A respeito da China e o futuro da economia mundial

O título da matéria de Celso Ming, na edição de hoje do Estadão, é “A China já é a maior economia do mundo”. Nada que os analistas informados – e menos pré-conceituosos – já não tivessem como fato concreto: para eles, não era “se”, mas “quando” isto aconteceria… Na realidade, o cálculo que levou Ming a fazer tal afirmação teve como critério o “Produto Interno Bruto pela Paridade de Poder de Compra” (PPC), ou seja, “o quanto um país pode comprar em bens e serviços com sua moeda”. Este parâmetro já vem sendo utilizado, aliás, pelo Fundo Monetário Internacional, pelo Banco Mundial e pela própria agência de inteligência americana, a CIA, para medir grandezas relacionadas à renda. Para ele, este referencial reflete melhor a economia real do que dados como “PIB nominal”, que computa a riqueza total produzida por um país, mas não a partilha com a economia real produzida pela população .

Por correção em sua análise, ele releva que “pela medida convencional, o PIB da China ainda será de US$15,2 trilhões, ou quase 27% menor do que os US$20,8 trilhões do PIB dos Estados Unidos, calcula o FMI, mas medido pelo PCC, o PIB da China já alcança US$ 24, 7 trilhões, ou seja, já é quase que 20% mais alto do que o PIB dos Estados Unidos, de US$ 20,8 trilhões” (sic). Continuando a análise, Celso Ming acrescenta que “o governo Trump não esconde sua contrariedade com o avanço do dragão oriental e decidiu enfrentar o desafio com o jogo duro que já se convencionou chamar de Nova Guerra Fria”.

Sua opinião é respaldada por ninguém menos que Jim O´Neill, o chefe de pesquisa em economia global do grupo Goldman Sachs, de Nova York, e presidente da Chatham House, de Londres. A propósito, O´Neill foi o analista que cunhou o termo BRIC’s, para significar o conjunto de países que, no seu entender seriam as potências emergentes que – “à tort ou à raison” – conformariam com os Estados Unidos as cinco maiores economias do mundo no século XXI.

Em recente matéria que publicou no último dia 08, no influente “site” de análise internacional “Project Syndicate”, intitulada “ The Logic of Sino-Western Détente”, O’Neill afirmou que “embora grande parte da torcida contra a China tenha diminuído um pouco durante a crise do COVID-19, os temores que animam as atitudes ocidentais em relação a esse país não desapareceram e podem ressurgir a qualquer momento. Estas tensões representam um grande dilema para o mundo, dado o enorme e crescente poder econômico da China. E a situação certamente não foi beneficiada pelo fracasso da outra grande potência econômica, os Estados Unidos, para gerenciar a crise atual de forma eficaz”.

Continuando, ele afirma que “devido à minha formação profissional, costumo abordar questões como a relação sino-americana primeiro como macroeconomista. Mas como presidente da Chatham House, venho desenvolvendo uma visão mais matizada do tema, levando em conta não apenas a dimensão econômica, mas também a segurança, a diplomacia, a cultura e outros fatores”. De maneira cândida, ele acrescenta que “neste contexto, parece razoável que adotemos um espectro mais amplo (que ele chama de “optimization framework”) na compreensão e gestão das relações entre a China e o Ocidente”… “Não simplificando demais as coisas, mas se a oportunidade econômica que a China representa pode ser expressa como um alvo “X”, os líderes ocidentais que decidam confrontá-la a respeito de transgressões reais ou percebidas precisam sopesar os custos potenciais de fazê-lo em contra desse alvo. Tal pensamento é natural, e suspeito que já está implícito nas abordagens dos governos britânico e europeu para a China nos últimos anos”. Continuando seu raciocínio, ele pondera que “os formuladores de políticas precisam se fazer uma pergunta mais sutil: o forte engajamento econômico é mais eficaz do que um confronto inflexível para alcançar as mudanças políticas desejadas na China?” E conclui que “responder a essas perguntas exigirá uma mente aberta”. Cinismo… ou “real politik?”

Finalizando, ele acrescenta que “em breve, teremos dados sobre o crescimento real (ajustado pela inflação) da China no terceiro trimestre, e muitos analistas esperam ver uma aceleração para cerca de 5% ano a ano, em cima de uma taxa de crescimento estimada no segundo trimestre de 2,6%. Se assim for, haverá uma boa razão para acreditar que a China está experimentando uma recuperação clássica em forma de “V”, colocando-a no caminho certo para registrar um crescimento de 8% em 2021.

Diante deste quadro, está posto o dilema que mobiliza governos e sociedades neste lado do globo: devem as democracias ocidentais priorizar as relações com a que já é a primeira economia mundial sobre os valores que são a base da sua civilização e se beneficiarem da expansão do comércio internacional “by China” e seus subprodutos, ou resistir, e com isto correr o risco de ver a caravana da História passar ao largo do Ocidente, sabido que as economias asiáticas interagem estreitamente e se sustentam por si mesmas, de tal forma que poderiam até prescindir desta parte do planeta e ainda assim sobreviver, e até expandir? Seria este o melhor cenário, que os analistas mais radicais estão classificando como um próximo passo: a “desglobalização” da economia mundial?

E surge a pergunta que não quer se calar: não será possível encontrar um “modus convivendi”, no qual os valores de cada civilização sejam mantidos – e respeitados – afastando os pré-conceitos e preconceitos que turvam o entendimento e a convivência compartilhados? Será que o poema de Rudyard Kipling, britânico de alma, e indiano de nascimento, vaticinando “oh, East is East, and West is West, and never the twain shall meet” ainda faz sentido?… Mas, se isto foi no século XIX… É claro que a equação é de difícil solução (se é que haverá uma…), dada a imbricação de tantos fatores, que reclamam o protagonismo de estadistas e não de “políticos profissionais”. Esta busca pode parecer um pensamento ingênuo e utópico, mas acredito que são as utopias que movem o mundo…descarta-se o que não convém, e aproveita-se o que agrega.

Acredito que as eleições nos Estados Unidos poderão de certa forma apresentar fatores novos para esta equação. Não que tudo será diferente caso mude a liderança por lá; ao contrário, uma administração democrata poderá ser tão ou mais severa que a republicana no trato com os chineses. Mas mudaria, acredito, o tom: não mais uma vociferação irracional do gênero “Chinavirus”, mas uma disputa menos retórica e mais focada nos bônus e ônus da convivência num sistema internacional mutante.

E nós?…

Sugiro a leitura do artigo The Logic of Sino-Western Détente

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Doutor em Direito Internacional Público em Paris. Ingressou na carreira diplomática em 1976, serviu nas embaixadas de Bruxelas, Buenos Aires, Nova Déli, Washington, Pequim, Tóquio, Islamabade (onde foi Embaixador do Brasil, em 2004). Também cumpriu missões transitórias no Vietnã e Taiwan. Viveu 15 anos na Ásia, para onde orientou sua carreira por considerar que o continente seria o mais importante do século 21 – previsão que, agora, vê cada vez mais perto da realidade.