Trump e a destruição do sistema multilateral

Em 1987, ainda no calor da Guerra Fria, um importante passo foi dado para que as tensões globais diminuíssem e parassem de ameaçar a Humanidade. Neste ano os governos dos Estados Unidos e da então União Soviética assinaram o Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermediário.

O principal objetivo do Tratado era a eliminação gradual de mísseis balísticos e de cruzeiro (nucleares ou convencionais) que tivessem um alcance até 5500 km.Seriam permitidos mísseis com alcance de até 500 km, o que mostra a ideia de que os mísseis deveriam ser apenas para defesa fronteiriça, devido a seu curto alcance. A ideia era acaber com os mísseis até 1991, quando então foram contabilizados 846 destruídos pelos EUA e 2692 pela URSS.

Outro importante avanço do Tratado foi a permissão que qualquer das partes tinha para inspecionar instalações militares da outra parte. Isso era uma forma de construir uma confiança mútua e manter canais de diálogo aberto, algo fundamental para que o mundo ingressasse numa fase mais cooperativa. Efetivamente a década de 1990 apresentou ao mundo a ideia de que a colaboração multilateral tinha um espaço importante para moldar o mundo em bases mais pacíficas, como ficou demonstrado pelas várias conferências internacionais que culminaram em importantes acordos globais.

No último dia 20 de outubro [2018] o presidente dos EUA, Donald Trump, anunciou a retirada de seu país do Tratado. Basicamente seu argumento para sustentar essa ação foi a de que esse Tratado limita a capacidade de atuação dos EUA e da Rússia, porém a China não teria a mesma restrição. Com isso, em sua visão, os EUA passariam a estar mais fracos globalmente.

O argumento é racionalmente lógico, mas absolutamente atemporal. As visões mais ortodoxas das relações internacionais entendem que o aumento do poder de um ator internacional imediatamente leva à diminuição relativa do poder dos demais atores. Essa é uma visão que se mostrava válida quando a estrutura de divisão de poderes internacionais era bipolarizada e tensa, momento este que ficou conhecido como Guerra Fria.

Desde então o mundo avançou muito em termos de cooperação internacional e criação de mecanismos de controle e participação ativa da comunidade internacional. Desta forma, a saída do Tratado não levará à possibilidade de aumentar o poder dos EUA, mas sim a sua diminuição. Isso se deve ao fato de que o desaparecimento de estruturas de colaboração internacional aumentam as incertezas internacionais, levando ao aumento da tensão. Na medida em que atualmente não temos inimigos claramente colocados (como era na Guerra Fria), essas tensões podem levar a ataques de natureza não-Estatal, ou seja, de bases terroristas e transnacionais.

Se o presidente Trump está realmente preocupado com a China, mais do que sair do Tratado, deveria estar pressionando para que esta também entrasse no Tratado, ou que buscasse formas de a China também limitar sua capacidade bélica.

A saída dos EUA do Tratado não é apenas uma questão de política norte-americana, é uma questão global e que afeta potencialmente a todos os países, além de ser mais um golpe na importante estrutura multilateral que ainda temos.

Rodrigo Cintra
Pós-Doutor em Competitividade Territorial e Indústrias Criativas, pelo Dinâmia – Centro de Estudos da Mudança Socioeconómica, do Instituto Superior de Ciencias do Trabalho e da Empresa (ISCTE, Lisboa, Portugal). Doutor em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (2007), Mestre em Ciência Política pela Universidade de São Paulo (2001) e Bacharel em Relações Internacionais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (1998). Atualmente é Coordenador do curso de graduação em Relações Internacionais e da Pós em Negócios Internacionais da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), além do gestor da Diretoria de Internacionalização.