ISSN 2674-8053

A crise energética e a aproximação entre Biden e Maduro

Artigo elaborado por João Paulo Costa

A possibilidade de aproximação entre dois grandes desafetos das Américas, os Estados Unidos e a Venezuela, ocorre como consequência de uma disputa militar distante dos latinoamericanos, a atual guerra entre Rússia e Ucrânia. Ao deslocar tropas russas para território ucraniano, Vladimir Putin usou a alegação de um “genocídio” na região leste cometido por tropas “neonazistas”. Para Volodymyr Zelensky, que recebeu apoio de outros atores internacionais, incluindo os Estados Unidos, os interesses russos vão além disto. Ao optar pela invasão militar, Putin envia uma mensagem ao adversário: a entrada da Ucrânia na Organização do Tratado do Atlântico Norte, que vinha avançando a passos largos na gestão de Zelensky, não será tolerada.

Para os Estados Unidos, entrar diretamente em um conflito como esse não seria vantajoso, principalmente diante dos desafios econômicos que o país enfrenta. Pode-se afirmar isso tendo como base a dívida nacional americana anual (mais de 29 trilhões em 2021 de acordo com dados do The Balance), alta na inflação e gastos do governo com os planos de infraestrutura, proposto por Joe Biden. Contudo, ainda que os Estados Unidos não estejam diretamente envolvidos como parte beligerante do conflito, o país tem sentido fortemente os custos desta guerra, principalmente, a escalada no preço do petróleo.

Fato é que vários países, há tempos importadores de petróleo russo, tentam buscar formas de reduzir o preço dos barris e diminuir sua dependência. Para os Estados Unidos, especificamente, buscar uma alternativa ao petróleo russo é uma ação urgente. De acordo com dados do World Population Review, a potência norte-americana importou  245  mil barris de petróleo da Rússia em 2021, o que coloca os russos na terceira posição da lista dos maiores fornecedores americanos. Além disso, a alta nos preços do petróleo tem afetado o cenário doméstico norte-americano, com destaque especial para o estado da Califórnia, onde o preço do galão (3,8 litros) de gasolina chegou a $5,689 dólares (R$26,30). Uma vez que essa situação afeta a renda do cidadão americano, a popularidade do presidente acaba sendo afetada (hoje com em média 52% de desaprovação).

É neste cenário que o governo norte-americano volta sua atenção para a Venezuela. A aproximação entre os países revela interesses políticos claros do governo estadunidense para assegurar ganhos nesse cenário de instabilidade em que se encontra.

É importante reforçar que a Venezuela, por muito tempo, foi vista como um dos principais adversários dos Estados Unidos na América Latina. Desde o governo de Hugo Chávez, a Venezuela se opôs diretamente ao modelo político e econômico norte-americano. Tanto Chávez quanto Nicolás Maduro, atual presidente, discursaram contra o imperialismo americano na região e em favor de governos socialistas ou ditatoriais.  Além disso, a Venezuela é constantemente criticada por violações aos direitos humanos e desrespeito às regras internacionais. Esses são apenas alguns exemplos de pontos de atrito e discordância entre Estados Unidos e Venezuela.

Diante do exposto, surge a seguinte pergunta: o que os Estados Unidos têm proposto para retomar as conversações com a Venezuela? Como parte das iniciativas para garantir a parceria venezuelana nesta área, os EUA iniciaram uma política de redução de sanções para incentivar o aumento da produção de petróleo na Venezuela para até 1,2 milhão de barris diários (atualmente, é de 788 mil diários). De acordo com a entrevista do chefe da Câmara Petroleira da Venezuela à BBC, Reinaldo Quintero, a Venezuela pode aumentar a produção em 400 mil barris diários para auxiliar na queda de prioridade do petróleo russo.

Contrariando a fala do membro do governo de Maduro, o analista energético Jorge Piñon relatou em entrevista à CNN o fato de a Venezuela, hoje, não possuir a estrutura necessária para aumentar a produção de forma tão brusca. Isso se deve a grande taxa de corrupção dentro do governo, as sanções aplicadas pelos EUA e a falta de manutenção das estruturas, sinalizando que ainda é necessário tempo para que os venezuelanos possam ampliar a sua produção.

Com base no exposto, é possível concluir que os Estados Unidos buscam, com essas atitudes, reduzir a dependência de recursos russos e, consequentemente, dificultar a presença da Rússia no continente americano. As ações americanas demonstram a vontade incessante dos EUA em resolver essa questão, mesmo não sendo de forma imediata, mas com pressa para diminuir o poder dos russos dentro da sua zona de influência no continente americano e para solucionar parte de seus problemas internos.


[1] É aluno do curso de relações internacionais da ESPM e membro do Núcleo de Estudos e Negócios Americanos (NENAM-ESPM).

A crise energética e a aproximação entre Biden e Maduro

João Paulo Costa

A possibilidade de aproximação entre dois grandes desafetos das Américas, os Estados Unidos e a Venezuela, ocorre como consequência de uma disputa militar distante dos latinoamericanos, a atual guerra entre Rússia e Ucrânia. Ao deslocar tropas russas para território ucraniano, Vladimir Putin usou a alegação de um “genocídio” na região leste cometido por tropas “neonazistas”. Para Volodymyr Zelensky, que recebeu apoio de outros atores internacionais, incluindo os Estados Unidos, os interesses russos vão além disto. Ao optar pela invasão militar, Putin envia uma mensagem ao adversário: a entrada da Ucrânia na Organização do Tratado do Atlântico Norte, que vinha avançando a passos largos na gestão de Zelensky, não será tolerada.

Para os Estados Unidos, entrar diretamente em um conflito como esse não seria vantajoso, principalmente diante dos desafios econômicos que o país enfrenta. Pode-se afirmar isso tendo como base a dívida nacional americana anual (mais de 29 trilhões em 2021 de acordo com dados do The Balance), alta na inflação e gastos do governo com os planos de infraestrutura, proposto por Joe Biden. Contudo, ainda que os Estados Unidos não estejam diretamente envolvidos como parte beligerante do conflito, o país tem sentido fortemente os custos desta guerra, principalmente, a escalada no preço do petróleo.

Fato é que vários países, há tempos importadores de petróleo russo, tentam buscar formas de reduzir o preço dos barris e diminuir sua dependência. Para os Estados Unidos, especificamente, buscar uma alternativa ao petróleo russo é uma ação urgente. De acordo com dados do World Population Review, a potência norte-americana importou  245  mil barris de petróleo da Rússia em 2021, o que coloca os russos na terceira posição da lista dos maiores fornecedores americanos. Além disso, a alta nos preços do petróleo tem afetado o cenário doméstico norte-americano, com destaque especial para o estado da Califórnia, onde o preço do galão (3,8 litros) de gasolina chegou a $5,689 dólares (R$26,30). Uma vez que essa situação afeta a renda do cidadão americano, a popularidade do presidente acaba sendo afetada (hoje com em média 52% de desaprovação).

É neste cenário que o governo norte-americano volta sua atenção para a Venezuela. A aproximação entre os países revela interesses políticos claros do governo estadunidense para assegurar ganhos nesse cenário de instabilidade em que se encontra.

É importante reforçar que a Venezuela, por muito tempo, foi vista como um dos principais adversários dos Estados Unidos na América Latina. Desde o governo de Hugo Chávez, a Venezuela se opôs diretamente ao modelo político e econômico norte-americano. Tanto Chávez quanto Nicolás Maduro, atual presidente, discursaram contra o imperialismo americano na região e em favor de governos socialistas ou ditatoriais.  Além disso, a Venezuela é constantemente criticada por violações aos direitos humanos e desrespeito às regras internacionais. Esses são apenas alguns exemplos de pontos de atrito e discordância entre Estados Unidos e Venezuela.

Diante do exposto, surge a seguinte pergunta: o que os Estados Unidos têm proposto para retomar as conversações com a Venezuela? Como parte das iniciativas para garantir a parceria venezuelana nesta área, os EUA iniciaram uma política de redução de sanções para incentivar o aumento da produção de petróleo na Venezuela para até 1,2 milhão de barris diários (atualmente, é de 788 mil diários). De acordo com a entrevista do chefe da Câmara Petroleira da Venezuela à BBC, Reinaldo Quintero, a Venezuela pode aumentar a produção em 400 mil barris diários para auxiliar na queda de prioridade do petróleo russo.

Contrariando a fala do membro do governo de Maduro, o analista energético Jorge Piñon relatou em entrevista à CNN o fato de a Venezuela, hoje, não possuir a estrutura necessária para aumentar a produção de forma tão brusca. Isso se deve a grande taxa de corrupção dentro do governo, as sanções aplicadas pelos EUA e a falta de manutenção das estruturas, sinalizando que ainda é necessário tempo para que os venezuelanos possam ampliar a sua produção.

Com base no exposto, é possível concluir que os Estados Unidos buscam, com essas atitudes, reduzir a dependência de recursos russos e, consequentemente, dificultar a presença da Rússia no continente americano. As ações americanas demonstram a vontade incessante dos EUA em resolver essa questão, mesmo não sendo de forma imediata, mas com pressa para diminuir o poder dos russos dentro da sua zona de influência no continente americano e para solucionar parte de seus problemas internos.


[1] É aluno do curso de relações internacionais da ESPM e membro do Núcleo de Estudos e Negócios Americanos (NENAM-ESPM).

Núcleo de Estudos e Negócios Europeus

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