E la nave va…

A “quebra de braços” comercial entre chineses e americanos terá como um dos principais resultados a aceleração das pesquisas e investimentos que os chineses estão realizando para catapultar a República Popular a um patamar superior na esfera de alta tecnologia, em nível mundial.

O “China Dream”, que Xi Jinping tanto alardeia, passa pela implementação do projeto “Made in China 2025”, que o governo chinês elegeu – e anunciou em 2015 – como prioridade absoluta. Este plano selecionou dez setores de tecnologia de ponta nas mais distintas áreas – fontes alternativas de energia, T.I., robótica, produtos farmacêuticos, e transportes, entre outros – nos quais se concentrará a pesquisa endógena, a qual concretizará- assim esperam os chineses – o seu sonho de hegemonia na economia pós-industrial do planeta. Ou seja, “adeus” China das manufaturas baratas e de baixo conteúdo tecnológico. Também da cópia?…

A implementação deste plano está escalonada em três etapas temporais – 2025, 2035 e 2049 – e já na primeira delas o conteúdo doméstico no produto final atingirá a faixa de 70%. Tal pretensão revela bem o fôlego da pesquisa que será desenvolvida pelos chineses. O Governo afirma que o plano respeita inteiramente as obrigações assumidas pela RPC junto à Organização Mundial do Comércio.

É aí que entram D.T., o “Put America First”, e os americanos…

O “Council of Foreign Relations” afirmou que este plano põe em cheque a hegemonia norte-americana no cenário mundial. Sinalizando esta preocupação, a decisão de D.T. de impor uma escalada de tarifas de importação para produtos procedentes da China foi qualificada por Washington como uma operação de “segurança nacional”; o que não faz sentido para os analistas, uma vez que a lista de produtos afetados atinge, por viés, parceiros tradicionais dos EUA, como a União Europeia, o Canadá e o México, entre outros (dentre os quais o Brasil).

Ou seja, em suma, a guerra não diz respeito a aço, têxteis e etc., mas ao temor da “pirataria tecnológica” e à disputa de poder entre americanos/ocidentais e os chineses. Não é pouca coisa……

E o que tem a ver isto com a escalada dos investimentos chineses em nosso país?

Resposta: tudo.Em quinze anos a China investiu US$ 54 bilhões em nosso território: entre 2003 e 2018 foram US$ 54 bilhões. E quais foram os principais setores selecionados pelos chineses? Segundo o Ministério do Planejamento, 84% estão concentrados em três áreas: energia, óleo e gás e mineração. Lógico. E a área de energia tem sido o foco maior. Alguns exemplos: a estatal State Grid of China detém o controle acionário da CPFL; a “China Three Gorges” comprou as usinas de Jupiá e Ilha Solteira e investiu em novos projetos, como a construção de hidrelétricas no Pará, Amapá e Mato Grosso. Afora estes, portos e rodovias.

Por quê?

Fácil: estes são setores fundamentais para o “pulo” geoeconômico que a China está empenhada em dar, e o Brasil é um parceiro importante justamente em áreas de que ela depende para concretizá-lo. Cabe a nós aproveitarmos, estrategicamente, da “Parceria Estratégica Global” que formalizamos, em 2014, com a RPC para nos beneficiarmos das oportunidades que a projetada mudança do eixo geoeconômico em direção da China poderá abrir para nós. Mas é urgente tomar uma posição pró-ativa: a RPC galga com rapidez patamares cada vez mais elevados, e, se ausentes, corremos o risco de mais uma vez perdermos o barco que nos levará(ia) ao Pacífico.

Em suma: D.T. fecha as fronteiras dos EUA e a China abocanha, com gula, os territórios abandonados. E assim “la nave va”…

Aconselho aos amigos que leiam a matéria da Exame abaixo:


China anuncia medidas de estímulo econômico frente a guerra comercial

O governo chinês vai adotar uma política fiscal que vai autorizar empresas a deduzirem impostos dos investimentos em pesquisa e desenvolvimento

Por AFP

access_time24 jul 2018, 11h15

A China adotará medidas de estímulo econômico para contrabalançar o impacto da guerra comercial com os Estados Unidos – anunciou o governo nesta terça-feira (24), um dia depois de uma importante reunião presidida pelo primeiro-ministro, Li Keqiang.

O governo adotará uma política fiscal “mais ativa”, autorizando mais empresas a deduzirem impostos dos investimentos em pesquisa e desenvolvimento, indicou o governo em um comunicado.

Também se acelerará a emissão de “títulos especiais” para financiar projetos de infraestrutura das administrações locais por um montante de 1,35 trilhão de iuanes.

Além disso, serão abertas linhas de crédito de 140 bilhões de iuanes (17 bilhões de euros) destinadas a 150 mil pequenas empresas a cada ano.

O governo advertiu, porém, que não haverá uma “enxurrada” de medidas de estímulo como aquelas aplicadas após a crise financeira de 2008. Essas medidas fizeram a dívida crescer enormemente e, agora, o governo tenta contê-la.

“A política monetária prudente não será nem demasiado rigorosa, nem demasiado complacente”, advertiu o governo.

As medidas anunciadas pelo governo foram bem recebidas nos mercados financeiros de Xangai e Shenzhen, em alta de 1,37% e 1,35%, respectivamente.

Originalmente publicado em: https://exame.abril.com.br/economia/china-anuncia-medidas-de-estimulo-economico-frente-a-guerra-comercial/

Fausto Godoy
Doutor em Direito Internacional Público em Paris. Ingressou na carreira diplomática em 1976, serviu nas embaixadas de Bruxelas, Buenos Aires, Nova Déli, Washington, Pequim, Tóquio, Islamabade (onde foi Embaixador do Brasil, em 2004). Também cumpriu missões transitórias no Vietnã e Taiwan. Viveu 15 anos na Ásia, para onde orientou sua carreira por considerar que o continente seria o mais importante do século 21 – previsão que, agora, vê cada vez mais perto da realidade.