E La Nave Vá II – nós e eles

Nestes últimos dias assistimos ao que parece revelar de maneira cada vez mais clara a confrontação que se está formalizando entre os países centrais do Ocidente – EUA e União Europeia – e aqueles que reclamam maior protagonismo na geoeconomia pós-industrial, e defendem, como condição “sine qua non”, a primazia do multilateralismo no comércio internacional.

Explico-me: no último dia 25, Donald Trump e o Presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, anunciaram, em Washington, que americanos e europeus haviam chegado a um acordo para suspender temporariamente as tarifas sobre as importações de aço e alumínio (…e automóveis?) procedentes da UE, arrefecendo o clima de confrontação que se havia instalado entre ambos. Nesse mesmo dia 25, o Presidente Xi Jinping fazia na Cúpula dos BRICS,em Johannesburgo, um empenhado discurso em prol do multilateralismo no comércio internacional.

Correlacionando estas duas iniciativas, alguns analistas entenderam que, com esta medida os EUA estariam estabelecendo uma diferenciação entre países “like minded”, merecedores de um tratamento privilegiado, e aqueles que,no entender de D.T., estariam lançando mão de “táticas viciosas no âmbito comercial” (leia-se China).

Xi afirmou na Cúpula dos BRICS que os países afetados pelas medidas dos americanos “sofreriam um duro golpe, assim como o regime multilateral de comércio”, afirmação esta que os membros da associação endossaram, e incluiram no parágrafo 7 da Declaração de Johannesburgo: “We reiterate our determination to work together to strengthen multilateralism and the rule of law in international relations, and to promote a fair, just, equitable, democratic and representative international order”: mensagem “explicita” de um grupo de países com a força econômica e política da China, Índia, Rússia, África do Sul e Brasil..

O que se pode depreender disto? Seria este mais um sintoma que confirma a cristalização de um novo paradigma na civilização pós-industrial, que esfacelou os eixos tradicionais de poder e abriu espaços cada vez maiores para os “arrivistas”, dos quais os BRICS são o exemplo mais evidente?.

Este “Nós e Eles” isolacionista sobreviverá num mundo globalizado, que torna impossível, qualquer “autismo” civilizacional? O “Ocidente Maravilha” conseguirá escapar à contaminação das culturas que reclamam voz ativa?

Isto me faz lembrar de um texto maravilhoso de Edward Said, no seu livro “Cultura e Imperialismo”: “o mundo mudou desde a época de (Joseph) Conrad e ( Charles) Dickens de formas que surpreendem, e frequentemente alarmam europeus e americanos metropolitanos, que agora se confrontam com numerosa população “não-branca” que exige que suas narrativas próprias sejam ouvidas. Essas vozes já se têm manifestado há algum tempo, graças ao processo de globalização deslanchado pelo imperialismo moderno. Descartar as experiências que se sobrepõem entre ocidentais e orientais, a interdependência das esferas culturais nas quais coexistiram e se digladiaram colonizadores e colonizados e as rivalidades das geografias, narrativas e histórias, significa perder algo que é essencial para definir o século passado”.

Esta reflexão se aplica,para mim, também à esfera econômico-comercial. Sugiro aos amigos que leiam a matéria abaixo do “Estadão”:


Presidente da China ataca ação protecionista dos Estados Unidos

Felipe Frazão, enviado especial, O Estado de S.Paulo

25 Julho 2018 | 23h11

O presidente da China, Xi Jinping, disse nesta quarta-feira, 25, que o mundo enfrenta “uma escolha entre cooperação e confronto” em meio a uma guerra comercial com os Estados Unidos, sobre a qual ele alertou que não haverá vencedor. “Aqueles que buscam hegemonia econômica só vão acabar se machucando”, disse Xi durante o encontro anual do Brics, bloco de países que reúne Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul – sede da reunião deste ano.

“Unilateralismo e protecionismo estão aumentando, dando um duro golpe ao regime multilateral de comércio”, acrescentou ele, criticando a escalada tarifária promovida pelos EUA contra produtos chineses e outros parceiros comerciais. Apenas algumas horas antes, o presidente americano, Donald Trump, acusou a China de táticas “viciosas” no âmbito comercial, ao tuitar que o país estava se direcionando especificamente aos agricultores americanos com tarifas retaliatórios porque “eles sabem que eu os amo e os respeito”.

De acordo com Xi Jinping, “a atual ordem internacional não é perfeita”, mas não deve ser descartada “desde que seja baseada em regras, seja equitativa e busque resultados com ganhos mútuos como seus objetivos”. Durante o encontro do Brics, ele disse, ainda, que está “diante de uma escolha entre cooperação e confronto, entre abertura e uma política de portas fechadas”.

O presidente da África do Sul, Cyril Ramaphosa, também expressou preocupação com “o aumento de medidas unilaterais que são incompatíveis com as regras da Organização Mundial da Comércio (OMC)” e são especialmente prejudiciais para países em desenvolvimento.

Temer. O presidente do Brasil, Michel Temer, aproveitará a participação na 10.ª Cúpula do Brics, para fazer reuniões bilaterais com o presidente da China, Xi Jinping, e com o presidente sul-africano. Os dois encontros foram confirmados nesta quinta-feira, 26: o primeiro pela manhã, e o segundo à tarde. Temer discursará também na abertura da reunião plenária da cúpula.

Conforme a Presidência, acompanham o presidente no voo à África do Sul os ministros da Agricultura, Blairo Maggi; dos Transportes, Valter Casimiro; da Indústria, Comércio Exterior e Serviços, Marcos Jorge; e da Casa Civil, Eliseu Padilha. O ministro da Fazenda, Eduardo Guardia, virá em voo separado. O ministro das Relações Exteriores, Aloysio Nunes Ferreira, já está na cidade.

Ainda nesta quinta Temer participará à tarde de uma cerimônia de assinatura de atos e memorandos, como o acordo para instalação de uma sede do NDB, o Banco do Brics, em São Paulo, que deverá funcionar a partir de 2019. O presidente ainda tem agenda em aberto ao longo do dia.

Na sexta-feira, antes de retornar ao Brasil, Temer participará de discussões sobre o futuro do Brics, no encontro chamado Retiro dos Chefes de Estado e de Governo do Brics. Depois, vai se reunir com presidentes e primeiros-ministros de países convidados, como Argentina, Jamaica e Turquia, além de uma série de países africanos: Angola, Botsuana, Etiópia, Gabão, Lesoto, Madagáscar, Malauí, Ilhas Maurício, Moçambique, Namíbia, Ruanda, República Democrática do Congo, Seychelles, Senegal, Tanzânia, Togo, Uganda, Zâmbia e Zimbábue. Ele descartou inaugurar um centro de treinamento da Embraer no país, segundo a Presidência. / COM ASSOCIATED PRESS

Publicado originalmente em https://economia.estadao.com.br/noticias/geral,presidente-da-china-ataca-acao-protecionista-dos-estados-unidos,70002415773

Fausto Godoy
Doutor em Direito Internacional Público em Paris. Ingressou na carreira diplomática em 1976, serviu nas embaixadas de Bruxelas, Buenos Aires, Nova Déli, Washington, Pequim, Tóquio, Islamabade (onde foi Embaixador do Brasil, em 2004). Também cumpriu missões transitórias no Vietnã e Taiwan. Viveu 15 anos na Ásia, para onde orientou sua carreira por considerar que o continente seria o mais importante do século 21 – previsão que, agora, vê cada vez mais perto da realidade.