Brasil e China: encontros e desencontros

Tenho escutado e lido muitas opiniões disparatadas sobre a China e sobre o nosso relacionamento bilateral. Muitas destas opiniões provêm de pré-conceitos e os consequentes preconceitos daqueles que não tendo convivido e acompanhado o que está ocorrendo na República Popular da China, e em toda a Ásia, percebem esta realidade de forma distorcida, com consequências graves para o nosso relacionamento com o nosso principal parceiro comercial e, mais que tudo, um parceiro estratégico, como confirmamos oficial e diplomaticamente em duas ocasiões: primeiramente em 1993, quando formamos uma “Parceria Estratégica”, e em 2012, quando a elevamos a “Parceria Global”.

Para entendermos o que está ocorrendo vamos recorrer às lições que a História nos ensina. Contrariamente ao que pouco se sabe, a presença da China por aqui data já dos nossos primeiros séculos de existência. Foram os portugueses, ocupantes de Macau, que nos trouxeram vários de seus hábitos e costumes, que de tão arraigados na nossa cultura nos escapam como tendo origem na China.

Uma das fontes desta aproximação foi o comércio espúrio com a Ásia que se desenrolava no século XVI. O Professor José Roberto Teixeira Leite, no seu livro “A China no Brasil”, nos ensina que dos primeiros tempos da colonização até as últimas décadas do século XVI, todo o comércio realizado entre portos brasileiros e da Ásia Portuguesa (inclusive Macau) efetuava-se à margem da lei, visto que era proibido às colônias negociar entre si sem o estrito controle da Coroa. Isto não impediu que o contrabando se estabelecesse com rapidez quando os navios portugueses que se dirigiam a Lisboa encontravam subterfúgios para fazer escala em Salvador, “deixando na cidade a melhor parte de suas preciosidades asiáticas, disputadas com avidez pelos compradores locais”, segundo o Prof. Teixeira Leite. E o que eram essas cargas? Seda, porcelana, chá e especiarias, sobretudo, que difundiram o gosto das nossas elites da época pelas “chinesices”.

Assim, desde o início o Brasil teve acesso ao universo chinês. Um exemplo flagrante desta influência pode ser visto na Igreja Nossa Senhora do Ó, em Sabará, Minas Gerais, que data do início do século XVIII, decorada com painéis com motivos chineses. Outro exemplo é a igreja da Companhia de Jesus em Embu das Artes, aqui em São Paulo. A presença da China no Brasil colonial foi tão forte que levou Gilberto Freyre a afirmar que “a marca deixada pela China e por outras civilizações asiáticas sobre o Brasil não é um arranhão superficial, mas sim uma cicatriz profunda”. Isto prova que a China não é um “newcomer” entre nós.

Vamos então saltar para a contemporaneidade, mais especificamente para o século passado. A China, que se manteve à margem do Ocidente durante a quase totalidade do século XIX, o “século das humilhações” e parte do século XX, decidiu a partir de ascensão de Deng Xiaoping ao poder no Partido Comunista Chinês, em 1978, abrir-se para o mundo.

Nós fomos um dos últimos países a reconhecer o governo de Pequim como o legítimo representante da China. Isto ocorreu em 1974, em pleno governo militar, com o General Ernesto Geisel na presidência da República. O então Ministro das Relações Exteriores, Antonio Azeredo da Silveira, para mim o Chanceler mais brilhante que tivemos nas últimas décadas, formulou a política do “pragmatismo responsável”, que pode ser, “mutatis mutandis”, comparada à política de Deng: “não importa se o gato é branco ou preto, desde que ele cace ratos”. Ou seja, teríamos relações com todos os países independentemente do seu regime político, desde que fosse do nosso interesse. Foi quando o Brasil decidiu abandonar os compromissos “ideológicos” como objetivo da sua política externa. Desta forma, direcionamos a nossa diplomacia para a África e o mundo em desenvolvimento, sem, entretanto, nos afastarmos do eixo ocidental que tem tradicionalmente orientado a nossa política externa. Este ecumenismo nos trouxe enormes benefícios e grande reconhecimento internacional. Orgulho-me muito de ter ingressado no Itamaraty nesse momento.

À medida que a China se “internacionalizava” ela nos buscou. Foi em 1993, quando o então Vice-Primeiro-Ministro encarregado das reformas econômicas, Zhu Rongji, que nos visitava, nos propôs formarmos uma “parceria estratégica”. O Brasil foi naquela época um dos pouquíssimos países que passaram a gozar deste “status”. Ironicamente, o nosso Produto Interno Bruto era praticamente igual ao da República Popular nesse momento. Entretanto, a definição do que era “parceria estratégica” para cada um merece ser compreendida. Para nós seria uma aliança em todos os campos, inclusive o da tecnologia que a China começava estabelecer como o foco de sua política de desenvolvimento. Foi neste entendimento que juntos criamos o “Programa CBERS” (China-Brazil Earth Resources Satellite/ Satélite Sino-Brasileiro de Recursos Terrestres), dentro do qual lançamos no final de 1999 o primeiro satélite de monitoramento da terra – principalmente a Amazônia, para nós – realizado entre países em desenvolvimento.

Entretanto os objetivos reais dos chineses se concentravam noutros setores: o que interessava a Pequim, na realidade, era o nosso agronegócio e os nossos minérios. Com recursos próprios escassos para alavancar a sua estratégia, a RPC necessitava alimentar a sua enorme população e importar os insumos requeridos para impulsionar a sua indústria e acelerar o seu crescimento.

Mas será que foi somente isto? Ou há uma razão mais abrangente para motivar a parceria? A meu ver, tanto existe que durante a visita do atual Presidente da China, Xi Jinping, ao Brasil, já em 2012, elevamos o nosso relacionamento para uma “Parceria Estratégica Global”. Nesse mesmo ano, estabeleceu-se o Diálogo Estratégico Global (DEG) e firmou-se o “Plano Decenal de Cooperação (2012-2021)”.

Qual seria o sentido do “Global” inserido na nossa parceria?

Vamos por partes. Primeiramente reflitamos sobre os aspectos geopolíticos. A China nos vê como o país mais importante da América Latina, tanto em termos econômicos quanto de liderança geopolítica (algo de que nós ainda não nos conscientizamos…). A este último respeito, ela necessita de uma contraparte que espelhe esta liderança no hemisfério ocidental para poder estender sua presença nesta parte do planeta: desafio complexo, diante da proximidade geográfica da região dos Estados Unidos, seu maior competidor pela hegemonia no século XXI.

Do ponto-de-vista econômico-comercial, somos um parceiro muito importante, como demonstra o sempre crescente comércio bilateral e os vultosos investimentos que ela – e suas empresas, tanto estatais como privadas – têm feito aqui, sobretudo nos setores de infraestrutura e energia. Somos complementares. A este respeito, a RPC foi em grande parte responsável pelo saldo positivo de US$ 34,9 bilhões da nossa balança comercial em 2019 (US$ 21,4 bilhões foram angariados junto a ela). Enquanto isto, a nossa parceria comercial com os Estados Unidos foi deficitária. De forma mais conclusiva, 28,1% das exportações brasileiras em 2019 tiveram a China como destino.

Isto sinaliza que a China tem para com o Brasil uma visão de longo prazo. Ela está consolidando – “à tort ou à raison” – a sua estratégia na busca da liderança mundial na segunda metade deste século. No leste ela já está desenvolvendo o seu projeto da “Belt and Road Initiative”, através do qual ela ambiciona recriar sob a sua liderança e financiamento, a união entre a Ásia, a Europa e a África, que construiu a história da “Rota das Seda” e tanto benefício lhe trouxe ao longo dos séculos até a derrocada do século XIX . Para complementar esta cartografia falta acrescentar a América do Sul. E nós somos, neste contexto, o seu foco principal.

Entretanto, nestes últimos tempos tem havido uma empenhada resistência de setores do nosso governo, com manifestações inamistosas tanto de parte de autoridades governamentais quanto de parlamentares com relação a ela. A pergunta que se coloca é: qual seria o benefício desta postura? Vamos alimentar nestes tempos tão complexos de corona virus tal animosidade? Parece “inteligente” fustigar o nosso principal parceiro comercial, que, aliás, nos está ajudando a combater a endemia que nos assola? Fator ideológico? “Comunismo”… na China?????…..valha-me Deus!!! Rótulo sem sentido neste mundo globalizado, pós-industrial e da tecnologia 5G, que cabe somente na cabeça dos que não conhecem a complexidade da China de 2020… Pior ainda, busca-se consolidar, como alternativa, uma aliança irrefletida com países que não respondem aos nossos pleitos e se beneficiam da nossa “lealdade” ingênua….

Bons tempos, os do nosso “pragmatismo responsável”, quando eram os nossos reais interesses nacionais que ditavam a nossa política externa…”

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Doutor em Direito Internacional Público em Paris. Ingressou na carreira diplomática em 1976, serviu nas embaixadas de Bruxelas, Buenos Aires, Nova Déli, Washington, Pequim, Tóquio, Islamabade (onde foi Embaixador do Brasil, em 2004). Também cumpriu missões transitórias no Vietnã e Taiwan. Viveu 15 anos na Ásia, para onde orientou sua carreira por considerar que o continente seria o mais importante do século 21 – previsão que, agora, vê cada vez mais perto da realidade.