ISSN 2674-8053

A respeito do Sufismo

Estou preparando uma s√©rie de palestras sobre o Isl√£ para o curso de Rela√ß√Ķes Internacionais da ESPM. Este √© um tema pelo qual tenho imenso interesse, sobretudo devido aos preconceitos que grassam no Ocidente a respeito da f√© e da comunidade mu√ßulmanas.

Tendo servido ao longo da minha carreira em seis pa√≠ses onde o Isl√£ √© presen√ßa maior ‚Äď √ćndia (a 3¬™. maior comunidade mu√ßulmana do planeta), Paquist√£o, Afeganist√£o, Bangladesh, Cazaquist√£o e Jord√Ęnia ‚Äď e convivido com v√°rios dos seus matizes ‚Äď da severidade fundamentalista no Paquist√£o e Afeganist√£o ao ‚Äúliberalismo‚ÄĚ no Cazaquist√£o ‚Äď decidi aprofundar os meus estudos sobre o Isl√£ e compartilhar com os amigos o que pude aprender…

E um dos temas que mais me fascinam nesse universo √© o sufismo, a corrente m√≠stica que busca o contato direto com o Divino. Para atingir este estado, o fiel persegue v√°rios passos e utiliza v√°rios meios, tanto f√≠sicos – opi√°ceas – como ps√≠quicos – o transe (como os “dervishes”). Este movimento de ascetismo radical tem ra√≠zes antigas:deriva da rea√ß√£o ao car√°ter mundano que a expans√£o do Isl√£, nos s√©culos VIII / IX estava disseminando no seio da ‚ÄúUmma‚ÄĚ, a comunidade dos fi√©is. Um dos seus elementos fundamentais √© o abandono dos desejos “perversos”, como a gan√Ęncia e a vaidade. Ali√°s, o sufismo √© conhecido como ‚Äútasawwuf‚ÄĚ em √°rabe (literalmente ‚Äúvestido com l√£”), que remete √† indument√°ria frugal dos primeiros ascetas, conhecidos como ‚Äúfuqara‚ÄĚ (pobres), em √°rabe, e ‚Äúdervish‚ÄĚ, em urdu/persa.

Duas das ‚Äúarmas‚ÄĚ de que os sufistas lan√ßam m√£o nas suas manifesta√ß√Ķes s√£o a m√ļsica devocional ‚Äď ‚ÄúQawwali‚ÄĚ ‚Äď e a poesia. O grande poeta Maulana Jalaladim Maom√©, tamb√©m conhecido como Rumi, que viveu no s√©culo XIII – que muitos brasileiros conhecem – √© um dos seus expoentes. Sua poesia afronta princ√≠pios ortodoxos do Isl√£ e revela a heterogeneidade na interpreta√ß√£o do Alcor√£o que escapa √† percep√ß√£o preconceituosa dos ocidentais. A poesia abaixo, por exemplo, demonstra um elo com o conceito da metempsicose dos hindus:

“ Desde que chegaste ao mundo do ser,
uma escada foi posta diante de ti, para que escapasses.
Primeiro, foste mineral;
depois, te tornaste planta,
e mais tarde, animal.
Como pode isto ser segredo para ti?

Finalmente, foste feito homem,
com conhecimento, razão e fé.
Contempla teu corpo – um punhado de p√≥ –
vê quão perfeito se tornou!

Quando tiveres cumprido tua jornada,
decerto h√°s de regressar como anjo;
depois disso, ter√°s terminado de vez com a terra,
e tua estação há de ser o céu.

No que toca √† m√ļsica – Qaawali – os nomes dos cantores Fateh Ali Khan e Abida Parveen s√£o os mais conhecidos internacionalmente. Escolhi uma interpreta√ß√£o da Abida Parveen, a quem tive o privil√©gio de assistir em Islamabad, para ilustrar o que mencionei acima:

Outro exemplo da poesia sufista √© o poema (musicado por Henry Corbyn) de AbŇę Bakr Muhammad ibn ‘Alńę ibn ‘Arabi, mais conhecido como Ibn Arabi, Abenarabi e Ben Arabi. Ibn Arabi foi um m√≠stico sufista, fil√≥sofo, poeta, viajante e s√°bio hispano-mu√ßulmano que viveu no s√©culo XII.na Andaluzia.

Proponho aos amigos que se interessam por quest√Ķes religiosas que assistam a estes dois v√≠deos:

YOUTUBE.COM Ibn’ Arabi – ‘Alone with the Alone’: Henry CorbinOne of the 20th century‚Äôs most prolific scholars of Islamic mysticism, Henry Corbin (1903-1978) was Professor of Islam & Islamic Philosophy at the Sorbonne i…
√Ārea de anexosVisualizar o v√≠deo Moula e Kul Best Sufi Song Abida Pareen Sufi Kalam Tasawuf do YouTubeMoula e Kul Best Sufi Song Abida Pareen Sufi Kalam Tasawuf

Fausto Godoy
Doutor em Direito Internacional P√ļblico em Paris. Ingressou na carreira diplom√°tica em 1976, serviu nas embaixadas de Bruxelas, Buenos Aires, Nova D√©li, Washington, Pequim, T√≥quio, Islamabade (onde foi Embaixador do Brasil, em 2004). Tamb√©m cumpriu miss√Ķes transit√≥rias no Vietn√£ e Taiwan. Viveu 15 anos na √Āsia, para onde orientou sua carreira por considerar que o continente seria o mais importante do s√©culo 21 ‚Äď previs√£o que, agora, v√™ cada vez mais perto da realidade.