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Consumo Sustentável

Artigo elaborado por Karen Andersson e Laura Rossi

O consumo sustentável pode ser definido como as ações direcionadas às práticas de consumo ecologicamente responsáveis, e carrega consigo alternativas para que não se gerem impactos negativos ao meio ambiente, seja através da geração de resíduos ou devido a emissão de gases poluentes durante todo o ciclo de vida de um produto, desde o processo de produção até o consumo. Deve-se pensar no consumo sustentável a partir das necessidades mais básicas do ser humano, como se alimentar, beber água limpa e se vestir, levando em conta que até essas práticas ainda maximizam o uso dos recursos naturais e materiais tóxicos, que são nocivos tanto à natureza e ao planeta, quanto à nossa própria saúde. Sendo assim, o consumo sustentável visa a utilização dos recursos naturais de modo consciente para que nossas necessidades sejam atendidas, porém, sem comprometer o bem-estar do meio ambiente, assim garantindo um futuro saudável para as próximas gerações.

O principal motivo para a discussão em âmbito internacional sobre as urgentes e necessárias mudanças relacionadas ao consumo é o da consciência global, isto é, o reconhecimento e relevância que o tema tem levantado nas agendas dos países e organizações sobre a realidade do aquecimento global e do esgotamento de recursos naturais, utilizados de forma indevida. Este é um tema de interesse mundial pois não há uma segunda opção de planeta e a Terra já entrou em déficit de seus recursos naturais no ano de 1970, segundo estimativa feita pela Global Footprint Network (organização internacional que calcula a pegada ecológica e contabiliza o quanto de recurso natural é usado para suprir as necessidades de um indivíduo ou população).                  

Para a União Europeia, a agenda de meio ambiente e sustentabilidade é uma discussão relevante e recorrente no cotidiano. A Comissão reconhece a necessidade de “fazer mais com menos”, ou seja, os processos de produção devem ser mais eficientes para que se consiga reduzir significativamente os índices de poluição e poupar os recursos.

No ponto de vista das empresas, as mudanças também seriam benéficas, pois contribuiriam para a diminuição dos custos de exploração e da dependência de matérias-primas. Ainda segundo a Comissão, os setores onde são necessárias mais mudanças são aqueles em que o consumo tem maior impacto no ambiente: alimentação, construção e transportes. Melhorar a construção e a utilização de edifícios na UE, por exemplo, poderá reduzir em 42% o consumo final de energia, em cerca de 35% as emissões de gases com efeito de estufa e em 30% a quantidade de água utilizada.

A União Europeia tem direcionado esforços e implementado medidas voltadas a um maior controle do impacto causado pelo consumo excessivo de pessoas, empresas e produtos. A rotulagem ecológica, por exemplo, visa auxiliar os consumidores a fazer escolhas mais conscientes, uma vez que o rótulo ecológico da UE identifica produtos e serviços que apresentam um reduzido impacto ambiental ao longo de todo o seu ciclo de vida. Os critérios para a sua atribuição são definidos pela comunidade científica, ONGs e outros intervenientes, com o objetivo de proporcionar ao consumidor o caminho para fazer escolhas responsáveis do ponto de vista ambiental.

Os organismos públicos também têm um papel importante a desempenhar no âmbito de tornar a economia europeia mais verde. Suas despesas representam quase 20% do PIB do bloco europeu, e, ao estabelecerem condições adequadas, podem ajudar na orientação do mercado no sentido de uma maior sustentabilidade. Ao adquirirem bens e serviços verdes, os organismos públicos podem contribuir para aumentar a procura de produtos e serviços que utilizam os recursos de forma mais eficiente, tornando essa, uma ação de incentivo aos países e empresas.

Em novembro de 2021, a União Européia propôs uma medida para tornar os países do bloco “livres de produtos que contribuam para a degradação das florestas em todo o mundo”. A presidente da Comissão, Ursula Von der Leyen, postou nas redes sociais que apenas produtos “livre de desmatamento” circulariam no mercado europeu. Medidas como essa fazem parte da implementação do chamado Acordo Verde Europeu. O regulamento prevê que as empresas que desejam entrar no mercado europeu, devem obrigatoriamente provar que não contribuem com a degradação das florestas ou desmatamentos. “Nosso regulamento de desmatamento atende aos apelos dos cidadãos para minimizar a contribuição europeia para a degradação de áreas florestais e promover o consumo sustentável”, afirmou o vice-presidente executivo para o Green Deal Europeu, Frans Timmermans.

Em janeiro de 2020, a Comissão anunciou um plano de investimento como estratégia para financiar a agenda ecológica, no intuito de se realizar a “transição verde”, iminente para os próximos anos. Como parte do plano de investimento, está prevista uma adaptação justa visando atenuar o impacto socioeconômico da transição verde em relação às comunidades e aos trabalhadores. Em maio, a Comissão propôs, juntamente com o Banco Europeu de Investimento, um mecanismo de crédito ao setor público para apoiar investimentos ecológicos em regiões dependentes dos combustíveis fósseis,  sendo aprovado pelo Parlamento em junho de 2021. Dito isto, o Parlamento e o Conselho estão de acordo a respeito da introdução de novas fontes de receitas para financiar o orçamento e o plano de recuperação.

A Dinamarca, um dos países europeus líderes em iniciativas sustentáveis, direciona grande parte de sua atenção ao desenvolvimento de novas estratégias para reduzir ao máximo seu impacto no meio ambiente. Ao longo dos últimos anos, a cidade dinamarquesa de Sonderborg vem sendo palco de diversas medidas experimentais (“Project Zero”) que têm se mostrado eficazes para tornar o consumo dos cidadãos mais consciente. Um exemplo que evidencia esse esforço são os investimentos da Cooperativa BALS, uma rede de supermercados da cidade, na fiscalização e adaptação de seu consumo. Há uma empresa que monitora todos os gastos do supermercado em relação à eletricidade, aquecimento, ventilação e ar condicionado, para que seja possível fazer um diagnóstico do que precisa ser melhorado e então, reduzir estes níveis. O responsável da cooperativa, Asger Skov Nielsen, afirmou que “No total, investimos 2,2 milhões de coroas. Já recuperamos esse investimento, valeu a pena”, provando que uma conduta empresarial consciente, não apenas é possível e necessária, como também pode ser benéfica e lucrativa à mesma. A cidade de Sonderborg também tem obtido êxito em reduzir o consumo energético do setor residencial, alimentando a maior parte dos lares com energias renováveis e influenciando a população a usar apenas o necessário.

A Suécia é outro país considerado ponto de referência no quesito sustentabilidade. Uma das diretrizes ambientais do governo sueco é fundamentada na educação. Dessa forma, afirma-se que é indispensável que o assunto seja introduzido e discutido desde cedo nas escolas do país, à medida que impactam na conduta dos futuros adultos. Portanto, o governo da Suécia encarregou a Agência de Consumo Sueco de agir em parceria com as escolas para ensinar os alunos sobre o impacto gerado pelo consumo excessivo e inadequado, inserindo o tema no conteúdo de aula e em livros acadêmicos. A conduta sustentável do país também está sendo refletida em seu setor empresarial. A H&M, renomada marca de roupas originada na Suécia, tem implementado diversas medidas em prol de um consumo sustentável. A gigante sueca prometeu usar, exclusivamente, materiais recicláveis ou de origem consciente até 2030, além do fato de também agir para reduzir o descarte têxtil, disponibilizando pontos de coleta para clientes levarem suas roupas antigas. Com isso, elas são recicladas para a manufatura de outras roupas da marca, evitando, assim, o desperdício e motivando as pessoas a agirem em prol da causa.

Referências

Gistotal: Chegamos ao esgotamento dos recursos renováveis da Terra, fevereiro de 2020. Disponível em: https://gistotal.com/en/posts/chegamos-ao-esgotamento-dos-recursos-renovaveis-da-terra

Comissão Europeia: Produção e consumo sustentável. Disponível em: https://ec.europa.eu/environment/basics/green-economy/sustainable-development/index_pt.htm

Parlamento Europeu: Consumo e produção sustentáveis. Disponível em: https://www.europarl.europa.eu/factsheets/pt/sheet/77/consumo-e-producao-sustentaveis

Gauchazh: UE propõe regras para compra e consumo de produtos que geram desmatamento, novembro de 2021.Disponível em: https://gauchazh.clicrbs.com.br/economia/noticia/2021/11/uniao-europeia-propoe-regras-para-impedir-compra-e-consumo-de-produtos-que-geram-desmatamento-ckw3pjs4w000601gq8rnlkni3.html

Parlamento europeu: Pacto ecológico essencial para a sustentabilidade na UE, junho de 2020. Disponível em: https://www.europarl.europa.eu/news/pt/headlines/society/20200618STO81513/pacto-ecologico-essencial-para-a-sustentabilidade-na-ue

Gonçalves, Elza. EuroNews. Avanços e recuos da UE em matéria de desenvolvimento sustentável, Março de 2020. Disponível em: https://pt.euronews.com/next/2020/03/11/avancos-e-recuos-da-ue-em-materia-de-desenvolvimento-sustentavel

ProjectZero: Surplus heat from Danish supermarkets utilised for district heating, Março de 2017. Disponível em: https://stateofgreen.com/en/partners/projectzero/news/surplus-heat-from-danish-supermarkets-utilised-for-district-heating/

State of Green: Project zero. Disponível em: https://stateofgreen.com/en/partners/projectzero/

Coppolina, Alsha. Fashion United: H&M joins EU green consumption pledge initiative, junho de 2021.  Disponível em: https://fashionunited.uk/news/business/h-m-joins-eu-green-consumption-pledge-initiative/2021061556032

H&M group: Sustainability circular and climate positive recycling. Disponível em: https://hmgroup.com/sustainability/circular-and-climate-positive/recycling/

Government offices of Sweden: Strategy for sustainable consumption, outubro de 2016. Disponível em: https://www.government.se/articles/2016/10/strategy-for-sustainable-consumption/

Núcleo de Estudos e Negócios Europeus
O Núcleo de Estudos e Negócios Europeus (NENE) está ligado ao Centro Brasileiro de Estudos de Negócios Internacionais & Diplomacia Corporativa (CBENI) da ESPM-SP. Foi criado considerando a necessidade de estimular a comunidade acadêmica brasileira e latino-americana a compreender melhor suas relações com os europeus, buscando compreender e aprofundar a Parceria Estratégica Brasil – União Europeia.