ISSN 2674-8053

Para entender a China de Xi Jinping

Para mim, um dos exemplos mais expressivos disto é a carta que o Rei George III, da Grã-Bretanha, enviou, em 1793, ao Imperador Qianlong, através de seu enviado especial, Lord Macartney,propondo a abertura dos portos chineses ao comércio com os ingleses.

Vamos √† Hist√≥ria: durante muitos s√©culos a China manteve-se fechada ao interc√Ęmbio com os outros pa√≠ses. Os aventureiros – apelidados pelos chineses de “diabos estrangeiros” – que ousavam chegar √†s suas costas corriam muitas vezes at√© risco de vida. N√£o obstante, as chamadas “chinoiseries” – porcelanas, sedas, etc. – provenientes do “Imp√©rio/pa√≠s do Meio” (tal como se traduz “Zhongguo”, que √© o significado de China em mandarim) – ati√ßavam a cobi√ßa dos europeus. V√°rias na√ß√Ķes enviaram emiss√°rios √† corte de Pequim no intento de criar canais de com√©rcio. George III, mais ousado, decidiu enviar um preposto que levava uma carta pessoal para o Imperador Qianglong (1711/1799) propondo “safe and sound relations of trade”.

Antes mesmo de atingir os portos chineses, o navio que transportava o emiss√°rio foi constrangido a apor no mastro uma bandeira com os dizeres “Tribute-bearer from England” , que √© como os chineses qualificavam os presentes que Macartney levava. Ainda por cima, o protocolo da Cidade Proibida exigia que aqueles que se apresentassem perante o Imperador fizessem o “kow-tow”, ou seja, se ajoelhassem tr√™s vezes, e tocassem a cabe√ßa no solo, √† medida que se aproximassem do “deus” encarnado.

Foi a√≠ que a coisa degringolou…irritado, Macartney disse que somente cumpriria o protocolo se um alto dignit√°rio da corte fizesse o mesmo diante do retrato de seu rei….Depois de muita negocia√ß√£o, chegou-se a uma forma de compromisso e Qianlong acedeu em receber o emiss√°rio.

Mas, a sua resposta √© uma “obra-prima” de desd√©m… J√° no seu n√≠cio Qianlong afirma…”You, O King, live beyond the confines of many seas, nevertheless, impelled by your humble desire to partake of the benefits of our civilisation, you have dispatched a mission respectfully bearing your memorial”…..e segue: “as to your entreaty to send one of your nationals to be accredited to my Celestial Court and to be in control of your country‚Äôs trade with China, this request is contrary to all usage of my dynasty and cannot possibly be entertained….Europe consists of many other nations besides your own: if each and all demanded to be represented at our Court, how could we possibly consent? The thing is utterly impracticable….. Our dynasty‚Äôs majestic virtue has penetrated unto every country under Heaven, and Kings of all nations have offered their costly tribute by land and sea. I set no value on objects strange or ingenious, and have no use for your country‚Äôs manufactures”.

Ironia,,,Qianlong foi o √ļltimo grande monarca da dinastia Qing..Invadido pelas pot√™ncias europeias no s√©culo XIX, o Imp√©rio sofreu as vicissitudes da gan√Ęncia colonialista que o levou a duas guerras √≠mpias- as chamadas “”Guerras do √ďpio” (1839 e 1856) – contra a Coroa brit√Ęnica, que buscava equilibrar atrav√©s da dissemina√ß√£o do v√≠cio do √≥pio contrabandeado da √ćndia Brit√Ęnica, a balan√ßa de com√©rcio que lhe era extremamente deficit√°ria, com isto tornando a China num pa√≠s de drogados. O resgate da vergonha do “S√©culo das Humilha√ß√Ķes” e a busca do elo perdido da Hist√≥ria est√°, em √ļltima an√°lise, na raiz psicossocial da revolu√ß√£o comunista, que se metamorfoseou posteriormente nas reformas de Deng Xiiaoping, e, sucessivamente, na RPC do “China Dream” de Xi Jinping…

“Far fetched”?…ent√£o reflitamos…Quando nasci, em 1945, do Caribe √† Birm√Ęnia, o sol n√£o se punha no Imp√©rio Brit√Ęnico, hoje, Brexit…

Who¬īs next?

Recomendo vivamente aos amigos que leiam a carta de Qianlong, abaixo. √Č uma joia…

CHINA.USC.EDU

Emperor Qianlong: Letter to George III, 1793 | US-China Institute

Fausto Godoy
Doutor em Direito Internacional P√ļblico em Paris. Ingressou na carreira diplom√°tica em 1976, serviu nas embaixadas de Bruxelas, Buenos Aires, Nova D√©li, Washington, Pequim, T√≥quio, Islamabade (onde foi Embaixador do Brasil, em 2004). Tamb√©m cumpriu miss√Ķes transit√≥rias no Vietn√£ e Taiwan. Viveu 15 anos na √Āsia, para onde orientou sua carreira por considerar que o continente seria o mais importante do s√©culo 21 ‚Äď previs√£o que, agora, v√™ cada vez mais perto da realidade.