ISSN 2674-8053

O Brasil, a China, Taiwan e as janelas de oportunidades – 1

“Habemus” Presidente. Uns batem palmas e outros lamentam; tal √© o jogo democr√°tico. Agora, √© seguir em frente, cada um com suas convic√ß√Ķes. O Presidente-eleito j√° manifestou que haver√° grandes mudan√ßas na nossa pol√≠tica externa. E entre elas, no nosso relacionamento com a Rep√ļblica Popular da China.

Os primeiros sinais n√£o t√™m sido muito estimulantes. O ent√£o-candidato Jair Bolsonaro visitou Taiwan, em mar√ßo passado, juntamente com os seus tr√™s filhos e o deputado do DEM, e virtual Chefe da Casa Civil, √Ēnix Lorenzoni, o que para os continentais √© algo equivalente a uma terr√≠vel afronta. Sei disto porque servi tanto em Pequim quanto em Taip√©.

Mas os chineses acharam melhor “fazer vistas grossas”, sopesando os danos que uma contund√™ncia poderia causar √†s rela√ß√Ķes. Reclamaram, como fazem sempre, por princ√≠pio: em carta carta dirigida √† Executiva Nacional dos Democratas, a Embaixada da China em Bras√≠lia manifestou que encarou a viagem com ‚Äúprofunda preocupa√ß√£o e indigna√ß√£o‚ÄĚ. Segundo o texto, a visita √© uma ‚Äúafronta √† soberania e integridade territorial da China‚ÄĚ e ‚Äúcausa eventuais turbul√™ncias na Parceria Estrat√©gica Global China-Brasil, na qual o interc√Ęmbio partid√°rio exerce um papel imprescind√≠vel‚ÄĚ.

Em outras circunst√Ęncias, e com outro pa√≠s que n√£o um “parceiro estrat√©gico global”, como √© o status oficial da nossa diplomacia bilateral, as consequ√™ncias teriam sido mais severas…muito mais, estou seguro.

Entretanto, ainda perdura – aparentemente agora matizada – a reflex√£o do ent√£o-candidato Jair Bolsonaro, e ora Presidente da Rep√ļblica eleito, de repensar os nossos relacionamentos com a RPC e com Taiwan. Caso isto aconte√ßa, este seria(√°) um “tiro no p√©” certeiro, a meu ver. Lembremos que atualmente apenas dezesseis pa√≠ses mant√™m Taip√© como sede da China, e este n√ļmero vem-se reduzindo ultimamente. Por estas bandas sul-americanas, apenas o Paraguai ainda (?) mant√©m v√≠nculos com Taip√© em vez de Pequim.

A prop√≥sito das rela√ß√Ķes Brasil-RPC, vale a pena, ainda que alongue muito esta minha reflex√£o, o que o Itamaraty p√īs no seu “site” oficial: “estabelecidas em 1974, as rela√ß√Ķes diplom√°ticas entre Brasil e China t√™m evolu√≠do de forma intensa, assumindo crescente complexidade. A cronologia recente do relacionamento demonstra a import√Ęncia do di√°logo bilateral. Em 1993, Brasil e China estabeleceram uma “Parceria Estrat√©gica” e, em 2004, foi criada a Comiss√£o Sino-Brasileira de Alto N√≠vel de Concerta√ß√£o e Coopera√ß√£o (COSBAN). Em 2010, foi assinado o Plano de A√ß√£o Conjunta 2010-2014 (PAC), que define objetivos, metas e orienta√ß√Ķes para as rela√ß√Ķes bilaterais. Vers√£o atualizada do Plano, com vig√™ncia de 2015 a 2021, foi firmada pela Presidenta Dilma Rousseff e pelo Primeiro-Ministro Li Keqiang em maio de 2015. Em 2012, por ocasi√£o da visita ao Brasil do ent√£o Primeiro-Ministro Wen Jiabao, as rela√ß√Ķes foram elevadas ao n√≠vel de “Parceria Estrat√©gica Global”, estabeleceu-se o Di√°logo Estrat√©gico Global entre Ministros das Rela√ß√Ķes Exteriores, e firmou-se o Plano Decenal de Coopera√ß√£o (2012-2021)” (sic).

A China continental, como sabemos, caminha a passos largos para tornar-se, dentro de alguns (pr√≥ximos) anos, a principal economia mundial, em termos de PIB nominal E o nosso relacionamento √© realmente “estrat√©gico”: somos, para ela, entre outras coisas, juntamente com a √Āfrica, o celeiro que alimentar√° a sua popula√ß√£o √† medida que ela abandona paulatinamente o seu perfil de exportadora de produtos de baixa tecnologia e persegue o seu plano “China 2025”, que – entende ela -, a transformar(√°)ia em l√≠der da economia p√≥s-industrial mundial, baseada na tecnologia de ponta.

Ou seja, a China precisa de n√≥s, assim como n√≥s dela, haja vista a que desde 2009 ela √© o nosso principal parceiro comercial. E em termos de investimentos diretos, o Brasil tornou-se, no per√≠odo de 2014 a 2017, o segundo maior destino dos investimentos chineses em todo o mundo, atr√°s apenas dos Estados Unidos O apetite deles pelo setor el√©trico brasileiro, por exemplo, j√° n√£o √© nenhuma novidade.Com os trilh√Ķes de d√≥lares de que disp√Ķem para investir no exterior, j√° h√° algum tempo nos tornamos um dos destinos focais para eles. Segundo a “C√Ęmara de Com√©rcio e Ind√ļstria Brasil-China”, a “China Three Gorges Corporation”(CTG) j√° aportou US$ 12 bilh√Ķes nesta √°rea em nosso pa√≠s, muito no setor de energia limpa.

Ou seja, a China √© um bom ou mau neg√≥cio? Devemos arrefecer o nosso relacionamento com ela e buscar parceiros alternativos? Quais? Para onde vai o transatl√Ęntico da geoeconomia?

Perguntas complexas e exerc√≠cio de futurologia complicado…Por exemplo, quem imaginaria, quando eu nasci, em 1945, que a ainda grande nau brit√Ęnica, cruzando mares onde o sol jamais se punha, estaria hoje, em apenas 70 anos, enfrentando o “Brexit”? Da mesma forma, at√© quando os EUA resistir√£o √† introvers√£o que D.T. lhes est√° impondo? E ser√°, mesmo, que a RPC est√° “com essa bola toda”?…Ser√°?…

O que eu sei √© que ainda estamos completamente fechados para o mundo do s√©culo XXI e que √© preciso aud√°cia para nos guiarmos pela b√ļssola que nos levar√° a um lugar melhor, a todos n√≥s, brasileiros. Nestas circunst√Ęncias, n√£o devemos, acredito, nos intimidar com a emerg√™ncia da Rep√ļblica Popular. N√£o seria mais inteligente se, em lugar de resistirmos, e “condenarmos” a voracidade chinesa, como prop√Ķem alguns, busc√°ssemos “ways and means” de orientar a nossa parceria estrat√©gica em nosso proveito? O fundamental seria, na verdade, ampliar e sofisticar a pauta econ√īmico-comercial bilateral.

E a quest√£o de China X Taiwan…seria sequer cogit√°vel?

J√° temos com a Ilha um relacionamento bastante denso, e correto, a meu ver. O nosso Escrit√≥rio Comercial em Taip√©, onde servi, tem todas as compet√™ncias e habilidades para mantermos um relacionamento cultural e econ√īmico-comercial fluido e mutuamente proveitoso. Taiwan √© um dos principais parceiros econ√īmicos do Brasil na √Āsia, e somos o d√©cimo oitavo maior parceiro comercial de Taiwan.Muitas empresas de eletr√īnicos taiwaneses estabeleceram f√°bricas no Brasil. E os dois lados do Estreito de Taiwan est√£o at√© agora satisfeitos com este formato das rela√ß√Ķes, “trilaterais” (embora para Taip√© seria muito mais interessante a diplomacia bilateral plena, √© claro…).

Na medida em que este tema – a pol√≠tica de “uma s√≥ China” – √© o mais sens√≠vel para o relacionamento dos pa√≠ses com o Continente, melhor ser√° fazermos o que os dois lados do Estreito de Taiwan j√° v√™m eles pr√≥prios fazendo entre si h√° d√©cadas: preservar o “status quo” e aguardar que a Hist√≥ria venha a retificar (“confederacionalizar”??) a trajet√≥ria dos, no fundo, parceiros m√ļtuos.

Fausto Godoy
Doutor em Direito Internacional P√ļblico em Paris. Ingressou na carreira diplom√°tica em 1976, serviu nas embaixadas de Bruxelas, Buenos Aires, Nova D√©li, Washington, Pequim, T√≥quio, Islamabade (onde foi Embaixador do Brasil, em 2004). Tamb√©m cumpriu miss√Ķes transit√≥rias no Vietn√£ e Taiwan. Viveu 15 anos na √Āsia, para onde orientou sua carreira por considerar que o continente seria o mais importante do s√©culo 21 ‚Äď previs√£o que, agora, v√™ cada vez mais perto da realidade.