
Durante mais de quatro décadas, a China construiu uma das maiores transformações econômicas da história apoiando-se em uma combinação extraordinariamente eficiente de investimentos, urbanização, industrialização e exportações. Esse mecanismo retirou centenas de milhões de pessoas da pobreza, transformou cidades inteiras, criou a maior plataforma industrial do planeta e levou o país à condição de segunda maior economia mundial. Agora, justamente porque esse modelo foi tão longe, Pequim enfrenta um problema muito diferente daquele encontrado no início das reformas: precisa descobrir como continuar crescendo sem depender dos mesmos instrumentos que produziram o sucesso anterior.
A questão central da economia chinesa deixou de ser simplesmente quanto o país conseguirá crescer nos próximos anos. O problema é de onde virá esse crescimento.
A China está tentando reduzir gradualmente a dependência de investimentos em infraestrutura, construção imobiliária e expansão da capacidade produtiva para dar maior espaço ao consumo das famílias, aos serviços, à tecnologia e às atividades de maior produtividade. Trata-se de uma mudança muito mais profunda do que uma simples desaceleração econômica. Na prática, significa desmontar parcialmente incentivos que organizaram a economia durante décadas enquanto novos motores ainda não são suficientemente grandes para ocupar o espaço deixado pelos antigos.
É por isso que taxas de crescimento próximas de 4% ou 5%, que seriam consideradas excepcionais na maior parte das grandes economias, passaram a ser interpretadas como sinal de fraqueza chinesa. A comparação, porém, é enganosa. Uma economia de aproximadamente US$ 20 trilhões crescendo 4% acrescenta em um único ano uma quantidade de produção comparável ao tamanho inteiro de economias nacionais relevantes. O problema chinês não está apenas na velocidade. Está na sustentabilidade desse crescimento.
O modelo que levou a China até aqui começou a ganhar forma depois das reformas iniciadas por Deng Xiaoping no final da década de 1970. O país possuía enorme disponibilidade de mão de obra, baixos salários, pouca infraestrutura, reduzido estoque de capital e centenas de milhões de habitantes ainda vivendo no campo. Nessas circunstâncias, construir uma estrada, uma ferrovia, uma fábrica, um porto ou um conjunto habitacional frequentemente produzia retornos econômicos elevados.
O processo tornou-se ainda mais poderoso depois da entrada da China na Organização Mundial do Comércio, em 2001. Empresas estrangeiras instalaram fábricas no país, fornecedores chineses adquiriram tecnologia, trabalhadores migraram para as cidades e as exportações dispararam. A renda gerada pelo setor industrial alimentava novos investimentos, que aumentavam a capacidade produtiva, que por sua vez permitia ampliar novamente as exportações.
Havia uma espécie de círculo virtuoso.
Esse mecanismo ganhou uma segunda dimensão com a urbanização. Centenas de milhões de chineses mudaram do campo para as cidades. Era necessário construir apartamentos, metrôs, aeroportos, estradas, escolas, redes elétricas e sistemas de saneamento. Poucos países da história tiveram simultaneamente uma população tão grande, uma taxa tão elevada de poupança e um Estado com capacidade de direcionar recursos em escala semelhante.
A crise financeira internacional de 2008 reforçou ainda mais essa característica. Quando a demanda dos Estados Unidos e da Europa despencou, Pequim respondeu com um gigantesco programa de estímulos. Governos locais, bancos e empresas estatais ampliaram investimentos para impedir uma desaceleração abrupta.
Funcionou.
Mas também aprofundou uma dependência.
Durante anos, autoridades locais encontraram no setor imobiliário uma engrenagem particularmente conveniente. Os governos municipais controlavam a oferta de terrenos. Vendiam direitos de uso para incorporadoras, utilizavam essa receita para financiar despesas e infraestrutura e viam a valorização imobiliária estimular novas construções. As famílias, por sua vez, passaram a utilizar imóveis como uma das principais formas de acumulação de patrimônio.
O apartamento tornou-se simultaneamente moradia, investimento, reserva de riqueza e elemento importante de segurança financeira familiar.
Essa engrenagem tinha uma limitação inevitável: cidades não podem ser construídas indefinidamente.
A urbanização continua, mas já não ocorre na mesma velocidade. A população chinesa começou a diminuir. Muitas cidades menores possuem estoques consideráveis de imóveis. Grandes obras de infraestrutura ainda podem ser economicamente importantes, mas os retornos adicionais tendem a cair depois de décadas de investimentos intensivos.
Construir a primeira ferrovia ligando duas regiões pode transformar completamente uma economia. Construir a quarta ligação entre regiões que já estão integradas provavelmente produzirá um retorno menor.
Essa diferença ajuda a compreender a transformação atual.
O setor imobiliário foi o primeiro lugar onde as contradições ficaram visíveis. A crise de grandes incorporadoras, simbolizada internacionalmente pela Evergrande, não representou apenas dificuldades administrativas de algumas empresas. Revelou os limites de um sistema no qual construção, crédito, finanças municipais e patrimônio familiar haviam se tornado excessivamente interdependentes.
Pequim poderia ter respondido tentando simplesmente reconstruir o antigo modelo com mais crédito e mais construção. Em grande medida, decidiu não fazer isso.
Essa escolha ajuda a explicar por que os estímulos adotados nos últimos anos frequentemente pareceram mais cautelosos do que esperavam investidores internacionais. O governo precisa sustentar a atividade econômica sem recriar exatamente os desequilíbrios que procura corrigir. Estimular novamente uma onda indiscriminada de construção poderia elevar o crescimento imediatamente, mas agravaria o problema alguns anos depois.
Existe ainda outra dificuldade. Os governos locais acumularam grandes compromissos financeiros ao longo do período de expansão. Durante muito tempo, o aumento do preço dos terrenos e a expansão das receitas ajudavam a sustentar essa estrutura. Com a retração imobiliária, essa fonte de recursos perdeu força.
O problema, portanto, deixou de estar restrito às incorporadoras. Municípios pressionados por dívidas possuem menor capacidade para investir, contratar serviços e apoiar empresas. Uma das discussões dentro da própria China passou a ser justamente a necessidade de o governo central assumir parcela maior do esforço fiscal, reduzindo a pressão financeira sobre administrações provinciais e municipais.
O desafio seria relativamente mais simples se outro componente da economia pudesse ocupar imediatamente o espaço deixado pelos investimentos. É aqui que aparece a palavra que se tornou central no debate econômico chinês: consumo.
As famílias chinesas consomem proporcionalmente menos do que as famílias de muitas outras grandes economias. Parte da explicação está no outro lado dessa equação: elas poupam muito.
Não se trata simplesmente de uma característica cultural. Existem razões econômicas bastante concretas para essa cautela.
Uma família que não sabe quanto precisará gastar com saúde, educação ou aposentadoria possui um incentivo poderoso para guardar dinheiro. Trabalhadores migrantes também enfrentaram historicamente limitações decorrentes do sistema de registro residencial conhecido como hukou, que pode dificultar o acesso integral a determinados serviços públicos fora da região de origem. O envelhecimento da população aumenta ainda mais a preocupação com a segurança financeira futura.
Para fazer os chineses consumirem mais, portanto, não basta pedir que comprem mais.
É preciso alterar os incentivos que levam as famílias a poupar.
Isso significa melhorar aposentadorias, saúde pública, seguro-desemprego e outras formas de proteção social. Significa também elevar a parcela da renda nacional que chega efetivamente às famílias, principalmente às de renda baixa e média, que tendem a consumir uma proporção maior de cada unidade adicional de renda recebida.
Essa talvez seja uma das transformações politicamente mais importantes do novo modelo. Durante décadas, o sistema favoreceu a acumulação de capital. Bancos, governos locais, empresas estatais, incorporadoras e indústrias desempenharam papel central na distribuição dos recursos. Uma economia mais orientada pelo consumo exige transferir parte desse poder econômico para as famílias.
Não é uma mudança trivial.
O Japão enfrentou uma transformação diferente, mas instrutiva, quando seu modelo de rápido crescimento baseado em investimento industrial e expansão imobiliária chegou ao limite no final dos anos 1980. A Coreia do Sul também precisou modificar profundamente sua estrutura depois da crise asiática de 1997, reduzindo algumas características do sistema comandado pelos grandes conglomerados industriais. Economias desenvolvidas ocidentais passaram por mudanças semelhantes em outros momentos de sua história, quando serviços e consumo ganharam espaço em relação à indústria pesada e à construção.
A particularidade chinesa está na escala e no nível de desenvolvimento em que essa mudança acontece.
A China ainda possui renda por habitante muito inferior à dos Estados Unidos, Japão ou países da Europa Ocidental. Isso significa que existe grande espaço para aumentar o padrão de vida. Ao mesmo tempo, porém, alguns dos motores normalmente utilizados por países de renda média para continuar crescendo já foram explorados intensamente.
Há menos trabalhadores jovens entrando no mercado. A urbanização avança mais lentamente. O estoque de infraestrutura é enorme. A construção residencial dificilmente repetirá a expansão das décadas anteriores.
Por isso Pequim procura criar um terceiro componente para o novo modelo: produtividade tecnológica.
Veículos elétricos, baterias, energia solar, robótica, inteligência artificial, semicondutores, biotecnologia e equipamentos industriais avançados ocupam posição cada vez mais importante na estratégia chinesa. O objetivo é substituir crescimento baseado simplesmente na quantidade de capital empregado por crescimento decorrente da capacidade tecnológica desse capital.
Uma fábrica automatizada pode produzir muito mais sem precisar contratar proporcionalmente mais trabalhadores. Uma empresa chinesa que desenvolve tecnologia própria pode capturar parcela maior do valor de um produto do que uma companhia dedicada apenas à montagem.
A impressionante expansão das empresas chinesas de veículos elétricos mostra essa mudança. A China passou de mercado para automóveis estrangeiros a principal força mundial em carros elétricos em relativamente pouco tempo. Algo semelhante ocorreu com painéis solares e baterias.
Essa transformação, entretanto, produz uma nova contradição.
Se as empresas chinesas aumentarem rapidamente a produtividade e a capacidade industrial enquanto o consumo doméstico permanecer relativamente fraco, parte crescente dessa produção precisará ser vendida no exterior.
É exatamente nesse ponto que um problema interno chinês se transforma em questão internacional.
Estados Unidos e União Europeia acusam a China de produzir capacidade excessiva em determinados setores graças a subsídios e políticas industriais. Pequim rejeita essa interpretação e argumenta que sua competitividade decorre de investimentos, escala, cadeias produtivas integradas, inovação e intensa concorrência entre empresas chinesas.
Os dois argumentos ajudam a compreender partes diferentes do mesmo fenômeno.
A indústria chinesa tornou-se extraordinariamente competitiva. Mas uma economia gigantesca não pode depender indefinidamente de consumidores estrangeiros para absorver parcela crescente dessa capacidade. Quanto maior for a China, maior será a resistência política internacional a grandes superávits comerciais chineses.
Países emergentes já começam a sentir esse dilema. Fabricantes do Sudeste Asiático enfrentam concorrência crescente de produtos chineses. Índia procura desenvolver sua própria indústria ao mesmo tempo que mantém barreiras em setores considerados estratégicos. Turquia, Indonésia, México e outras economias tentam encontrar um equilíbrio entre receber investimentos chineses e proteger suas estruturas produtivas.
Na África, a situação apresenta outra dimensão. Durante anos, a presença econômica chinesa esteve fortemente associada a grandes projetos de infraestrutura, mineração e financiamento estatal. A mudança das prioridades internas chinesas e as dificuldades financeiras de alguns países africanos vêm tornando esse relacionamento mais seletivo. Empresas chinesas passaram a buscar também oportunidades em manufatura, energia renovável, veículos elétricos, telecomunicações e mercados consumidores locais.
O que ocorre dentro da China, portanto, modifica progressivamente a maneira como o país se relaciona com toda a economia mundial.
Há ainda uma dificuldade social particularmente delicada nessa transição. A China possui uma geração de jovens muito mais escolarizada do que qualquer geração anterior. Milhões de estudantes chegam todos os anos às universidades esperando empregos compatíveis com sua formação.
Ao mesmo tempo, setores industriais ainda relatam dificuldades para encontrar determinados tipos de trabalhadores.
O paradoxo revela um desencontro entre a estrutura educacional, as expectativas profissionais dos jovens e as necessidades da economia. Um graduado universitário que passou anos se preparando para trabalhar em tecnologia, finanças ou serviços administrativos dificilmente considera equivalente aceitar uma vaga em uma linha de produção.
A inteligência artificial pode aprofundar essa tensão. Algumas das funções de entrada em escritórios, tecnologia e serviços profissionais — justamente aquelas utilizadas tradicionalmente por jovens recém-formados para iniciar a carreira — estão entre as mais expostas à automação.
Isso cria um problema adicional para uma economia que deseja aumentar o consumo. Jovens inseguros sobre emprego e renda tendem a adiar compras, casamento, filhos e aquisição de imóveis. A insegurança econômica produz poupança justamente quando o governo gostaria de estimular gastos.
A demografia torna a equação ainda mais difícil.
Durante décadas, a enorme população em idade ativa chinesa foi uma vantagem. Agora, o país envelhece rapidamente. A antiga política do filho único ajudou a reduzir drasticamente os nascimentos, enquanto o aumento da expectativa de vida ampliou a população idosa.
Menos trabalhadores sustentando mais aposentados significa pressão sobre previdência, saúde e finanças públicas. Ao mesmo tempo, famílias que esperam precisar financiar parte dos cuidados de seus pais possuem mais razões para economizar.
O mesmo sistema de proteção social que precisa ser ampliado para estimular o consumo também será pressionado pelo envelhecimento.
Não existe solução rápida para esse conjunto de problemas.
É justamente por isso que a desaceleração chinesa não deveria ser entendida automaticamente como fracasso. Parte dela é consequência matemática do desenvolvimento. Economias não mantêm crescimento de 8%, 9% ou 10% indefinidamente. Japão, Coreia do Sul, Taiwan e outras economias asiáticas cresceram rapidamente durante seu processo de industrialização e depois desaceleraram à medida que ficaram mais ricas.
A questão decisiva é onde a China estabilizará sua nova trajetória.
Um crescimento de aproximadamente 4% sustentado por produtividade, tecnologia, serviços e maior consumo das famílias poderia ser economicamente mais saudável do que uma expansão de 6% sustentada artificialmente por construção de imóveis desnecessários e endividamento crescente.
O risco está no intervalo entre esses dois modelos.
Se o investimento cair rapidamente e o consumo avançar devagar, a economia pode permanecer por anos com demanda insuficiente. Empresas reduzem preços para disputar consumidores, margens diminuem, salários ficam pressionados e dívidas se tornam relativamente mais pesadas. Forma-se um ambiente de pressão deflacionária que pode reforçar a cautela das famílias.
Se Pequim responder com estímulos excessivamente concentrados na indústria, pode aumentar a capacidade produtiva sem resolver a fraqueza do consumo.
Se responder novamente com imóveis e infraestrutura, pode reconstruir os desequilíbrios anteriores.
E se simplesmente esperar que as famílias passem espontaneamente a gastar mais, a mudança pode ser lenta demais.
É nesse equilíbrio que se encontra provavelmente o maior desafio econômico chinês desde o início das reformas de Deng Xiaoping.
Durante quarenta anos, a pergunta fundamental era como mobilizar capital suficiente para construir uma China moderna. O Estado encontrou uma resposta extraordinariamente eficaz: poupança elevada, crédito direcionado, governos locais investindo, empresas produzindo e infraestrutura conectando um mercado continental.
A pergunta agora é quase inversa.
A China já construiu fábricas, cidades, ferrovias, portos, aeroportos e redes elétricas em uma escala sem precedente. Possui empresas capazes de competir na fronteira tecnológica e uma população muito mais rica do que aquela que iniciou as reformas no final dos anos 1970. O próximo salto depende menos da capacidade de construir outra estrada, outro condomínio ou outra siderúrgica e mais da capacidade de convencer centenas de milhões de famílias de que podem utilizar uma parcela maior da renda para viver melhor hoje.
Essa transformação mexe com distribuição de renda, previdência, saúde, tributação, governos locais, empresas estatais, mercado imobiliário e prioridades industriais. Por isso é lenta. E por isso pode ser dolorosa.
A China passou décadas dominando a arte de investir. Seu próximo modelo econômico dependerá de aprender algo que parece muito mais simples, mas talvez seja institucionalmente mais difícil: transformar a riqueza acumulada pelo país em renda, segurança e consumo para sua própria população.
Pós-Doutor em Competitividade Territorial e Indústrias Criativas, pelo Dinâmia – Centro de Estudos da Mudança Socioeconómica, do Instituto Superior de Ciencias do Trabalho e da Empresa (ISCTE, Lisboa, Portugal). Doutor em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (2007). É Diretor Executivo do Mapa Mundi. ORCID https://orcid.org/0000-0003-1484-395X