O Japão pós-Shinzo Abe

A súbita renúncia, alegadamente por motivos de saúde, de Shinzo Abe do cargo de Primeiro-Ministro do Japão, no dia 28 de agosto passado, antes do término do seu mandato, encerra um longo período no qual o país buscou reposicionar-se na região leste da Ásia e reencontrar o protagonismo que fora seu ao longo de grande parte da segunda metade do século passado até que a ascensão meteórica da vizinha China veio colocar desafios praticamente inalcançáveis para o governo e a sociedade japoneses, finalmente arrebatando do país a segunda colocação entre as maiores economias do planeta.

A história pessoal de Abe-san se confunde com a do Japão do pós-guerra. Ele é o herdeiro de uma longa e influente linhagem de políticos. Seu avô materno, Nobusuke Kishi, tornou-se conhecido pela maneira brutal com que governou o estado fantoche japonês do Manchukuo, no nordeste da China. Finda a Segunda Guerra Mundial, Kishi foi mantido preso por três anos como suspeito de crimes de guerra. Entretanto, o Tribunal de Tóquio, que julgou e ordenou a execução de criminosos, não o condenou formalmente, isto por inspiração do governo dos EUA, que enxergou nele capacidade política para consolidar o campo conservador japonês contra as percebidas ameaças do Partido Socialista do Japão, na década de 1950. Seu avô paterno, Kan Abe, e seu pai, Shintaro Abe, que ocupou o cargo de Ministro das Relações Exteriores entre 1982 e 1986, foram igualmente políticos eminentes.

Como o estadista japonês de perfil conservador mais reconhecido internacionalmente, a sua partida cria um vazio no cenário político do Japão. Afinal foram sete anos e oito meses no exercício deste segundo mandato; Abe já havia ocupado o mesmo cargo, em 2006, que deixou um ano após, envolvido numa sequência de escândalos. A ele corresponde o feito de ter sido a sua a mais longa permanência de um Primeiro-Ministro no cargo em toda a história do Japão. E também o de ter conseguido tornar-se o mais popular “Premier” do país até recentemente, quando viu sua imagem esmaecer-se frente às críticas que sofreu pela forma como lidou com a pandemia do Covid-19, mesmo que em termos gerais o Japão tenha sentido relativamente menos os seus efeitos, tanto em termos de saúde quanto da salvaguarda da economia, em comparação com muitos outros países. Não obstante, seus índices de aprovação atingiram mínimas históricas, o que, segundo os analistas, praticamente inviabilizaria uma eventual reeleição. Para eles, a forma pela qual sua saída se concretizou reflete um velho princípio da vida política: para um líder longevo que sabe que o fim de sua carreira está próximo, melhor é definir os próprios termos de partida que ser defenestrado pelos rivais. Não obstante, as suas mazelas de saúde são reais.

Ao sair Abe pediu desculpas à nação por não conseguir trazer de volta os japoneses que ainda se encontram sequestrados na Coreia do Norte, alguns deles há mais de 40 anos; por não resolver questões territoriais com a China e a Rússia; por não ter alcançado modificar a “Constituição Pacifista” e ampliar os gastos militares – uma proposta controversa -; e por não estar à frente do Japão nos – ainda incertos – Jogos Olímpicos, no verão do próximo ano.

Qual será a herança política de Shinzo Abe?

Embora saia com uma economia ainda debilitada, ele tornou o Japão mais forte e autônomo em questões de defesa e de política externa, e quem o suceder provavelmente continuará nesta trilha, o que é uma boa notícia para os defensores da paz no leste da Ásia e da ordem internacional baseada em regras gerais.

No flanco leste do Continente, dois grandes temas dominaram a sua agenda: a ameaça nuclear proveniente da Coreia do Norte e a crescente assertividade da República Popular da China na região, e em todo o planeta. No primeiro caso, frente aos testes missilísticos promovidos por Pyongyang que intermitentemente cruzam o território japonês, Abe confrontou-se com o dilema que perdura sobre o Japão desde que em 1947 o país foi obrigado a subscrever a chamada “Constituição Pacifista”, redigida e imposta pelos vencedores aliados, com os Estados Unidos à frente, pela qual, no seu artigo 9º, o povo japonês (sic) se compromete a renunciar eternamente (sic) à guerra. Ora, isto certamente fazia sentido no imediato pós-guerra, com o país esfacelado e aterrorizado pelas bombas atômicas lançadas sobre Hiroshima e Nagasaki. Entretanto, em 2020, com o ativismo beligerante da vizinhança imediata, principalmente dos norte-coreanos, faz sentido circunscrever a atuação das “Forças de Auto-Defesa” (o título é indicativo) a apenas defender o território em caso de agressão? Dilema…

Não devemos nos esquecer igualmente de que o conceito do Japão junto aos seus vizinhos nunca foi particularmente amistoso. Chineses e coreanos insistem em não esquecer as atrocidades cometidas pelos japoneses durante a Guerra do Pacífico, principalmente no que respeita às mulheres sequestradas e transformadas em “comfort women” para as suas tropas. Esta é até hoje uma ferida que não cicatrizou, malgrado os vários pedidos de desculpas – e as consequentes reparações financeiras – ofertados pelo governo de Tóquio. As cerimônias que ocorrem no Japão na data da derrota do país na II Guerra, no dia 15 de agosto, são palco de violentas manifestações, tanto na China quanto na Coreia.

É diante deste cenário que enquanto esteve no cargo Shinzo Abe incentivou a discussão sobre se o Japão deveria desenvolver sua capacidade de atacar locais de lançamento de mísseis em território inimigo no caso de que um ataque se mostrasse iminente, debate este ligado à crescente ameaça nuclear da Coreia do Norte. Deixou o cargo sem alcançar êxito; o trauma das bombas ainda perdura na memória da população, sobretudo a mais idosa. Defender a causa da segurança dos cidadãos japoneses foi sempre uma preocupação durante toda a sua gestão, contribuindo para a sua postura agressiva com relação ao regime isolado de Pyongyang. Foi por estas razões que Abe-san insistiu em preservar e alimentar o relacionamento privilegiado com os Estados Unidos, que, conforme se recorda, ao final da II Guerra firmaram, em 1951, um acordo com o Japão pelo qual se comprometeram a manter a segurança e a incolumidade do país. Não é por menos que o Premier japonês afirma(va) ser “o melhor amigo de Donald Trump”, alinhando tanto quanto possível a política externa do seu país nos foros internacionais à dos americanos, malgrado severas críticas internas e a oposição da população de Okinawa, por exemplo, à presença das tropas navais americanas estacionadas na ilha.

O outro vetor de preocupação do agora ex-Primeiro-Ministro era o crescente protagonismo da República Popular da China, “incômoda vizinha”. Até meados dos anos 90 os chineses estavam concentrados em desconstruir o comunismo maoísta e partir em direção à “economia socialista de mercado” preconizada por Deng Xiaoping e à sua abertura para o mundo. Concretizada, de certa forma, esta etapa – e após tornar-se o principal parceiro comercial para a maioria dos países – a China de Xi Jinping, assertiva e embalada pelo “China Dream” e pelo projeto “Made in China 2025”, “meninas dos olhos” do Presidente chinês, volta-se agora para consolidar a hegemonia tecnoeconômica do planeta até o final deste século, de acordo com o cálculo – e a ambição – dos chineses. Aliás, neste afã, Pequim aceitou o desafio do “grito de guerra” de Washington e parte para a disputa da liderança da pós-economia 5G, que dará ao vencedor a supremacia (isolada, ou compartilhada) do planeta.

A disputa velada entre os dois gigantes asiáticos extrapola para as questões territoriais e invade o Mar do Leste da China, onde ambos, juntamente com Taiwan, disputam a soberania sobre umas ilhotas desabitadas, que os japoneses chamam de Senkaku, os chineses continentais, de Diaoyu, e os taiwaneses, de Tiaoyutai. A agressividade da República Popular nesta disputa desvela para muitos que, no fundo, o que está em jogo é, na verdade, antes a liberdade de tráfego do comércio marítimo dos países da região em direção ao Ocidente pelo Oceano Índico que propriamente as alardeadas riquezas minerais que jazem no seu subsolo.

Abe tentou igualmente reviver a economia que se encontrava combalida desde que o colapso da “bolha asiática”, em 1991, deflagrou um longo período de estagnação, que os analistas qualificam de “a década perdida”. A sua política, rotulada de “Abenomics”, a qual consistiu em três grandes vetores para alavancar o crescimento, que os economistas chamam de “três flechas” – estímulo ao consumo, descompressão monetária e reformas estruturais – ainda que não extremamente exitosa, alcançou vencer a recessão que dominou o país durante muito tempo e encaminhá-lo para uma taxa de crescimento que, no ano passado revelou-se positiva, ainda que muito modesta. A pandemia da Covid-19 ameaça, porém, destruir todo o esforço feito, mas ainda é cedo para calcular o “estrago”, que é, aliás, compartilhado pela maioria dos países.

Diante de todos estes múltiplos desafios, ao Japão pós-Abe, cada vez mais idoso e “despopulado”, caberá, a meu ver, buscar as vantagens comparativas nas áreas que domina sobre todos os demais concorrentes, principalmente chineses e sul-coreanos. Penso nos setores automobilístico, de eletroeletrônicos, instrumentos óticos e robótica, que são o seu “ponto forte”. Estou convencido de que o mundo do futuro será o das vantagens comparativas compartilhadas.

Grandes desafios…à altura de um grande país. Minha permanência ao longo de mais de três anos servindo na nossa Embaixada em Tóquio disto me convenceu…

Sugiro aos amigos que leiam o artigo “The Japan Shinzo Abe Has Left Behind” do “site” Project Syndicate em PROJECT-SYNDICATE.ORGThe Japan Shinzo Abe Has Left Behind | by Bill Emmott – Project Syndicate

Leia também a parte II deste artigo em “O Japão pós-Shinzo Abe (II)

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Doutor em Direito Internacional Público em Paris. Ingressou na carreira diplomática em 1976, serviu nas embaixadas de Bruxelas, Buenos Aires, Nova Déli, Washington, Pequim, Tóquio, Islamabade (onde foi Embaixador do Brasil, em 2004). Também cumpriu missões transitórias no Vietnã e Taiwan. Viveu 15 anos na Ásia, para onde orientou sua carreira por considerar que o continente seria o mais importante do século 21 – previsão que, agora, vê cada vez mais perto da realidade.