Para entender a China de Xi Jinping

Um dos temas que sempre me fascinaram a respeito da China foi o apogeu e declínio da dinastia Qing (1644/ 1912), que, mais que qualquer outro período, ilustra a transitoriedade do poder...

Para mim, um dos exemplos mais expressivos disto é a carta que o Rei George III, da Grã-Bretanha, enviou, em 1793, ao Imperador Qianlong, através de seu enviado especial, Lord Macartney,propondo a abertura dos portos chineses ao comércio com os ingleses.

Vamos à História: durante muitos séculos a China manteve-se fechada ao intercâmbio com os outros países. Os aventureiros – apelidados pelos chineses de “diabos estrangeiros” – que ousavam chegar às suas costas corriam muitas vezes até risco de vida. Não obstante, as chamadas “chinoiseries” – porcelanas, sedas, etc. – provenientes do “Império/país do Meio” (tal como se traduz “Zhongguo”, que é o significado de China em mandarim) – atiçavam a cobiça dos europeus. Várias nações enviaram emissários à corte de Pequim no intento de criar canais de comércio. George III, mais ousado, decidiu enviar um preposto que levava uma carta pessoal para o Imperador Qianglong (1711/1799) propondo “safe and sound relations of trade”.

Antes mesmo de atingir os portos chineses, o navio que transportava o emissário foi constrangido a apor no mastro uma bandeira com os dizeres “Tribute-bearer from England” , que é como os chineses qualificavam os presentes que Macartney levava. Ainda por cima, o protocolo da Cidade Proibida exigia que aqueles que se apresentassem perante o Imperador fizessem o “kow-tow”, ou seja, se ajoelhassem três vezes, e tocassem a cabeça no solo, à medida que se aproximassem do “deus” encarnado.

Foi aí que a coisa degringolou…irritado, Macartney disse que somente cumpriria o protocolo se um alto dignitário da corte fizesse o mesmo diante do retrato de seu rei….Depois de muita negociação, chegou-se a uma forma de compromisso e Qianlong acedeu em receber o emissário.

Mas, a sua resposta é uma “obra-prima” de desdém… Já no seu nício Qianlong afirma…”You, O King, live beyond the confines of many seas, nevertheless, impelled by your humble desire to partake of the benefits of our civilisation, you have dispatched a mission respectfully bearing your memorial”…..e segue: “as to your entreaty to send one of your nationals to be accredited to my Celestial Court and to be in control of your country’s trade with China, this request is contrary to all usage of my dynasty and cannot possibly be entertained….Europe consists of many other nations besides your own: if each and all demanded to be represented at our Court, how could we possibly consent? The thing is utterly impracticable….. Our dynasty’s majestic virtue has penetrated unto every country under Heaven, and Kings of all nations have offered their costly tribute by land and sea. I set no value on objects strange or ingenious, and have no use for your country’s manufactures”.

Ironia,,,Qianlong foi o último grande monarca da dinastia Qing..Invadido pelas potências europeias no século XIX, o Império sofreu as vicissitudes da ganância colonialista que o levou a duas guerras ímpias- as chamadas “”Guerras do Ópio” (1839 e 1856) – contra a Coroa britânica, que buscava equilibrar através da disseminação do vício do ópio contrabandeado da Índia Britânica, a balança de comércio que lhe era extremamente deficitária, com isto tornando a China num país de drogados. O resgate da vergonha do “Século das Humilhações” e a busca do elo perdido da História está, em última análise, na raiz psicossocial da revolução comunista, que se metamorfoseou posteriormente nas reformas de Deng Xiiaoping, e, sucessivamente, na RPC do “China Dream” de Xi Jinping…

“Far fetched”?…então reflitamos…Quando nasci, em 1945, do Caribe à Birmânia, o sol não se punha no Império Britânico, hoje, Brexit…

Who´s next?

Recomendo vivamente aos amigos que leiam a carta de Qianlong, abaixo. É uma joia…

CHINA.USC.EDU

Emperor Qianlong: Letter to George III, 1793 | US-China Institute

Fausto Godoy
Doutor em Direito Internacional Público em Paris. Ingressou na carreira diplomática em 1976, serviu nas embaixadas de Bruxelas, Buenos Aires, Nova Déli, Washington, Pequim, Tóquio, Islamabade (onde foi Embaixador do Brasil, em 2004). Também cumpriu missões transitórias no Vietnã e Taiwan. Viveu 15 anos na Ásia, para onde orientou sua carreira por considerar que o continente seria o mais importante do século 21 – previsão que, agora, vê cada vez mais perto da realidade.