Ocidente x Oriente x Covid-19 = ???

” Oh, East is East, and West is West, and never the twain shall meet,
Till Earth and Sky stand presently at God’s great Judgment Seat;
But there is neither East nor West, Border, nor Breed, nor Birth,
When two strong men stand face to face, though they come from the ends of the earth! “
(“The Ballad of East and West”, poema de Rudyard Kipling”)

Este poema que Rudyard Kipling escreveu em 1889, em plena luta da Índia pela independência do Raj Britânico, parece ser mais que nunca atual nestes tempos de covid-19. Esta reflexão me veio à mente quando assisti a vídeo-conferência entre influentes personalidades políticas e acadêmicas brasileiras – o Presidente Fernando Henrique Cardoso, o Embaixador Sergio Amaral e os professores Sergio Fausto e José Pio Borges – com o cientista político norte-americano, Joseph Nye. Este, como se sabe, é reconhecido internacionalmente pela teoria que desenvolveu juntamente com seu colega Robert Keoane da interdependência complexa –“complex interdependence”- entre Estados e sociedades contemporâneos.

Os panelistas discutiram se este novo – e, na realidade, ainda desconhecido – contexto pandêmico, resultará numa forma diferenciada de interação entre os Estados e as sociedades, em escala global. Em termos do(s) eixo(s) de poder mundial, a pergunta que eles se fizeram foi se quando amainada a crise, ficará como herança um “novo normal” no relacionamento entre o Ocidente e o “não-Ocidente”, sobretudo com o leste da Ásia.

O motivo desta reflexão foi a postura que os Presidentes Xi Jinping e Donald Trump e os governos chinês e americano assumiram na condução do processo de combate ao vírus em seus territórios e os resultados diferenciados registrados como fruto de suas ações, que demonstraram formas distintas de exercer o poder. E, como não poderia deixar de ser, o foco recaiu sobre qual será a cara da disputa cada vez mais acirrada entre a RPC e os EUA pela hegemonia do planeta pós-covid 19 (onde fica a Europa?…). Em suma, seremos os mesmos após o trauma? Ou será que o impacto e as profundas mudanças que a pandemia – de “autoria“ chinesa -deflagrou (evidenciou…) no mundo inteiro constituirão o “divisor de águas” que alterará o padrão do convívio entre as nações, “obrigando-as” a ter que optar, em última instância, por um modelo de mundo “ocidentocêntrico”, ou pelo “cinocêntrico”?

A este respeito, o economista sérvio radicado nos Estados Unidos, Branko Milanovic, entende que o “capitalismo venceu”: tornou-se o único modo de produção em todo o mundo, ao contrário de outros períodos da humanidade em que diferentes sistemas conviviam simultaneamente. Segundo ele, “mesmo na China oficialmente “comunista”, mais de 80% da produção é controlada pelo setor privado, em simbiose com o Estado”. Este não é senão o sentido da “economia socialista de mercado”, neologismo cunhado por Deng Xiaoping quando iniciou o processo de abertura da República Popular para o mundo, em 1979.

Borradas pela globalização, desmantelam-se paulatinamente as fronteiras que dividiam o planeta entre “o lado de cá e o de lá”, em que pese ao discurso ideológico anacrônico e obtuso que ainda prevalece em algumas regiões, como nestes pagos. E a China de Xi Jinping, aproveitando-se do vácuo criado pela retração dos Estados Unidos de D.T. da cena internacional, como demonstra o paulatino desengajamento do país dos organismos e acordos multilaterais, vem abandonando uma postura tradicionalmente retraída e ocupando estes espaços, sobretudo no leste e sudeste da Ásia, em termos políticos e geográficos, e econômicos, por todo o mundo. A pandemia não fez senão acelerar uma tendência que já estava no horizonte.

Esta “ousadia” do dragão chinês, que ainda assusta a tantos, esteve subjacente durante as discussões na video-conferência. Um dos focos principais girou em torno de se definir o que é o Ocidente, e seus valores. Este aspecto foi extensamente abordado pelos panelistas. Todos concordaram, afinal, que nós, brasileiros, pertencemos ao Ocidente. Mas, na minha cabeça permaneceu – como desde sempre, aliás – a dúvida: será, mesmo? Geograficamente, está fora de cogitação: sim, estamos situados a oeste do meridiano de Greenwich; e fomos, sim, colonizados pelos portugueses no início da nossa história repertoriada, que nos trouxeram a cultura cristã. Mesmo assim, fazemos parte do Ocidente “hard” – euro-americanocêntrico – que define e impõe seus valores “erga omnes” e tem dificuldade em conviver com as outras civilizações? Serão esses valores absolutamente intercomunicantes com os nossos? E onde ficam os referenciais – fundamentais, julgo eu – que temos impregnados no DNA da nossa cultura e no nosso sangue, e que nos individualizam? Onde fica o Brasil-África e o Brasil pré-cabralino que nos tornam sincréticos e tão particulares na nossa constituição física e mental?

Diante destas particularidades, teremos que necessariamente optar entre o “comunismo autoritário” chinês / Oriental e o “capitalismo meritocrático liberal” / Ocidental? Será que, em última análise, estes conceitos fazem sequer sentido na Pangeia globalizada e desmembrada entre tecnologia 5G, meio-ambiente, refugiados, etc., que são os verdadeiros desafios do nosso presente/futuro? Segundo Milanovic, “as novas dinâmicas da globalização e a liberalização descontrolada dos mercados financeiros a partir dos anos 1980 aumentaram a desigualdade interna em quase todos os países, ainda que tenham retirado uma massa enorme de população da linha extrema da pobreza…as classes médias dos Estados Unidos, da Europa e da América Latina estagnaram ou declinaram, com a desindustrialização das suas economias”.

Não seriam estes os desafios e as verdadeiras metas da civilização planetária do futuro? A meu ver, ela prescinde de ideologias peremptas; não deveria haver um “Tordesilhas cino-americano” que divida a terra em duas metades difusas…e confusas; e nós, brasileiros, não deveríamos optar por qualquer eixo de poder, mas, antes, aferirmos toda e qualquer vantagem que atenda aos nossos interesses reais. Foi, aliás, o que concluíram os panelistas.

Devaneio delirante de idealista senil? … Fica o desafio (e o apelo)…Sugiro aos amigos que assistam a vídeo-conferência, cujo link está abaixo:

The effect of Covid-19 on GeopoliticsCONVIDADOS: JOSEPH NYE Professor emérito da Universidade de Harvard. FERNANDO HENRIQUE CARDOSO Presidente da Fundação FHC e Presidente de Honra do CEBRI.

Fausto Godoy
Doutor em Direito Internacional Público em Paris. Ingressou na carreira diplomática em 1976, serviu nas embaixadas de Bruxelas, Buenos Aires, Nova Déli, Washington, Pequim, Tóquio, Islamabade (onde foi Embaixador do Brasil, em 2004). Também cumpriu missões transitórias no Vietnã e Taiwan. Viveu 15 anos na Ásia, para onde orientou sua carreira por considerar que o continente seria o mais importante do século 21 – previsão que, agora, vê cada vez mais perto da realidade.