A China e o mundo (II)

Wang Yi – Ministro de Relações Exteriores da China

RELAÇÕES COM A RÚSSIA E O ESTADOS UNIDOS

Prosseguindo com a postagem da entrevista, no primeiro dia deste ano, do Ministro dos Negócios Estrangeiros e Conselheiro de Estado da República Popular da China, Wang Yi, para o canal em inglês do grupo estatal “China Global Television Network”/CGTN, em que fez uma avaliação da política externa do país ao longo de 2020 e sua projeção para este ano, e o futuro, repasso agora as observações que fez sobre o relacionamento da China com a Rússia e os Estados Unidos.

Como mencionei na postagem anterior – sobre a China e a Covid-19 – decidi transcrever e traduzir, apenas, a conversa, sem qualquer interferência ou consideração de caráter pessoal, uma vez que me pareceu importante conhecer a visão oficial que a Chancelaria chinesa tem do papel que entende ser o da China, e o seu próprio, nas relações internacionais.

No final repito e link da entrevista caso os amigos tencionem acompanhá-la.

Aí vai o que ele disse:

RELAÇÕES CHINA- RÚSSIA

“As relações sino-russas enfrentaram o desafio de uma pandemia única num século. Os presidentes Putin e Xi mantiveram cinco contatos telefônicos e trocaram correspondência em múltiplas ocasiões, buscando o desenvolvimento constante das relações bilaterais e o apoio permanente dos dois povos. A Rússia foi o primeiro país a enviar medicamentos e suprimentos para a China, e a China foi um dos mais aguerridos apoiadores dos esforços russos na resposta à Covid 19. Os dois países têm trabalhado em conjunto no desenvolvimento de vacinas e medicamentos.

Os dois países têm facilitado com vigor a reabertura econômica e preservando o funcionamento das indústrias e das cadeias de suprimento. Fizemos progresso contínuo em vários projetos maiores. A cooperação bilateral na economia digital, e-commerce e outras formas de negócios, teve um desenvolvimento acelerado, assim como (foi estabelecida) uma mais estreita colaboração em temas internacionais.

O ano de 2020 marcou o 75º aniversário da vitória na II Guerra Mundial e da fundação da ONU. A China e a Rússia têm atuado juntas na defesa dos resultados vitoriosos da II Guerra Mundial, na defesa dos valores de equilíbrio e justiça. Os dois países têm-se apoiado mutuamente no que respeita aos interesses fundamentais do outro, e estiveram lado a lado contra as políticas de poder, o que sublinha o significado global das relações China-Rússia.

Este ano de 2021 tem particular importância para as relações China-Rússia, pois os dois países atingiram um novo estágio de desenvolvimento. Ao desenvolver uma cooperação estratégica China-Rússia, nós não antevemos nenhuma zona interdita e nenhum teto que limite até onde esta cooperação poderá ir. Focando a tarefa central de incrementar o diálogo entre presidentes, os dois países aproveitarão o 20º aniversário da assinatura do “Tratado de Boa Vizinhança e Cooperação Amistosa” para renovar o compromisso mútuo de paz duradoura e de uma cooperação “win-win”. Sendo um âncora estratégica do outro, a prioridade diplomática e a busca das oportunidades para o desenvolvimento da parceria global vão no sentido de os dois países aprofundarem e expandirem a cooperação para um nível mais elevado. Juntos, China e Rússia continuarão a ser um exemplo de boa-vizinhança e relacionamento amistoso entre grandes potências, dando ímpeto para a recuperação mundial e para a sustentação da estabilidade global.

RELAÇÕES CHINA – ESTADOS UNIDOS

Em anos recentes nós temos enfrentado dificuldades sem precedentes. Fundamentalmente, isto deriva da falta de entendimento dos formuladores de política americanos a respeito da China. Alguns veem a China como uma ameaça maior, e a sua política com relação à China está baseada nesta percepção totalmente equivocada. O que está ocorrendo prova que a tentativa dos Estados Unidos de suprimir a China e iniciar uma nova “guerra fria” não somente danificou interesses dos dois povos, senão também provocou uma disrupção severa em todo o mundo. Tal política não encontrará apoio e está fadada a fracassar.

As relações China-EUA chegaram a uma nova encruzilhada, e uma nova janela de esperança está-se abrindo. Nós esperamos que a próxima administração nos Estados Unidos volte a um patamar sensato, restaure a normalidade nas relações e reinicie a cooperação. A política da China com relação aos Estados Unidos é consistente e estável. Nós estamos prontos para desenvolver com os Estados Unidos um relacionamento baseado na coordenação, cooperação e estabilidade. A China nunca se intromete nos assuntos internos dos Estados Unidos e valoriza a coexistência pacífica e a cooperação mutuamente benéfica com os Estados Unidos. Da mesma forma, os Estados Unidos devem respeitar o sistema socialista e o caminho para o desenvolvimento escolhido pelo povo chinês e salvaguardar nosso interesse legítimo de buscar uma vida melhor.

Nós sabemos que algumas pessoas nos Estados Unidos sentem-se desconfortáveis diante do desenvolvimento acelerado da China. Entretanto, a melhor maneira de manter a liderança é através do contínuo auto-aperfeiçoamento e não obstaculizando o desenvolvimento alheio. Nós não precisamos de um mundo onde a China se torne um próximo Estados Unidos. Isto não é nem razoável e nem factível. Ao contrário, os Estados Unidos deveriam tentar se tornarem um país melhor, e a China certamente fará o seu melhor. Nós acreditamos que à medida que os Estados Unidos aprendam com as lições do passado e operem com a China na mesma direção, os dois países serão capazes de resolver suas diferenças através do diálogo, expandindo os interesses convergentes através da cooperação.

Isto permitirá que duas grandes potências países criem um modelo de coexistência que beneficiará a ambos, e ao mundo, e abrirá novas perspectivas de desenvolvimento, acompanhando a linha da História “.

Leia a série de artigos sobre Wong Yi e a China

A China e o mundo (I) – Covid-19

A China e o mundo (II) – Relações com Rússia e Estados Unidos

A China e o mundo (III) – União Europeia, ASEAN, África, Oriente Médio e Península Coreana

A China e o mundo (IV) – Diplomacia Assertiva

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Doutor em Direito Internacional Público em Paris. Ingressou na carreira diplomática em 1976, serviu nas embaixadas de Bruxelas, Buenos Aires, Nova Déli, Washington, Pequim, Tóquio, Islamabade (onde foi Embaixador do Brasil, em 2004). Também cumpriu missões transitórias no Vietnã e Taiwan. Viveu 15 anos na Ásia, para onde orientou sua carreira por considerar que o continente seria o mais importante do século 21 – previsão que, agora, vê cada vez mais perto da realidade.

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