ISSN 2674-8053

A energia, o Brasil, a China… e o planeta

A not√≠cia de que a empresa estatal chinesa “State Power Investment Corporation Overseas – Pacific Hydro” / Sp√≠c venceu o leil√£o da usina hidrel√©trica de S√£o Sim√£o, que fica na fronteira de Goi√°s e Minas Gerais, confirma o crescente interesse dos chineses pelo nosso setor de energia. Por esta transa√ß√£o ela pagou US$ 2,25 bilh√Ķes, e j√° anunciou que planeja continuar investindo igualmente nas √°reas de energia e√≥lica e solar.

E n√£o √© s√≥ isto…

Dados, extra√≠dos do “Boletim sobre Investimentos Chineses no Brasil” publicado pelo Minist√©rio do Planejamento, revelam que no √ļltimo bimestre de 2017, os investimentos chineses em nosso pa√≠s totalizaram US$ 6,7 bilh√Ķes. Entre anunciados e confirmados, a RPC envolveu-se em 250 projetos aqui, no per√≠odo de 2003 a 2017, num total estimado em US$ 123,9 bilh√Ķes (dentre os quais 93 confirmados, no valor de US$ 53,5 bilh√Ķes). Mais importante, ainda, 85% deles se destinam √†s √°reas de energia e minera√ß√£o. As empresas do setor p√ļblico chin√™s foram respons√°veis pela grande maioria das aquisi√ß√Ķes (o que n√£o deixa de ter seu significado).

A lista das empresas brasileiras na √°rea de energia que se encontram nas m√£os dos chineses atualmente √© vasta. Segundo a revista EXAME, nos √ļltimos cinco anos eles investiram cerca de 40 bilh√Ķes de d√≥lares somente no setor el√©trico. A “China Three Gorges” (CTG), que opera a maior hidrel√©trica do planeta – Tr√™s Gargantas – foi uma das primeiras a visar o nosso pa√≠s, em 2013, quando adquiriu os ativos da portuguesa “EDP – Energia de Portugal”. A partir de ent√£o o processo se acelerou: em janeiro do ano passado, a estatal “State Grid” assumiu 95% do controle acion√°rio da “Companhia Paulista de For√ßa e Luz” (CPFL). E at√© mesmo grupos privados e totalmente desconhecidos para n√≥s, como a “Huadian Fuxin Energy Corporation Limited” est√£o avaliando a aquisi√ß√£o de ativos no Brasil. F√īlego financeiro n√£o lhes falta, ainda segundo a EXAME: somente a Huadian gera o equivalente a toda a energia el√©trica produzida no Brasil !

Surge, então, a pergunta: por que razão os chineses estão tão interessados no nosso setor energético?

Para alguns analistas, trata-se de uma estrat√©gia de Estado mais at√© de que de governo, frente a um cen√°rio geopol√≠tico-econ√īmico cambiante, tanto na China quanto no mundo. Sabemos que no futuro a quest√£o da energia ser√° um dos pontos fundamentais – e possivelmente um dos gargalos – nas economias de todo o planeta. Os chineses sabem disto melhor que ningu√©m, at√© pelo desafio que enfrentam com uma popula√ß√£o de mais de 1,3 bilh√£o de pessoas…Assim, na cabe√ßa deles – e de muitos de n√≥s – quem tiver o monop√≥lio ($$$) da energia dominar√° o mundo. E a China tem cacife para se candidatar ao “posto”, com seus US$ trilh√Ķes de reservas cambiais!

Lembremo-nos de que o Presidente Xi Jinping no discurso que proferiu perante o 19o. Congresso do Partido Comunista Chin√™s em outubro passado, afirmou que em 2050 a Rep√ļblica Popular seria “a maior economia do planeta”. Convicto, ele afirmou que a China ser√°, ent√£o um ‚Äúglobal leader‚ÄĚ. Para tanto, ele se baseou na nova pol√≠tica de desenvolvimento – o plano “China 2050” – que selecionou cerca de dez √°reas de tecnologia de ponta sobre as quais o governo se debru√ßar√° com absoluta prioridade: entre elas, o setor de energia e suas ramifica√ß√Ķes.

Diferentemente da maioria dos pa√≠ses, a China – alimentada por sua hist√≥ria plurimilenar – n√£o planeja os pr√≥ximos 20 anos: ela planeja os pr√≥ximos 200, e mais adiante! Os chineses s√£o “estrategistas gen√©ticos”. Eles j√° chegaram l√°…e n√≥s?

Sugiro a leitura matéria abaixo:


Chinesa Spic quer ampliar participação em energia

Grupo que comprou a usina de São Simão diz que Brasil é prioridade no seu plano de expansão

Renée Pereira e Luciana Collet, O Estado de S.Paulo Р16 Maio 2018 | 04h00

Depois de vencer no ano passado o leil√£o da Hidrel√©trica de S√£o Sim√£o, por R$ 7,2 bilh√Ķes, a chinesa Spic Pacific Hydro est√° de olho em novos neg√≥cios nas √°reas de gera√ß√£o de energia el√©trica no Brasil. A empresa, que come√ßou a operar a usina na semana passada, planeja expandir sua atua√ß√£o no Pa√≠s por meio de aquisi√ß√Ķes e projetos greenfield (que ainda ter√£o de ser constru√≠dos) de hidrel√©tricas, e√≥licas e parques solares.

A presidente da Spic, Adriana Waltrick, afirma que o Brasil foi eleito pelo grupo como uma das prioridades de investimentos no setor el√©trico. ‚ÄúAt√© 2020, a empresa planeja ampliar a gera√ß√£o de energia em 30 gigawatt (GW) no mundo, e o Brasil ser√° uma das prioridades.‚ÄĚ A companhia chinesa tem uma capacidade instalada de 140 GW ‚Äď equivalente a 83% da matriz el√©trica brasileira.

No radar do grupo no Pa√≠s, est√£o ativos de peso ‚Äď e problem√°ticos ‚Äď, como a Hidrel√©trica de Santo Ant√īnio, no Rio Madeira. Fontes afirmam que, desde o ano passado, a companhia negocia com a Cemig e com a Odebrecht a compra das participa√ß√Ķes, mas as negocia√ß√Ķes enfrentam uma s√©rie de entraves por causa de diverg√™ncias com acionistas ‚Äď leia-se governo de Minas. Questionada sobre o neg√≥cio, Adriana disse que n√£o fala de processos de fus√Ķes e aquisi√ß√Ķes, mas que a empresa est√° avaliando v√°rias op√ß√Ķes no mercado.

‚ÄúO Brasil tem uma s√©rie de oportunidades, √© um mercado din√Ęmico. Mas n√£o h√° pressa (para fechar os neg√≥cios)‚ÄĚ, diz a executiva. Al√©m de aquisi√ß√Ķes, a Spic deve inscrever tr√™s projetos e√≥licos, com capacidade de 260 MW, no pr√≥ximo leil√£o de gera√ß√£o a ser realizado no segundo semestre. Esses empreendimentos ficam pr√≥ximos de outros dois parques, de 58 MW, da empresa no Nordeste. Na √°rea solar, a expectativa √© estrear apenas no ano que vem. ‚ÄúNo mundo, o grupo tem 9 GW de capacidade em energia solar. Por aqui, vamos come√ßar agora.‚ÄĚ

Aumento de capacidade. Enquanto avalia a compra de ativos e projetos para desenvolver, a chinesa come√ßa a estudar alternativas para melhorar e ampliar a opera√ß√£o em S√£o Sim√£o ‚Äď hidrel√©trica que era administrada pela Cemig e foi arrematada no ano passado em leil√£o. Adriana diz que em 60 dias devem sair as primeiras conclus√Ķes sobre um estudo que est√° sendo desenvolvido para avaliar as possibilidades de repotencia√ß√£o da hidrel√©trica e moderniza√ß√£o da usina, de 1.710 MW.

Segundo a executiva, a estrutura onde a hidrel√©trica j√° est√° localizada permite que quatro novas turbinas sejam instaladas ao lado das seis atuais, ampliando a capacidade da usina. Mas a viabilidade t√©cnica e econ√īmica dessa expans√£o s√≥ ser√° conhecida ap√≥s a conclus√£o dos estudos. Al√©m disso, diz Adriana, para aumentar a produ√ß√£o do empreendimento √© preciso autoriza√ß√£o do poder p√ļblico e altera√ß√Ķes no contrato de concess√£o. A moderniza√ß√£o, por outro lado, √© mais simples de ser colocada em pr√°tica e permitir√° ganhos de efici√™ncia e produ√ß√£o. Ao vencer a licita√ß√£o de S√£o Sim√£o, a Spic virou a 7.¬™ maior geradora privada do Pa√≠s.

Originalmente publicado em http://economia.estadao.com.br/noticias/geral,chinesa-spic-quer-ampliar-participacao-em-energia,70002310248

Fausto Godoy
Doutor em Direito Internacional P√ļblico em Paris. Ingressou na carreira diplom√°tica em 1976, serviu nas embaixadas de Bruxelas, Buenos Aires, Nova D√©li, Washington, Pequim, T√≥quio, Islamabade (onde foi Embaixador do Brasil, em 2004). Tamb√©m cumpriu miss√Ķes transit√≥rias no Vietn√£ e Taiwan. Viveu 15 anos na √Āsia, para onde orientou sua carreira por considerar que o continente seria o mais importante do s√©culo 21 ‚Äď previs√£o que, agora, v√™ cada vez mais perto da realidade.