ISSN 2674-8053

E la nave va… retorno ao mundo bipolar?

Após oito anos de negociações, e por vídeo-conferência em razão da pandemia da COVID-19, treze países da Ásia e dois da Oceania firmaram, no dia 15 deste mês de novembro, a “Parceria Regional Econômica Abrangente”/RCEP. Por ela se comprometeram a alavancar as relações de livre-comércio na região da Ásia-Pacífico.

O documento, que uniu os dez países–membros da Associação das Nações do Sudeste Asiático/ASEAN- Indonésia, Malásia, Filipinas, Brunei, Camboja, Singapura, Laos, Myanmar, Tailândia e Vietnã – e os cinco parceiros da Área de Livre Comércio (ALC) da associação – China, Japão, Austrália, Nova Zelândia e Coreia do Sul – prevê a redução de tarifas e a abertura do comércio de serviços em todo o bloco. A Índia, que participou das negociações, decidiu não aderir nesta etapa pelas consequências negativas que os compromissos estipulados na parceria possam causar na sua economia.

Como afirma matéria do Estadão intitulada “A integração comercial na Ásia-Oceania”, “..o pacto cobre mais seres humanos – 2,2 bilhões de pessoas – do que qualquer acordo regional de livre comércio e pode ajudar a consolidar ainda mais a imagem da China como potência econômica dominante em sua vizinhança … em certos aspectos o acordo é simbólico. Ele ainda terá que ser ratificado por todos os 15 países participantes….Mas é um símbolo poderoso…”

Que símbolo seria este?

Vejamos. A região da Ásia-Pacífico não somente é a que mais tem crescido economicamente nos últimos anos, senão também que esses países são os principais parceiros comerciais deles próprios. Ou seja, o comércio intrarregional é a mola-motora das trocas entre as próprias economias; não se poderia afirmar que elas se bastam, é claro, mas que se sustentam. Isto lhes dá de certa forma segurança e autonomia no sentido de que podem contar consigo mesmas, se for o caso. Ademais, o acordo une, de um lado, países que detêm grande liderança na área de alta tecnologia – China, Japão e Coreia do Sul – que está se tornando a alavanca da globalização pós-industrial, e, de outro, os que oferecem mão-de-obra crescentemente especializada, e – ainda – barata… Ou seja, um “casamento ideal” (?), caso se configure.

Tudo isto no contexto maior do espraiamento da China pela região, e pelo mundo, no âmbito do projeto da ”Belt and Road Initiative” – a Nova Rota da Seda – e do plano “Made in China 2025”, pelos quais ela ambiciona tornar-se a maior potência tecnológica do planeta em 2050… Isto no momento em que a alienação dos Estados Unidos do processo de globalização e a letargia da Europa e do Ocidente, em geral, abrem espaços para o que o professor Alexander Capri, da Universidade Nacional de Singapura, qualifica como “as amplas ambições da China em torno da iniciativa da Rota da Seda… que visa expandir a influência da China no mundo…É uma espécie de elemento complementar”.

A este respeito, acabo de assistir no youtube uma entrevista do influente analista indo-americano Fareed Zakaria à jornalista indiana, Shoma Chaudhury – https://www.youtube.com/watch?v=HLJJB9GUlik&feature=youtu.be

– na qual ele pontua que já estamos vivendo num mundo bipolar, capitaneado pelos dois hegemons, China e Estados Unidos, recapitulando, num outro formato, a disputa entre o Ocidente, dos EUA, e o mundo comunista, da URSS, da década de 70. Só que a temática já não é a “simplista” da Guerra Fria, na qual os antagonismos se definiam em termos ideológicos; agora eles se inserem num universo plural e difuso, onde inúmeros fatores compõem uma equação cuja abrangência vai da preservação ambiental aos questionamentos sobre religiões e direitos humanos…e até ao corona virus.

Só que…

As civilizações asiáticas são antigas como a História que as amalgama…e as confronta. Seriam as populações chinesas e sul-coreanas contemporâneas capazes de vencer o ressentimento que as opõe aos japoneses, sobretudo diante da memória das atrocidades da II Guerra? Seriam os países do sudeste asiático capazes de conviver com as disputas com a República Popular pelas ilhotas do Mar do Sul da China? Não se sentiriam as economias menores “ameaçadas” pelas grandes potências regionais? E estas, estariam dispostas a compartilhar poder(es) e/ou áreas de influência? A Austrália, “outsider” ocidental ao núcleo do sistema, saberia conviver com valores que, no fundo, não compartilha?

O ditado “inimigos, inimigos…negócios à parte”, cabe como uma luva no mundo asiático. E, no fundo, isto é comum a todas as relações entre países…Importante será entender como o hegemon do Ocidente, os Estados Unidos de Joe Biden, liderará este processo deste lado, diante dos desgastes que herdarão da gestão anterior. Mais um fator na equação já por si complexa… E, assim, “la nave va”…

Sugiro aos amigos que leiam a matéria do Estadão e assistam ao video abaixo:

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Doutor em Direito Internacional Público em Paris. Ingressou na carreira diplomática em 1976, serviu nas embaixadas de Bruxelas, Buenos Aires, Nova Déli, Washington, Pequim, Tóquio, Islamabade (onde foi Embaixador do Brasil, em 2004). Também cumpriu missões transitórias no Vietnã e Taiwan. Viveu 15 anos na Ásia, para onde orientou sua carreira por considerar que o continente seria o mais importante do século 21 – previsão que, agora, vê cada vez mais perto da realidade.