, Índia, Brasil, Indonésia, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e outras potências médias procuram diversificar relações.
Essa estratégia ajuda a criar várias globalizações simultâneas.
Existe uma globalização organizada em torno do enorme mercado norte-americano e de seus parceiros próximos. Existe outra impulsionada pela centralidade industrial chinesa e por sua integração com a Ásia e o Sul Global. Existe uma tentativa europeia de combinar abertura comercial com regras ambientais, sociais e digitais próprias. Existem redes Sul-Sul que crescem independentemente das antigas rotas concentradas no Atlântico Norte.
Essas estruturas não estão completamente separadas. Elas se cruzam o tempo todo.
A Arábia Saudita pode vender energia para a China, investir nos Estados Unidos, importar tecnologia europeia e desenvolver projetos com empresas asiáticas. O Brasil pode exportar commodities para a China, comprar tecnologia de diferentes origens e manter fortes relações financeiras com Estados Unidos e Europa. A Índia pode participar de iniciativas estratégicas com Washington enquanto compra petróleo russo e mantém relações comerciais com Pequim.
Essa sobreposição impede que o mundo seja dividido facilmente em dois blocos.
Ao mesmo tempo, aumenta a complexidade.
Empresas precisam considerar tarifas, sanções, controles tecnológicos, conflitos militares e mudanças políticas. Uma cadeia construída para reduzir custos pode precisar ser redesenhada para reduzir riscos. Um fornecedor mais barato pode ser rejeitado se estiver localizado em um país considerado politicamente vulnerável.
O resultado tende a ser uma economia mundial menos eficiente, mas talvez mais diversificada.
Para alguns países, isso significará custos maiores. Para outros, novas oportunidades.
O Brasil ocupa uma posição particularmente interessante. A rivalidade entre Estados Unidos e China não exige necessariamente que o país escolha um deles. Ao contrário, pode aumentar o valor de uma economia capaz de manter relações importantes com ambos.
Mas aproveitar essa oportunidade exige mais do que exportar produtos agrícolas e minerais.
Se as cadeias mundiais estão sendo reorganizadas, o objetivo brasileiro deveria ser atrair etapas de maior valor agregado. Energia relativamente limpa, minerais estratégicos, produção agrícola, mercado consumidor e capacidade industrial oferecem vantagens que podem ser combinadas.
A questão é transformar essas vantagens em uma estratégia.
O mesmo vale para outros países do Sul Global. A fragmentação econômica pode ampliar sua margem de negociação, mas apenas se conseguirem evitar uma nova divisão internacional do trabalho na qual continuam fornecendo matérias-primas enquanto tecnologia, financiamento e propriedade intelectual permanecem concentrados em outros lugares.
A globalização anterior prometia que a integração produziria benefícios compartilhados principalmente por meio da eficiência. A nova globalização é mais desconfiada.
Governos querem saber onde estão suas fábricas, quem controla suas tecnologias, de onde vêm seus minerais e quais países podem interromper seus abastecimentos.
Empresas continuam buscando lucro, mas precisam incorporar riscos geopolíticos que durante muito tempo pareciam secundários.
Consumidores continuarão comprando produtos fabricados em diversos países, mesmo que frequentemente desconheçam quantas fronteiras foram atravessadas até que uma mercadoria chegasse às suas mãos.
É por isso que a palavra desglobalização pode levar a uma interpretação equivocada do momento atual.
As conexões não estão simplesmente sendo desfeitas. Estão sendo redesenhadas.
Algumas relações econômicas diminuem enquanto outras crescem. Cadeias que antes passavam diretamente entre duas grandes economias agora atravessam terceiros países. Empresas procuram fornecedores adicionais. Governos subsidiam setores estratégicos. Países emergentes aproveitam a competição para atrair investimentos.
O mundo continua profundamente interdependente, mas essa interdependência deixou de ser percebida apenas como uma vantagem.
Ela também é vulnerabilidade.
A globalização do século XXI provavelmente será menos universal, menos previsível e mais política do que aquela que marcou as décadas anteriores. Em vez de um grande mercado mundial caminhando gradualmente para regras comuns, começam a surgir redes parcialmente concorrentes, conectadas por países que transitam entre elas.
A grande transformação não é o desaparecimento da globalização.
É o fim da ideia de que existiria apenas uma.
O mundo está construindo várias globalizações ao mesmo tempo, algumas concorrentes, outras complementares e muitas sobrepostas. A disputa dos próximos anos será não apenas sobre quem produz mais ou quem comercializa mais, mas sobre quem consegue definir as redes pelas quais mercadorias, tecnologia, energia, capital e informação continuarão circulando.
Pós-Doutor em Competitividade Territorial e Indústrias Criativas, pelo Dinâmia – Centro de Estudos da Mudança Socioeconómica, do Instituto Superior de Ciencias do Trabalho e da Empresa (ISCTE, Lisboa, Portugal). Doutor em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (2007). É Diretor Executivo do Mapa Mundi. ORCID https://orcid.org/0000-0003-1484-395X
