ISSN 2674-8053

Bravo mundo idoso

Um dos temas que tem-nos mobilizado ultimamente, aqui no Brasil, at√© pelas quest√Ķes complexas vinculadas √† previd√™ncia social, √© a quest√£o do envelhecimento da popula√ß√£o. Pois bem, o Jap√£o encontrou uma poss√≠vel (?) sa√≠da: a rob√≥tica e seus “pimpolhos”, os rob√īs, que passar√£o a ocupar o lugar de trabalhadores nas empresas, e at√© nos lares, suprindo a car√™ncia de humanos…
Desumano?…ou uma solu√ß√£o ousada para fazer frente a uma realidade quase inelut√°vel?
Sen√£o analisemos a curva do crescimento da popula√ß√£o japonesa neste √ļltimo s√©culo: em 1950, logo ap√≥s a II Guerra, a parte maior da pir√Ęmide et√°ria se situava na faixa de zero a 20 anos; em 2005 os dois maiores segmentos et√°rios ficavam na faixa de entre 35 e 60 anos; e a proje√ß√£o para 2055 √© que a maioria dos japoneses ter√° entre 60 e 80 anos! Hoje, 1/4 da popula√ß√£o j√° tem mais de 65 anos. Sen√£o, vejam a mat√©ria do “The Economist”: https://www.economist.com/blogs/graphicdetail/2014/12/japan-graphics
E a taxa de mortalidade, de 9,8 por 1.000 habitantes, é superior à de natalidade, de 7,7 por mil habitantes. Ou seja, está havendo uma despopulação do país. Nesse quadro complicado, o dilema com que se confronta aquela sociedade mexe com dois assuntos tabus para ela:
– primeiramente, o trabalho das mulheres fora do lar. Se isto se concretizar como norma, por for√ßa das circunst√Ęncias, dever√°, a meu ver, ocorrer uma mudan√ßa profunda no comportamento da popula√ß√£o. Quando morava em T√≥quio, eu ficava impressionado com o pequeno n√ļmero de mulheres casadas que atuavam fora de casa. A resposta √†s minhas indaga√ß√Ķes era, invariavelmente, que” o lugar da esposa era dentro do lar, cuidando dos filhos”…Eu achava estranho que uma sociedade com padr√Ķes t√£o significativos de desenvolvimento econ√īmico e humano ainda se ativesse a conceitos que at√© n√≥s, brasileiros, consideramos ultrapassados; e
– em segundo lugar, que em um pa√≠s com uma taxa de nascimentos t√£o baixa, com 941 mil nascimentos registrados em 2017, contra 2,7 milh√Ķes registrados ap√≥s a II Guerra (a menor desde 1899, quando teve in√≠cio o registro desses dados), e com a expectativa de que a popula√ß√£o dever√° se reduzir ainda mais nas pr√≥ximas d√©cadas, n√£o se abra para a imigra√ß√£o. Como sabemos, os japoneses s√£o extremamente restritivos quanto a este tema;uma das exce√ß√Ķes √© justamente a dos “dekasseguis” brasileiros, que, por serem descendentes de japoneses (ou casados com estes), puderam receber vistos de trabalho tempor√°rio diferenciado. Ou seja, uma forma de preservar a mesma etnia.
Uma das solu√ß√Ķes propostas pelo governo do PM Shinzo Abe √© subsidiar de forma agressiva a cria√ß√£o e difus√£o de empresas e de servi√ßos que utilizam a intelig√™ncia artificial. Desta forma, os rob√īs poder√£o fazer parte de um “laborat√≥rio tecnol√≥gico”, segundo o Estad√£o.
E a√≠??? Quais seriam as consequ√™ncias? Seria este o primeiro sinal de uma “invas√£o tecnol√≥gica” em escala mundial que modificaria o pr√≥prio conceito de civiliza√ß√£o? Seria o arauto da destrui√ß√£o criativa “schumpeteriana” que nos levaria a um outro formato de sociedade, compartilhando espa√ßos cada vez maiores com a intelig√™ncia artificial? Para que mundo nos dirigimos? Para o bem, ou para o mal (se √© que cabe esta dicotomia manique√≠sta)?

Popula√ß√£o encolhe e Jap√£o aposta em rob√īs

28/01/2018 | 05h00

Por Ricardo Grinbaum, enviado especial – O Estado de S.Paulo

T√ďQUIO – Um turista desavisado pode achar que √© pegadinha ao ser atendido na portaria de um hotel em T√≥quio por um rob√ī com rosto e roupa de mulher. Mas a cena √© real. √Č uma pequena amostra de um gigantesco experimento em curso no Jap√£o: a cria√ß√£o da chamada Sociedade 5.0, em que boa parte do trabalho humano ser√° substitu√≠da por computadores e rob√īs.

O Jap√£o decidiu transformar sua sociedade em um laborat√≥rio tecnol√≥gico por um motivo extremo. Sua popula√ß√£o est√° envelhecendo e diminuindo rapidamente. A taxa de natalidade √© de 7,7 nascimentos por mil habitantes, enquanto a de mortalidade √© de 9,8 por mil. Hoje, um quarto da popula√ß√£o tem mais de 65 anos. Em um ano, o pa√≠s perdeu 500 mil habitantes. Sem trabalhadores, f√°bricas fecharam e lojas de conveni√™ncia pararam de atender de madrugada. Falta pessoal nos hospitais. Pelos c√°lculos oficiais, o pa√≠s perder√° 20 milh√Ķes de habitantes, dos atuais 126 milh√Ķes, at√© 2050.

Uma das solu√ß√Ķes encontradas pelo governo Shinzo Abe para manter a m√°quina do pa√≠s em funcionamento foi dar subs√≠dios para a produ√ß√£o de servi√ßos de intelig√™ncia artificial, internet das coisas e rob√īs. Abe tamb√©m diminuiu as regula√ß√Ķes para que as empresas de tecnologia possam experimentar sem medo de errar. O pa√≠s liberou o uso de drones para fazer entregas em ilhas distantes. Se der certo, os drones come√ßar√£o a ser usados nas grandes cidades a partir de 2020, na √©poca dos Jogos Ol√≠mpicos de T√≥quio.

Os rob√īs, que j√° eram comuns nas f√°bricas, agora come√ßam a entrar nos asilos, nas enfermarias, nas creches e nas casas. S√£o rob√īs amig√°veis, feitos para lidar com pessoas. Cerca de 5 mil centros de enfermagem est√£o testando as m√°quinas, com apoio do Estado.

Est√£o em teste v√°rios tipos de equipamentos. Um deles √© uma esp√©cie de armadura eletr√īnica, usada pelos cuidadores, para ajudar a levantar e mover os pacientes sem fazer muita for√ßa. Tamb√©m existem m√°quinas com sensores para detectar o movimento de pacientes √† noite e outra que monitora os movimentos do corpo para avisar se est√° na hora de levar um doente para o banheiro. Os rob√īs conversam e fazem companhia para crian√ßas e idosos.

Melhor amigo. Originalmente lan√ßado como um brinquedo, o cachorro rob√ī Aibo, da Sony, hoje ajuda a cuidar dos idosos em suas casas. O animal eletr√īnico tem sensores que monitoram os movimentos dos donos e avisa seus parentes caso ocorra algum sinal at√≠pico. O Paro √© uma foca de pel√ļcia, mas por dentro √© um rob√ī. O bicho eletr√īnico responde a sons de voz e afagos, o que ajuda a conectar emocionalmente com idosos.

O experimento japonês vai além da tecnologia. Outra mudança profunda em curso está ligada ao papel das mulheres e dos idosos na sociedade. Pelas regras da tradicional sociedade japonesa, as mulheres param de trabalhar quando nasce o primeiro filho. Elas passam a se dedicar em tempo integral à casa, enquanto o marido trabalha fora.

At√© pouco tempo atr√°s, era um caminho sem volta. Quando o filho crescia, a mulher n√£o tentava voltar ao mercado, at√© porque j√° estava profissionalmente defasada. O governo est√° fazendo for√ßa para quebrar essa l√≥gica. Agora, oferece treinamento para que as mulheres voltem a trabalhar. Faz o mesmo com os idosos. Em vez de se aposentar, eles s√£o incentivados a buscar novas carreiras, de menor esfor√ßo f√≠sico.‚ÄúEm 4 anos, foi criado 1,8 milh√£o de empregos para mulheres e idosos‚ÄĚ, diz o porta-voz do Minist√©rio dos Neg√≥cios Estrangeiros, Norio Maruyama. ‚ÄúSuperou os n√ļmeros da queda da popula√ß√£o.‚ÄĚ

O governo criou um comit√™, comandado pelo primeiro-ministro, para encontrar solu√ß√Ķes para o problema demogr√°fico, em particular das cidades menores. Em 2016, s√≥ a popula√ß√£o de T√≥quio cresceu. ‚ÄúEstamos limitando o n√ļmero de col√©gios em T√≥quio e ajudando as prefeituras no interior, com informa√ß√£o e apoio financeiro, para atrair gente‚ÄĚ, diz Ayumi Yori, vice-diretora da ag√™ncia respons√°vel por pol√≠ticas contra a queda da popula√ß√£o.

A imigra√ß√£o n√£o poderia ajudar a resolver o problema? O assunto provoca pol√™mica no Jap√£o e at√© agora n√£o houve autoriza√ß√£o do governo para receber uma grande quantidade de imigrantes. ‚ÄúA imigra√ß√£o n√£o resolve nosso problema de buscar maior competitividade na economia‚ÄĚ, diz Maruyama. ‚ÄúOs rob√īs podem nos fazer dar um salto na produtividade.‚ÄĚ O papel dos migrantes, no momento, √© limitado. Por enquanto, o Jap√£o busca atrair m√£o de obra muito qualificada ou aceita a chegada de migrantes asi√°ticos, por for√ßa dos acordos de integra√ß√£o econ√īmica regional.

Os milhares de brasileiros descendentes de japoneses podem ter um papel nesta transforma√ß√£o. ‚ÄúHoje, os brasileiros s√£o em grande parte respons√°veis por manter as f√°bricas do Jap√£o em funcionamento‚ÄĚ, diz o c√īnsul-geral do Jap√£o em S√£o Paulo, Yasushi Noguchi. O governo discute a possibilidade de ampliar os vistos para a quarta gera√ß√£o de descendentes dos migrantes japoneses no Brasil. Mas esta ainda √© uma quest√£o em aberto.

Fonte: http://link.estadao.com.br/noticias/geral,populacao-encolhe-e-japao-aposta-em-robos,70002168226

 

Fausto Godoy
Doutor em Direito Internacional P√ļblico em Paris. Ingressou na carreira diplom√°tica em 1976, serviu nas embaixadas de Bruxelas, Buenos Aires, Nova D√©li, Washington, Pequim, T√≥quio, Islamabade (onde foi Embaixador do Brasil, em 2004). Tamb√©m cumpriu miss√Ķes transit√≥rias no Vietn√£ e Taiwan. Viveu 15 anos na √Āsia, para onde orientou sua carreira por considerar que o continente seria o mais importante do s√©culo 21 ‚Äď previs√£o que, agora, v√™ cada vez mais perto da realidade.