A China e o mundo (IV)

Wang Yi – Ministro de Relações Exteriores da China

Esta é a quarta e última da série de postagens que estou fazendo da entrevista que o Ministro dos Negócios Estrangeiros e Conselheiro de Estado da República Popular da China, Wang Yi, concedeu, no início deste ano, para o canal em inglês do grupo estatal “China Global Television Network”/CGTN, na qual fez uma avaliação da política externa da China ao longo de 2020 e a sua projeção para este ano e o futuro.

Como mencionei antes, resolvi transcrever e traduzir a entrevista, apenas, sem qualquer interferência ou consideração de caráter pessoal, uma vez que considero importante conhecer a visão oficial que a Chancelaria chinesa tem do papel que entende ser o da China, e o seu próprio, nas relações internacionais.

E assim como nas postagens anteriores, incluí o link da entrevista para os que se interessarem em assisti-la:

UMA DIPLOMACIA MAIS ASSERTIVA

“A diplomacia chinesa arca com as suas devidas responsabilidades e desempenha papel construtivo na solução dos litígios, salvaguardando os interesses nacionais, defendendo a dignidade nacional e facilitando a cooperação internacional. Sob a firme liderança do Comitê Central do Partido Comunista Chinês, e com o total apoio do povo chinês, nós temos nos desdobrado para atender a estas responsabilidades de forma clara e assertiva. A diplomacia da China tem suas raízes nos 5.000 anos da civilização chinesa e persegue a orgulhosa tradição de independência e auto-aperfeiçoamento desde a fundação da República Popular da China. Nós seguimos a trajetória do desenvolvimento pacífico e uma política externa independente de paz. Nós sufragamos o direito internacional e as normas básicas das relações internacionais e o intercâmbio entre os Estados.

Nós sustentamos a equidade, a justiça e outros valores compartilhados de humanismo no tratamento das relações internacionais. A diplomacia chinesa adquiriu feição, estilo e ótica próprios. Nós ofertamos a hospitalidade para os nossos amigos e a cooperação para os nossos parceiros. Mas nós temos que manter nossa posição ao tratarmos com os que não são tão amistosos. Nós aceitamos com prazer as críticas bem intencionadas e seguimos as sugestões que nos ajudem, mas temos que reagir às difamações e aos ataques. E, mais importante, temos que nos manifestar pela justiça quando confrontados com as políticas de poder e ao assédio moral. Esta é responsabilidade da diplomacia chinesa e o caráter nacional do povo chinês.

A Covid-19 foi um golpe duro para a economia mundial e apresentou desafios para a cooperação na “Belt and Road Initiative” (BRI). Dito isto, a cooperação na BRI tem demonstrado forte resiliência. Em sua importante mensagem em videoconferência na “Belt and Road Initiative Cooperation” , que teve lugar em junho passado, o Presidente Xi Jinping propôs transformar a BRI num modelo de cooperação, saúde, recuperação e crescimento. Isto reflete a aspiração compartilhada com a comunidade internacional e mapeia a rota para a cooperação de alto nível na BRI.

Este ano de 2020 assistiu ao apoio que os parceiros da BRI se ofereceram mutuamente, forjando um elo de solidariedade para controlar o coronavirus e perseguir o desenvolvimento comum. O “China-Europe Rail Express” completou mais de 10 mil viagens, transportando mais carga nos primeiros dez meses de 2020 que em todo o ano de 2019. Enaltecida como uma “frota de camelos de aço” (“steel camel fleet”), ela tem ajudado os países na resposta à Covid-19. A Rota da Seda aérea ajudou a transportar mais de 1.700 toneladas de suprimentos, inaugurando uma linha contínua de salvamento pelo ar.

Nos três primeiros trimestres de 2020, os investimentos diretos não-financeiros em países ao largo da Rota da Seda atingiram 13 bilhões de dólares, um aumento anual de cerca de 30%. A maioria dos projetos da BRI teve continuidade, sem interrupções e nem desistências, e numerosos novos projetos foram iniciados como programados. Isto trouxe muito calor para este rigoroso inverno da economia mundial e contribuiu aos esforços dos países parceiros na luta contra o coronavirus, estabilizando a economia e protegendo formas de vida. São abundantes os fatos que provam a grande vitalidade da BRI. A pandemia não abalou o compromisso dos países participantes. Ao contrário, evidenciou a cooperação na BRI no sentido de alavancar o desenvolvimento global na era pós-covid.

A China está desenvolvendo um novo paradigma de desenvolvimento, com o cenário doméstico como pilar e o reforço dos cenários nacional e internacional, de forma mútua. Estes esforços não somente alavancarão o desenvolvimento de alta qualidade da economia chinesa senão também darão maior ímpeto para que surjam novas oportunidades e caminhos mais efetivos para a cooperação na “Belt and Road”. A China operará com todas as partes para aprofundar as sinergias na BRI e desenvolver estratégias com outros países, tendo em mente as suas necessidades de resposta à Covid 19 e a recuperação econômica. Nós acreditamos que fortalecendo a reabertura da economia e focando o potencial dos novos motores do crescimento, como os cuidados com a saúde, a economia digital e o desenvolvimento “verde”, nós seremos capazes de atingir uma maior qualidade na cooperação na “Belt and Road” .

2021 marca o centenário da fundação do Partido Comunista da China, e também é o primeiro ano do 14º Plano Quinquenal. A China entrará num novo estágio de desenvolvimento. O ano de 2021 terá significado histórico para o rejuvenescimento nacional da China. Nós iniciaremos uma nova jornada na construção de um país socialista moderno. Este centenário é apenas o primeiro capítulo da grande causa do Partido. Nós continuaremos a avançar com a nossa diplomacia de grande potência, com características chinesas, salvaguardando a soberania da China, a nossa segurança e os nossos interesses, e focaremos as seis seguintes áreas: envidaremos os nossos melhores esforços para atender às estratégias de desenvolvimento da China, ao tempo em que asseguraremos o controle efetivo da Covid-19; promoveremos uma melhor integração entre os mercados interno e internacional e uma maior complementariedade entre os recursos domésticos e globais. Nós nos esforçaremos para criar um ambiente externo mais favorável, promovendo um novo paradigma de desenvolvimento através da implementação do 14º Plano Quinquenal. Continuaremos a construir um novo tipo de relacionamento internacional orientados pelo envolvimento pessoal do Presidente Xi Jinping com a diplomacia. Nós nos esforçaremos pelo progresso contínuo das relações da China com as grandes potências. Cimentaremos a solidariedade e a amizade com nossos vizinhos e os outros países em desenvolvimento, e aprofundaremos a nossa abertura e a cooperação internacional e regional. Nós promoveremos a cooperação de alto nível na “Belt and Road” e lançaremos mão da força do enorme mercado da China e do potencial da demanda doméstica, estimularemos a recuperação global através do nosso próprio desenvolvimento e compartilharemos com o mundo os “dividendos do desenvolvimento da China”. Nós nos engajaremos de maneira proativa na reforma do sistema de governança global.

O ano de 2021 marca o cinquentenário da restauração do assento da verdadeira China na ONU e o 20º aniversário da sua acessão à OMC. Nós continuaremos a praticar o multilateralismo, seremos anfitriões de uma exitosa conferência da ONU sobre biodiversidade, enfrentaremos os desafios globais em parceria com os outros (países) e promoveremos um sistema de governança global mais equitativo e saudável. Nós facilitaremos de forma ativa a compreensão mútua entre os países, melhoraremos a comunicação para o mundo dos importantes resultados da governança do Partido Comunista Chinês e a jornada extraordinária em direção ao sonho chinês (“China Dream”), e o compromisso da China com o desenvolvimento pacífico.

Nós exortamos a todos os países para que ultrapassem suas diferenças e busquem o desenvolvimento comum, abracem o intercâmbio, o conhecimento mútuo e a harmonia entre as civilizações. Nós continuaremos a buscar o fortalecimento de uma comunidade com o futuro compartilhado por toda a humanidade. Neste contexto, nos esforçaremos por uma comunidade global de saúde para todos e pelo futuro compartilhado para a comunidade da Ásia-Pacífico. Nós apoiaremos os valores, compartilhados por toda a humanidade, de paz, desenvolvimento, equidade, justiça, democracia e liberdade, e trabalharemos com todos os países para criar uma comunidade aberta e um mundo inclusivo, limpo e belo, com paz duradoura, segurança universal e prosperidade comum.

Leia a série de artigos sobre Wong Yi e a China

A China e o mundo (I) – Covid-19

A China e o mundo (II) – Relações com Rússia e Estados Unidos

A China e o mundo (III) – União Europeia, ASEAN, África, Oriente Médio e Península Coreana

A China e o mundo (IV) – Diplomacia Assertiva

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Doutor em Direito Internacional Público em Paris. Ingressou na carreira diplomática em 1976, serviu nas embaixadas de Bruxelas, Buenos Aires, Nova Déli, Washington, Pequim, Tóquio, Islamabade (onde foi Embaixador do Brasil, em 2004). Também cumpriu missões transitórias no Vietnã e Taiwan. Viveu 15 anos na Ásia, para onde orientou sua carreira por considerar que o continente seria o mais importante do século 21 – previsão que, agora, vê cada vez mais perto da realidade.

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