Polemizando (e como…): os chineses e a censura

A análise desta matéria do “New York Times”, que o Estadão publica hoje, é muito complexa, e muito sensível. A autora, Li Yuan, comentarista daquele jornal sobre tecnologia asiática, afirma que a censura imposta pelo governo chinês na internet “cria uma defasagem enorme em relação a outros países”, e que o desinteresse da população, sobretudo a mais jovem, em saber o que é censurado, permitiu que as autoridades de Pequim criassem “um sistema alternativo (os “sites locais”) que compete com a democracia ocidental”, tornando em sonho impossível o acesso dos gigantes mundiais da internet ao mercado consumidor chinês (o maior do planeta, como sabemos). Mais além, segundo ela, “a China exporta seu modelo de internet censurada para outros países, como Vietnã, Tanzânia e Etiópia”…

Li afirma ainda que nos últimos tempos “o Partido Comunista da China deixou claro que vai aumentar o controle ideológico, sob a presidência de Xi Jinping”. O mais interessante, continuando a leitura da matéria, é que pesquisadores da Universidade de Pequim e de Stanford, nos EUA, “chegaram à conclusão de que os universitários chineses são indiferentes quanto a ter acesso a informação sensível e censurada”, diferentemente da geração “rebelde” da década de oitenta.

Quais seriam as razões? Vamos por partes…

Os “millenials” chineses vivem hoje uma afluência que jamais poderia ter sido sequer imaginada nas décadas anteriores. Exemplo: quando eu servia em Pequim, nos anos 90, seus pais não tinham direito sequer à propriedade da própria residência: tudo pertencia ao Estado.Hoje, eles não somente a possuem, senão também dispõem de recursos para fazer turismo pelo mundo afora. Encontrei chineses até em Valência, na Espanha, roteiro certamente fora do roteiro usual.

Com a desconstrução do maoismo “hard” e a consolidação da “economia socialista de mercado”, deslanchada por Den Xiaoping nos anos 80, o processo de abertura econômica transformou radicalmente as expectativas da sociedade, solapando a própria base da ideologia marxista-maoista que formatou a República Popular, nos idos de 1949. Ou seja, os chineses nunca se sentiram tão felizes (?…) quanto agora. Isto constatei no contato com eles. Tal afluência os torna “insensíveis” – por enquanto, ao menos – quanto ao preço que estariam pagando por esta “nova” felicidade, até mesmo o distanciamento com relação ao que está ocorrendo mundo afora.

Certo ou errado? dilema atroz, que toca as bases da própria civilização chinesa. Por que? Um dos pilares desta civilização, dificilmente compreendido no Ocidente, aliás. é o conceito do “Mandato do Céu”, milenar (nasceu na dinastia Zhou (1046-256 a,C.), e até hoje observado, ainda que muitas vezes inconscientemente. E o que é este conceito? De fundo confucionista, segundo ele, a sociedade delega ao mandatário (imperador, presidente, partido, etc.) o mandato – divino – de governá-la. Entretanto, este mandato não é incondicional, mas vinculado a que aquele que o detém se mostre “virtuoso” na governança; caso contrário ele perderá o mandato do céu e será destituído. A História da China é exatamente isto: uma dinastia se instala com o apoio da população e na medida em que não atende aos seus anseios, os seus líderes sã depostos e se inicia um outro ciclo…A última delas se chama “Partido Comunista Chinês”).

É isto, a meu ver, o que informa o alienamento da sociedade chinesa contemporânea: o PCC está correspondendo aos anseios da população, ávida de uma qualidade de vida muito diferente da que viveu tanto no “século das humilhações” – século XIX – quanto nos primórdios do maoismo (Grande Salto Adiante, Revolução Cultural, etc.). Seguindo a mentalidade pragmática dos chineses, por que mudar se eles acham que estão melhor do que nunca (malgrado a reduzida oposição)? Se o mundo exterior não corresponde ao que lhes é mostrado…”so what”? O preço lhes parece (ainda) “barato”…

À medida em que avança a passos largos para assumir a liderança da economia mundial, a China “neo-potência” se vê como a líder da vanguarda geoeconômica. Entorpecidos por seu sucesso, os chineses simplesmente desdenham os “ataques ideológicos” do Ocidente.

Até quando?????

Sugiro aos amigos que leiam a matéria abaixo:


Jovens chineses vivem sem Google e sob censura

Por Li Yuan – THE NEW YORK TIMES

Wei Dilong, 18 anos, vive em Liuzhou, no sul da China. Ele gosta de basquete, hip-hop e super-heróis. Pretende estudar química no Canadá quando for à universidade. Wei é um adolescente chinês típico. Isso também se reflete em seus hábitos na internet: nunca ouviu falar do Facebook ou do Twitter e tem uma mínima noção do que é o Google. “Seria como o Baidu?”, questiona, referindo-se ao serviço de busca líder na China.

Hoje, uma geração de chineses chega à idade adulta com uma internet muito diferente da que existe no resto do mundo. Na década passada, a China bloqueou Google, Twitter, Facebook e milhares de sites estrangeiros. Em seu lugar, surgiram inúmeros sites chineses, que oferecem as mesmas funções, mas com forte dose de censura.

É algo que cria uma defasagem enorme em relação a outros países. Acostumados com os serviços online e aplicativos domésticos, muitos chineses não se interessam em saber o que foi censurado, o que permite às autoridades em Pequim criarem um sistema alternativo que compete com a democracia liberal ocidental. E é uma tendência que se propaga: hoje, a China exporta seu modelo de internet censurada para outros países, como Vietnã, Tanzânia e Etiópia.

Para as gigantes de internet dos EUA, a esperança de uma participação no mercado consumidor chinês – o maior do mundo, vale lembrar – se torna cada vez mais um sonho impossível.

Nos últimos tempos, o Partido Comunista da China deixou claro que vai aumentar o controle ideológico sob a presidência de Xi Jinping. No primeiro semestre, a Cyber Administration China, órgão regulador da internet no país, informou ter fechado ou revogado as licenças de mais de três mil sites.

As empresas americanas, porém, continuam buscando “furar a Muralha da China”. Em julho, o Facebook tentou abrir um escritório no país, mas teve sua licença retirada. Já o Google, diz o site The Intercept, estaria trabalhando em uma versão censurada de seu motor de busca para voltar ao mercado chinês, de onde saiu em 2010. O projeto provocou protestos dos funcionários da gigante, que veem nele uma ameaça à privacidade dos usuários. E mesmo que consigam entrar na China, as americanas terão de se defrontar com a apatia dos jovens locais.

Indiferença. Após uma pesquisa de 18 meses, dois economistas, das universidades de Pequim e de Stanford, chegaram à conclusão de que os universitários chineses são indiferentes quanto a ter acesso a informação sensível e censurada. O método foi simples: eles forneceram a mil estudantes do país ferramentas gratuitas para contornarem a censura.

Mais da metade deles não fez uso delas. Entre os que fizeram, quase nenhum perdeu tempo navegando por sites de notícias outrora bloqueados. “Nossa pesquisa sugere que a censura na China é eficaz. O regime não só dificulta o acesso à informação sensível, mas também fomenta um ambiente em que os cidadãos não fazem questão dessas informações”. É o caso de Zhang Yegiong, de 23 anos. “Cresci com o Baidu, estou acostumado com ele”, disse ela, que trabalha em um serviço de e-commerce local.

É uma atitude bem diferente de quem nasceu na década de 1980, uma geração “rebelde”. Um de seus integrantes mais famosos era Han Han, blogueiro que questionava os valores do país. Hoje, não há chineses como ele – nem o próprio Han, que hoje tem 40 milhões de seguidores no Sina Weibo, o Twitter chinês. Suas postagens, porém, versam sobre seus negócios, filmes e carros de corrida.

Em março, quando a chinesa Tencent, dona do WeChat, uma espécie de WhatsApp chinês, realizou uma pesquisa com 10 mil pessoas nascidas depois de 2000, 80% dos entrevistados disseram que a China está no seu melhor momento. Quase a mesma porcentagem se disse otimista com seu futuro.

É no que crê Shen Yanan, de 28 anos, que trabalha num site de imóveis em Baoding, perto de Pequim. Ela se descreve como patriota e otimista. Todas as noites, assiste a novelas coreanas no celular, mas não tem nenhum app de notícias – afinal, não se interessa por política. Mesmo quando foi ao Japão, só usou o Google Maps. “Os apps chineses têm tudo que preciso”, diz.

Já Wen Shengjian, de 14 anos, quer ser um rapper, inspirado em ídolos como Drake e Kanye West. Para ele, porém, as críticas sociais não funcionariam na China – “um país em desenvolvimento e que precisa de estabilidade social”. É o discurso do Partido Comunista, que os livros repetem o tempo todo.

Fã de basquete, o jovem até conhece nomes como Google, Facebook e Instagram. Mas nunca os usou – um amigo de seu pai lhe disse que “não são apropriados para o desenvolvimento do socialismo chinês.” Ele concorda: “não precisamos deles”.

/ TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

Originalmente publicado em https://link.estadao.com.br/noticias/geral,jovens-chineses-vivem-sem-google-e-sob-censura,70002461765

Fausto Godoy
Doutor em Direito Internacional Público em Paris. Ingressou na carreira diplomática em 1976, serviu nas embaixadas de Bruxelas, Buenos Aires, Nova Déli, Washington, Pequim, Tóquio, Islamabade (onde foi Embaixador do Brasil, em 2004). Também cumpriu missões transitórias no Vietnã e Taiwan. Viveu 15 anos na Ásia, para onde orientou sua carreira por considerar que o continente seria o mais importante do século 21 – previsão que, agora, vê cada vez mais perto da realidade.