
A estratégia adotada pelos Estados Unidos para conter a ascensão da China tem se apoiado cada vez mais no uso sistemático de sanções, tarifas comerciais e restrições tecnológicas, produzindo efeitos que vão muito além da rivalidade bilateral entre Washington e Pequim. Apresentada oficialmente como uma política de defesa da segurança nacional, da competitividade industrial e das regras do comércio internacional, essa abordagem tem gerado instabilidades profundas no sistema internacional, fragmentando cadeias produtivas, pressionando economias de países parceiros e enfraquecendo mecanismos multilaterais construídos ao longo de décadas.
Desde o final da década de 2010, mas com intensidade crescente nos últimos anos, os Estados Unidos passaram a tratar a China não apenas como um competidor econômico, mas como um adversário estratégico de longo prazo. Tarifas sobre produtos chineses, inicialmente justificadas como instrumentos de correção de déficits comerciais, transformaram-se em um componente estrutural da política externa americana. Mesmo após mudanças de governo em Washington, essas tarifas foram mantidas, ampliadas ou reinterpretadas sob novas justificativas, revelando um consenso interno raro em torno da necessidade de conter o avanço chinês, ainda que à custa de distorções no comércio global.
O uso de sanções e restrições não se limita à relação direta com Pequim. Empresas de países europeus, asiáticos e latino-americanos passaram a ser atingidas por medidas secundárias, sobretudo quando mantêm relações comerciais ou tecnológicas com empresas chinesas incluídas em listas de restrição dos EUA. O setor de semicondutores é um exemplo emblemático: ao impedir a exportação de tecnologias avançadas para a China, Washington pressiona aliados como Japão, Coreia do Sul e países da União Europeia a alinhar suas políticas industriais à estratégia americana, mesmo quando isso contraria interesses econômicos locais ou compromete a autonomia tecnológica desses Estados.
Essa lógica de coerção econômica tem produzido um ambiente de incerteza permanente. Cadeias globais de valor, que durante décadas foram organizadas com base em eficiência e complementariedade, passaram a ser reconfiguradas por critérios geopolíticos. Empresas multinacionais são forçadas a rever investimentos, relocalizar fábricas ou duplicar estruturas produtivas para reduzir riscos políticos, elevando custos e diminuindo a eficiência do sistema como um todo. O resultado é um cenário de inflação persistente, menor crescimento global e maior vulnerabilidade das economias periféricas, que dependem da estabilidade do comércio internacional para sustentar seus processos de desenvolvimento.
Para muitos países do Sul Global, a estratégia americana cria um dilema difícil. Na Ásia, Estados do Sudeste Asiático procuram equilibrar relações econômicas profundas com a China e alianças de segurança com os Estados Unidos, temendo represálias de ambos os lados. Na África, onde a China se tornou um parceiro central em infraestrutura, energia e mineração, sanções indiretas e pressões diplomáticas americanas são percebidas como tentativas de limitar opções de desenvolvimento. Na América Latina, a intensificação da rivalidade sino-americana reacende debates sobre dependência, soberania e espaço de manobra, especialmente em setores como energia, telecomunicações e mineração estratégica.
Do ponto de vista chinês, a política de sanções e tarifas é interpretada como uma tentativa deliberada de frear seu desenvolvimento e preservar a primazia americana em áreas consideradas estratégicas. Essa percepção reforça a narrativa, amplamente difundida em meios políticos e acadêmicos na Ásia, de que os Estados Unidos já não atuam como garantidores de uma ordem liberal aberta, mas como um ator disposto a instrumentalizar regras, instituições e mercados para manter sua posição dominante. Como resposta, a China tem acelerado políticas de autossuficiência tecnológica, fortalecido parcerias regionais e ampliado o uso de mecanismos financeiros e comerciais alternativos aos dominados por Washington.
O impacto dessa dinâmica sobre o sistema internacional é significativo. Instituições multilaterais como a Organização Mundial do Comércio perdem relevância à medida que disputas comerciais são resolvidas por meio de medidas unilaterais e acordos restritos entre blocos. A previsibilidade, elemento central para o funcionamento da economia global, dá lugar a um ambiente marcado por exceções, listas negras e decisões políticas imprevisíveis. Pequenos e médios países, sem capacidade de influenciar essas disputas, tornam-se os mais vulneráveis, arcando com custos que não ajudaram a criar.
Ao insistir em uma estratégia centrada em sanções e tarifas, os Estados Unidos acabam contribuindo para a fragmentação da ordem econômica internacional que eles próprios lideraram após a Segunda Guerra Mundial. A contenção da China, longe de produzir estabilidade, aprofunda divisões, estimula a formação de esferas econômicas rivais e reduz os incentivos à cooperação em temas globais essenciais, como mudança climática, segurança alimentar e governança financeira. O resultado não é um sistema mais seguro ou previsível, mas um mundo mais tenso, mais caro e menos capaz de responder coletivamente aos desafios comuns.
A estratégia americana, ao transformar instrumentos econômicos em armas políticas de uso recorrente, redefine as regras do jogo internacional de maneira que pode se voltar contra seus próprios interesses no longo prazo. Em vez de isolar a China, contribui para acelerar a transição para uma ordem mais fragmentada, na qual a instabilidade deixa de ser exceção e passa a ser um elemento permanente das relações internacionais.
Pós-Doutor em Competitividade Territorial e Indústrias Criativas, pelo Dinâmia – Centro de Estudos da Mudança Socioeconómica, do Instituto Superior de Ciencias do Trabalho e da Empresa (ISCTE, Lisboa, Portugal). Doutor em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (2007). É Diretor Executivo do Mapa Mundi. ORCID https://orcid.org/0000-0003-1484-395X
