A respeito de Hong Kong

Hoje aumentou o nível dos protestos em Hong Kong contra o projeto de lei que autoriza a extradição para o Continente de cidadãos, tanto de HK quanto de Macau, acusados de crimes graves, entre os quais assassinato e estupro. Os manifestantes invadiram o Parlamento. Estas manifestações acirram o clima de confrontação, que, no dia 16 de junho passado, haviam levado cerca de dois milhões de pessoas às ruas.

Segundo o controvertido projeto, aliás momentaneamente suspenso pela Chefe do Executivo de HK, Carrie Lam, seria o governo da Região Administrativa Especial de Hong Kong/SAR(RAE) e não o de Pequim que teria a palavra final sobre a extradição. Ainda segundo as autoridades continentais, não seriam extraditados os acusados de crimes políticos e religiosos… Céticos – e descontentes- os manifestantes exigem o arquivamento – e não apenas a suspensão -, do polêmico documento.

Independentemente do seu mérito, cabe, a meu ver, repensar a questão da SAR/RAE no contexto econômico e político do relacionamento entre a Ilha e o Continente.

E um pouco de História não faz mal a ninguém…

Primeiramente, é importante relembrar como se deu a perda de Hong Kong para os ingleses. Foi no final das chamadas “Guerras do Ópio”, entre o moribundo império Qing (1644/1912) e a Coroa inglesa. Estas guerras se deram em duas etapas: a primeira em 1839/42, e a segunda em 1856/60. Elas ocorreram porque no início do século XIX o Império Britânico dependia substancialmente do comércio de chá com a China, e como suas exportações não logravam equilibrar a balança comercial – os chineses demandavam principalmente prata (proveniente, aliás, da América Latina…) – a solução que os ingleses encontraram foi exportar grandes quantidades do ópio produzido no nordeste da Índia – então colônia, até 1947 – viciando a população chinesa no consumo da droga.

Quando a corte de Pequim resolveu combater finalmente este comércio pernicioso, foi, então, alvo das duas guerras; é o que os chineses chamam de “o Século das Humilhações” (aliás, uma das razões psicossociais da emergência do comunismo e da República Popular, em 1949), que serão sempre lembradas como uma das grandes atrocidades do colonialismo inglês – e uma mancha na sua História

A perda de Hong Kong deu-se em duas etapas: a primeira através do “Tratado de Nanquim” (1842), pelo qual a ilha tornou-se colônia da coroa britânica “à perpetuidade”. A segunda ocorreu ao final da Segunda Guerra do Ópio, quando a Corte de Saint James adquiriu, em 1898, o domínio (“leasing”) sobre a Península de Kowloon e as 235 ilhas que circundavam Hong Kong, por 99 anos. Estes foram os que os chineses chamam de “tratados desiguais”.

A partir de então foram imprimidos junto à população valores civilizacionais e econômicos britânicos, além de uma mentalidade anglófila que afastaram os dois lados da China. Estive em Hong Kong quando servia em Pequim, em meados dos anos 90 – antes da anexação, portanto – e pude ver, “ao vivo e em cores”, o hiato civilizacional que separava os dois lados. Fiquei particularmente impactado pela perceptível arrogância da população com relação aos continentais (e com os ocidentais, diga-se de passagem…). Indagava-me como seriam estes sino-ingleses afluentes. porém constantemente “ameaçados” pela emergência acelerada da RPC.

Em julho de 1997, finalmente Hong Kong foi devolvida à República Popular da China, sob o regime de “um país e dois sistemas”. Pequim não perdeu tempo em delinear um plano pelo qual a cúpula administrativa de Hong Kong tornou-se sua “dependente”, através do estabelecimento da “Lei Básica de Hong Kong”, em abril de 90, que se tornou a “mini-constituição” da Região Administrativa Especial de Hong Kong/SAR-RAE. Paralelamente, um Conselho Legislativo (“Legislative Council”) e uma cúpula administrativa, ambos compostos por membros nomeados pelo Partido Comunista Chinês, consolidaram a subordinação, que garantiu a continuidade do vínculo. Por sua vez, um megaempresário do setor de transportes marítimos, Tung Chee-hwa, que não tinha qualquer experiência administrativa anterior, assumiu a governança do território.Esta continuou, desde então, definida por Pequim.

As recorrentes manifestações contra o que seus participantes acreditam ser o jugo de Pequim, como a de hoje, vêm-se intensificando à medida que a Região Administrativa vem perdendo comparativamente sua importância econômico-comercial frente ao crescimento acelerado da República Popular e à inquestionável importância que a RPC assume em todo o planeta. Em contrapartida, o ainda afluente comércio entre as duas regiões mantém-se sólido: na última década, o Continente foi o principal destino das exportações e importações de Hong Kong, e a Ilha é o terceiro maior destino das exportações da RPC, muito devido ao papel relevante que desempenha através do “efeito intermediador”. Neste cenário, o empresariado “hongkongnês” é um firme apoiador do bom relacionamento entre ambos.

Ou seja, ECONOMIA versus POLÍTICA é o X da questão. E ela extrapolou para a crescente oposição. Vamos por partes:

PRÓS:

– os vínculos econômico-comerciais são inquebrantáveis entre os dois lados da China, sobretudo agora que a RAR compete com as cidades costeiras do continente desde a criação das Zonas Econômicas Especiais (ZPE´s), na lindeira com Hong Kong e Macau, na década de 80/90, que absorveram muito do papel estratégico que a Ilha desempenhava anteriormente;

– Pequim necessita preservar a imagem de abertura para o mundo globalizado, principalmente diante da “guerra comercial” com os Estados Unidos. Uma contramarcha que pudesse parecer “ditatorial” poderia esmaecer sua imagem e ser objeto de reações negativas de parte das potências ocidentais, sobretudo. Ou seja, não interessa à atual liderança do Continente demonstrar assertividade (agressividade???) ainda maior da que tem sido percebida pelo Ocidente “central”, e acirrar os antagonismos;

– muitos valores “ocidentais” que Hong Kong preserva são importantes para “traduzir” a China para o mundo, sobretudo o dos negócios, principalmente no que respeita aos sistemas bancário, legal e de investimentos;

– Hong Kong ainda é um “álibi” para o comércio cada vez mais intenso entre o Continente e Taiwan – a Ilha Rebelde – pois ainda é através de escritórios “fictícios” em Hong Kong que parte das transações entre os dois lados se processam;

– e, no fundo, são três milhões de pessoas em HK contra um bilhão na RPC…

CONTRAS:

– é sobretudo no que diz respeito à percepção da RPC perante o mundo onde reside o maior dilema para os continentais… e o maior trunfo para os ilhéus. Frente à sua investida econômico-comercial pelo planeta afora – na América Latina, Ásia Central e África, por exemplo -, à RPC interessa preservar um conceito “bom-mocista” que lhe alimente uma imagem positiva. Um confronto, parecido com o Tian An Man, de 1989. seria muito nefasto neste momento;

– mas é sobretudo na região imediata do sudeste asiático que se encontra o maior “perigo”, diante dos litígios cada vez mais acirrados em torno das ilhas do Mar da China, que causam crescentes preocupações junto aos seus vizinhos sobre suas veleidades de hegemonia territorial. Sobretudo diante do seu ambicioso projeto “One Belt, One Road”, que busca reescrever, sob sua liderança, a cartografia econômico-tecnológico-comercial deste século.

Em resumo: são os cidadãos de Hong Kong igualmente cidadãos da República Popular? Quais liberdades “à l Ocidental” ambicionam? Estariam eles sendo os arautos de uma “democratização” da RPC? Sob qual liderança?

Dilemas para Xi Jinping…

Recomendo aos amigos que leiam a matéria do Estadão, abaixo, e reflitam, principalmente os meus colegas da academia, sobre realidades e “ocidentalidades” que, sinto, têm fugido do foco de temas desta relevância:

https://internacional.estadao.com.br/…/geral,milhares-prote…,70002875520

INTERNACIONAL.ESTADAO.COM.BR

Dois milhões protestam em Hong Kong e governo se desculpa por repressão – Internacional – Estadão

Fausto Godoy
Doutor em Direito Internacional Público em Paris. Ingressou na carreira diplomática em 1976, serviu nas embaixadas de Bruxelas, Buenos Aires, Nova Déli, Washington, Pequim, Tóquio, Islamabade (onde foi Embaixador do Brasil, em 2004). Também cumpriu missões transitórias no Vietnã e Taiwan. Viveu 15 anos na Ásia, para onde orientou sua carreira por considerar que o continente seria o mais importante do século 21 – previsão que, agora, vê cada vez mais perto da realidade.