ISSN 2674-8053

Guerra na Ucrânia – Segurança militar

Por: Karen Andersson e Laura Rossi

Com a invasão da Rússia ao território ucraniano no início do ano de 2022, destacou-se uma intensa disparidade em função de capacidade e tecnologias militares, onde os russos demonstraram uma grande vantagem em relação aos seus oponentes. No entanto, essa assimetria se dá muito mais pelo enorme investimento russo na área do que por um despreparo por parte dos ucranianos. Devido ao choque da invasão à Crimeia em 2014, a Ucrânia passou por uma reforma militar nos anos seguintes, destinando muito mais fundos e atenção ao seu desenvolvimento bélico a partir de então. Segundo dados da organização Carnegie Endowment for International Peace, houve um aumento no tamanho das forças ativas ucranianas de de 184 mil oficiais, em 2015, para 250 mil, em 2016.

Apesar da intensidade dos ataques russos no início de 2022, o mundo impressionou-se com a resiliência das desavantajadas tropas ucranianas. Segundo a plataforma The Conversation, tal resistência é graças à reforma militar de 2016, às robustas ajudas financeiras e militares vindas dos países ocidentais e ao forte sentimento patriota dos ucranianos, fazendo com que muitos civis tenham se voluntariado ao combate.

Ainda que as forças ucranianas tenham se mostrado extremamente corajosas e vem resistindo por muito mais tempo do que se imaginava, os países vizinhos foram estremecidos pelo conflito. Desde a invasão, nações próximas como a Suécia e a Finlândia, têm se preparado para a possibilidade de serem possíveis próximos alvos das tropas russas. Dessa forma, a Guerra da Ucrânia não afetou apenas os territórios envolvidos, como também projetou um impacto global, no qual diversos países têm reavaliado suas prioridades nacionais.

A segurança nacional voltou a ser a questão mais relevante entre todas as demais, de forma que os gastos militares dispararam após a invasão do território ucraniano. Um dos principais exemplos desse efeito é a Alemanha. O receio de um maior avanço russo, somado aos traumas em função dos conflitos protagonizados pelos alemães, fez com que o país triplicasse seus investimentos militares desde o mês de fevereiro (FOLHA, 2022). Segundo o primeiro-ministro alemão, Olaf Scholz, a Alemanha irá direcionar €100 bilhões adicionais à segurança nacional do país. Além dos alemães, inúmeros outros países também têm elevado os fundos voltados a esse intuito, como a Bélgica e a Dinamarca (O GLOBO, 2022).

Um ator de extrema relevância para o contexto de segurança militar desde antes da guerra na Ucrânia é a OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte). Foi a partir de quando a Ucrânia anunciou seu interesse em fazer parte da organização que a Rússia sentiu que perdia cada vez mais sua influência nos ex-países soviéticos, que se aproximam cada vez mais do ocidente e dos ideais norte-americanos. Portanto, a organização que foi criada em 1949 para defesa dos países do ocidente contra possíveis agressões da ex-União Soviética, atua como uma aliança militar entre todos seus 28 países membros, sendo a grande maioria deles localizados na Europa, com exceção apenas do Canadá e Estados Unidos. Essa aliança militar existe a partir da soma das tropas dos membros e cada país deve investir 2% de seu PIB em gastos relacionados à defesa. Outro ponto importante a se destacar sobre a OTAN é que a organização atua como defensora de seus membros, e só usará forças militares caso um de seus países membros for atacado, e então, todos estarão envolvidos para reagir militarmente.

Após o início da guerra na Ucrânia e a constante ameaça de avanço russo a alguns de seus países membros, a União Europeia (UE) começou a dar mais importância para a segurança militar do continente. No final de março de 2022, o bloco, representado pelos ministros das Relações Exteriores e Defesa, aprovaram uma nova estratégia de segurança destinada a aumentar a influência militar do bloco, estabelecendo uma força de reação rápida de até 5.000 soldados em casos de crise e urgência. O plano, que ficou conhecido como Bússola Estratégica, foi apresentado no ano passado após a retirada caótica das tropas estrangeiras do Afeganistão depois da queda da capital, Cabul, para o Talibã, em agosto de 2021.  E neste ano de 2022, com as ações da Rússia, o bloco endureceu e pressionou o parlamento para que o plano fosse aprovado. É importante ressaltar que mesmo com a eclosão da guerra, a UE não tem intenção de ser um bloco com atos militares, mas sim agir como um complemento às ações da principal aliança militar do ocidente, a OTAN.

Desde 2017, o bloco vem se preocupando com a segurança da Europa, isso pode ser exemplificado com a criação no mesmo ano do Fundo Europeu de Defesa Comum, que está ligado à implementação da Estratégia Global da UE para a Política Externa e de Segurança voltado às questões de segurança e defesa.  O fundo contribuiu para a implementação da cooperação com a OTAN, assinada em Varsóvia em julho de 2016. Outras ações foram tomadas a partir da criação desse fundo de defesa, como o período de 2021-2027, onde a Comissão propõe aumentar a autonomia estratégica da UE, fortalecer a capacidade de proteger seus cidadãos e reforçar a posição da Europa a nível mundial.

Dos €13 milhões do Fundo Europeu de Defesa, €4,1 milhões são reservados ao financiamento de projetos (desde segurança cibernética até as indústrias). Para além da fase de investigação destes projetos, serão disponibilizados €8,9 milhões para complementar os investimentos dos Estados-Membros, co-financiando as despesas de desenvolvimento de protótipos e as atividades de certificação e teste subsequentes. O Fundo colocará a UE entre os quatro maiores investidores em investigação e tecnologia de defesa na Europa e servirá de catalisador de uma base industrial e científica inovadora e competitiva. Pela primeira vez, os Estados-membros compartilham despesas militares, com o objetivo de melhor identificar riscos, assegurando um bom resultado e beneficiando as economias de escala.

Para concluir, sabe-se que o principal foco da União Europeia é a integração (principalmente econômica) entre seus Estados membros. Com a guerra na Ucrânia percebeu-se a urgência da segurança militar para a proteção do continente europeu, que se viu mais uma vez como palco de uma guerra. Desde então, os países (principalmente aqueles que fazem parte da OTAN) vêm se preparando econômica e militarmente diante da ameaça russa. Já como organização, a UE começa a adotar uma política que tem foco na segurança e defesa a partir do final da década de 1990, e começo dos anos 2000, quando surge a PESC (Política Externa e de Segurança comum) com o objetivo de preservar a paz, reforçar a segurança internacional, promover a cooperação internacional, desenvolver e consolidar a democracia, o Estado de direito e o respeito dos direitos humanos e das liberdades fundamentais. Em 2004 surge a Agência Europeia de Defesa (AED), que apoia projetos de cooperação europeia no domínio da defesa, proporciona um espaço de diálogo aos ministérios da defesa europeus e ajuda os seus 26 membros a desenvolver seus respectivos recursos militares. A agência promove a colaboração, lança novas iniciativas e propõe soluções para melhorar as capacidades de defesa. Além disso, ajuda os países interessados a desenvolverem capacidades de defesa conjuntas. É evidente que após a eclosão da Guerra, o bloco e o continente como um todo passaram a adotar novas medidas de proteção, investimentos e atenção sobre os desdobramentos e avanços da Rússia sobre a Europa, inclusive contando com a cooperação com a OTAN.

Referências

DECCACHE, Matheus. “União Europeia aprova ‘força de resposta rápida’ com 5 mil soldados”. Veja, 2022. Disponível em: https://veja.abril.com.br/mundo/uniao-europeia-aprova-forca-de-resposta-rapida-com-5-mil-soldados/#:~:text=Os%20ministros%20das%20Rela%C3%A7%C3%B5es%20Exteriores,soldados%20em%20casos%20de%20crise.

VAZQUEZ, Rafael. “O que é a Otan e quais são os países que fazem parte da organização”. Valor Econômico, 2022. Disponível em:  https://valor.globo.com/mundo/noticia/2022/02/25/o-que-e-a-otan-e-quais-sao-os-paises-que-fazem-parte-da-organizacao.ghtml

“Fundo Europeu de Defesa”. República Portuguesa. Disponível em: https://www.defesa.gov.pt/pt/pdefesa/due/fed

AKIMENKO, Valeriy. “Ukraine´s toughest fight: The challenge of military reform”. Carnegie endowment for international peace, 2018. Disponível em:

https://carnegieendowment.org/2018/02/22/ukraine-s-toughest-fight-challenge-of-military-reform-pub-75609

“Cooperação da UE em matéria de segurança e defesa”. Conselho Europeu. Disponível em:  https://www.consilium.europa.eu/pt/policies/defence-security/  

“UE-Segurança e Defesa”. Serviço Europeu de Ação Externa, República Portuguesa. Disponível em:

https://portaldiplomatico.mne.gov.pt/politica-externa/defesa/ue-seguranca-e-defesa

GIELOW, Igor. “Guerra na Ucrânia faz Alemanha triplicar orçamento militar e romper tradição”. Folha de São Paulo, 2022. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2022/02/guerra-na-ucrania-faz-alemanha-triplicar-orcamento-militar-e-romper-tradicao.shtml

“Guerra na Ucrânia elevou gastos militares da Europa em 2021, diz pesquisa”. O Globo, 2022. Disponível em: https://oglobo.globo.com/mundo/guerra-na-ucrania-elevou-gastos-militares-da-europa-em-2021-diz-pesquisa-25488464

“Agência Europeia de Defesa”. União Europeia. Disponível em:

https://european-union.europa.eu/institutions-law-budget/institutions-and-bodies/institutions-and-bodies-profiles/eda_pt

Núcleo de Estudos e Negócios Europeus
O Núcleo de Estudos e Negócios Europeus (NENE) está ligado ao Centro Brasileiro de Estudos de Negócios Internacionais & Diplomacia Corporativa (CBENI) da ESPM-SP. Foi criado considerando a necessidade de estimular a comunidade acadêmica brasileira e latino-americana a compreender melhor suas relações com os europeus, buscando compreender e aprofundar a Parceria Estratégica Brasil – União Europeia.

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