Joe Biden e o tabuleiro geopolítico asiático

Presidentes Xi Jinping e Joe Biden (em foto de 2015) – AP Photo/Carolyn Kaster

Os especialistas têm-se empenhado, nestes primeiros meses de governo, em decifrar os primeiros sinais da estratégia que a administração do Presidente Joe Biden irá desenvolver com relação à China. A pergunta que eles se fazem é se teriam continuidade as práticas de demonização da República Popular da China de Donald Trump, e a “guerra comercial” em que se engalfinharam, desestabilizando não somente o comércio entre os dois hegemons, senão também afetando a todos os demais países, forçados a conviver e eventualmente tomar maior ou menor partido nesta briga de gigantes, da qual, por exemplo, a tecnologia 5G é uma clara evidência.

Na “era Trump”, alguns deles alinharam-se com Pequim, por diferentes razões e estratégias, notadamente o Paquistão, a Malásia, Sri Lanka, a Coreia do Norte, e alguns membros da ASEAN. Outros, entretanto, preferiram voltar-se para o Ocidente (leia-se Estados Unidos), por iguais preocupações estratégicas: Índia, Japão e Coreia do Sul, principalmente. Coincidentemente, estas são as economias mais poderosas da Ásia: Japão, o terceiro maior PIB mundial; Índia, o sexto; e Coreia do Sul, o décimo, segundo o FMI/2019.

Permaneceram subliminarmente “neutros” Tailândia, Indonésia, Filipinas e Myanmar, que buscam aferir vantagens no processo de expansão da “Belt and Road Initiative” – a Nova Rota da Seda – patrocinada com enormes recursos financeiros pela República Popular no seu projeto ambicioso de unir o continente eurasiático e a África, numa conurbação hegemônica, que ela pretende liderar. Paralelamente a este cenário, há que acrescentar, mais recentemente, a “Parceria Econômica Regional Abrangente” (RCEP, sigla em inglês), o acordo que acaba de ser concluído entre os dez estados membros da ASEAN, a China, o Japão, a Coreia do Sul, a Austrália e a Nova Zelândia, que constituirá a maior zona de livre comércio do mundo. Absolutamente desestabilizadora para o comércio internacional quando entrar em vigor (está em processo de ratificação), e inteiramente asiática…

Foi assim com D.T.. É neste cenário que entra Joe Biden e a sua administração democrata…

Vamos, antes de tudo, convir em que a Ásia tem sido tradicionalmente um enigma para as administrações americanas, que encontram na região gigantes civilizacionais e econômicos cuja longa história compartilhada revela nuances e apresenta desafios que ultrapassam o ideário simplista do Ocidente “Trump style”… e que ganham crescente musculatura no processo de globalização liderado pelas inovações tecnológicas.

É nesse contexto que os analistas estão buscando decifrar a mensagem do que terá sido o primeiro contato telefônico de Biden com Xi Jiping após sua assunção no cargo; nele, o presidente americano alertou que “preservar a região do Indo-Pacífico livre e aberta” seria uma das suas principais prioridades. Semelhante afirmação ele fez ao Primeiro-Ministro indiano, Narendra Modi, e agiu da mesma maneira com o líder sul-coreano Moon Jae-in, chamando a aliança EUA-Coreia do Sul de “o eixo da segurança e prosperidade do Indo-Pacífico”. Paralelamente, em um telefonema entre Biden e o primeiro-ministro japonês Yoshihide Suga, os dois líderes reiteraram a importância da aliança EUA-Japão como a “pedra angular da paz e da prosperidade em um Indo-Pacífico livre e aberto”, de acordo com um sumário da conversa feito pela Casa Branca.

O eminente professor Van Jackson, em matéria publicada na “Foreign Affairs” deste mês de março, assinalou que “ há apenas uma década atrás, a frase “Indo-Pacífico” teria deixado a maioria dos especialistas em política externa “coçando a cabeça (”scratching their heads”)”. Hoje, não é apenas linguagem comum em Washington, mas evidencia a revisão de conceitos sobre a Ásia que está mobilizando a política externa dos EUA. Ou seja, o compromisso dos americanos com a segurança da região passaria a ter precedência às disputas econômico-comerciais que azedaram tanto as relações entre chineses e americanos no período “Trump”.

Será?

Vamos tentar entender… O conceito moderno de “Indo-Pacífico” remonta a 2007, quando o Primeiro-Ministro japonês Shinzo Abe mencionou num discurso, na Índia, que “os oceanos Pacífico e Índico estão agora desenvolvendo uma dinâmica, de mares de liberdade e de prosperidade. Esta Ásia ampliada, que ultrapassa as fronteiras geográficas, está agora tomando uma forma distinta.” Após este discurso, o Indo-Pacífico tornou-se referencial recorrente nos círculos de política externa tanto japoneses quanto indianos, e até australianos. O tema tem grande relevância para os países limítrofes: o real objetivo deste esforço conjunto, assinalam os analistas, é diluir o poderio da China no leste da Ásia e restabelecer o oceano Indo-Pacífico como vetor de prosperidade compartilhada pelas nações ribeirinhas.

É neste contexto que aumentaram recentemente os temores de que a China lançará em breve um ataque militar contra Taiwan. É o que afirma a matéria publicada no site “The Diplomat”, ontem, 20/03. Segundo ele, três fatores estão alimentando estes temores. A primeira é “a avaliação de vários especialistas de que o Exército de Libertação Popular (PLA) já atingiu, ou está muito perto de atingir, um tal nível de potência que torna possível tentar obrigar Taiwan a se reunificar com o Continente”. Foi o que afirmou o Almirante Philip Davidson, Chefe do Comando Militar Indo-Pacífico dos EUA, perante um Comitê do Senado dos EUA em fevereiro passado: “a China poderia tentar tomar Taiwan por meios militares nos próximos seis anos”.

O segundo fator é a recente intensificação da pressão militar do PLA sobre Taiwan. Aviões de guerra chineses voaram perto da Ilha quase diariamente, em 2020, e aeronaves cruzaram a linha média do Estreito de Taiwan, quebrando um tabu que ambos os lados geralmente respeitavam. A mídia chinesa disse que o exercício militar perto do Estreito de Taiwan em setembro de 2020 não era “um aviso, mas um ensaio para a retomada de Taiwan”. O terceiro é a percepção do aumento, em geral, da agressividade da política externa de Pequim. Os que assim pensam apontam para os recentes violentos confrontos nas fronteiras da China com a Índia e a agressividade da República Popular nos litígios territoriais no Mar do Sul da China. Muitos observadores acreditam particularmente que o tratamento que a China está dando a Hong Kong constitui “sinais” do que poderia acontecer com Taiwan. Para estes analistas está claro que é a vigilância e a reação negativa da comunidade internacional que impedem o governo chinês de tomar medidas militares contra Taiwan.

O analista chinês Cui Lei, do “Instituto de Relações Internacionais da China”, entretanto, argumentou recentemente que os líderes chineses se sentem obrigados a manter uma imagem de dureza em relação a Taiwan, mas não têm intenção de lançar um ataque militar num futuro previsível. Cui argumentou que a ação militar é muito assustadora porque o povo de Taiwan não se submeterá sem lutar, e os Estados Unidos ajudariam a defender Taiwan, primeiramente pelo compromisso que assumiram pela defesa da Ilha quando assinaram o “Taiwan Relations Act”, em 1979, no momento em que transferiram o reconhecimento da China de Taipé para Pequim, e também por temor de perder sua liderança na região. O poderio militar da China não é tão forte quanto o dos americanos. Ademais essa guerra causaria profunda reação na própria China, que, aliada ao opróbio da comunidade internacional, inviabilizaria qualquer projeto chinês de internacionalização e modernização.

A pergunta que não quer se calar é se a nova administração americana estaria trocando o seu foco com relação à China e passando a priorizar a segurança em vez da disputa econômico-comercial…Os especialistas, entretanto, entendem que os dois temas são “filhos da mesma mãe”, ou seja, caras distintas da mesma disputa pela hegemonia geopolítica/geoeconômica…

Sugiro aos amigos que leiam a matéria do “The Diplomat”: Rumors of War in the Taiwan Strait

https://thediplomat.com/2021/03/rumors-of-war-in-the-taiwan-strait/?fbclid=IwAR2VyT6HfrIeJMOO9HEtngs2q_UDELzaljJ3zIcN9KorbFYZZ2l33PmKs6Q

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Doutor em Direito Internacional Público em Paris. Ingressou na carreira diplomática em 1976, serviu nas embaixadas de Bruxelas, Buenos Aires, Nova Déli, Washington, Pequim, Tóquio, Islamabade (onde foi Embaixador do Brasil, em 2004). Também cumpriu missões transitórias no Vietnã e Taiwan. Viveu 15 anos na Ásia, para onde orientou sua carreira por considerar que o continente seria o mais importante do século 21 – previsão que, agora, vê cada vez mais perto da realidade.