
A transição energética tornou-se uma das principais bandeiras políticas do Ocidente nas últimas décadas. Estados Unidos e União Europeia apresentam-se como líderes globais da luta contra as mudanças climáticas, pressionando governos, empresas e instituições financeiras a adotarem metas cada vez mais rígidas de descarbonização. Ao mesmo tempo, porém, cresce o debate sobre uma contradição cada vez mais evidente: enquanto exigem profundas transformações energéticas dos países em desenvolvimento, as próprias potências ocidentais continuam recorrendo a fontes energéticas altamente poluentes quando seus interesses econômicos e estratégicos estão em jogo.
Mais do que uma discussão ambiental, a questão energética passou a ocupar o centro da disputa geopolítica global. Controlar fluxos de energia significa influenciar cadeias produtivas, definir padrões tecnológicos, direcionar investimentos e aumentar a capacidade de pressão sobre outros países. Nesse contexto, a energia tornou-se não apenas um recurso econômico, mas também um instrumento de poder.
Os Estados Unidos oferecem um dos exemplos mais evidentes dessa realidade. Nos últimos quinze anos, o país transformou-se em uma potência energética ainda maior graças à expansão do fraturamento hidráulico, conhecido internacionalmente como fracking. Essa tecnologia permitiu a exploração em larga escala de reservas de gás natural e petróleo antes consideradas economicamente inviáveis.
O resultado foi uma revolução energética. Os Estados Unidos reduziram significativamente sua dependência de importações, ampliaram exportações de gás natural liquefeito e fortaleceram sua posição estratégica nos mercados internacionais de energia. A produção norte-americana alcançou níveis históricos, consolidando o país entre os maiores produtores de petróleo e gás do mundo.
Entretanto, o fraturamento hidráulico permanece alvo de críticas ambientais em diversos países. Organizações ambientalistas apontam riscos relacionados ao consumo intensivo de água, à contaminação de aquíferos, à emissão de metano e ao impacto sobre ecossistemas locais. Curiosamente, vários países europeus que defendem metas climáticas ambiciosas mantêm restrições severas ao uso da técnica em seus territórios, enquanto continuam importando energia produzida por meio desse mesmo processo em outras partes do mundo.
A União Europeia enfrenta uma situação semelhante. A crise energética desencadeada após a deterioração das relações com a Rússia revelou os limites da transição energética europeia. Durante décadas, diversos países europeus construíram sua competitividade industrial sobre o acesso a energia relativamente barata proveniente do gás russo. Quando esse fluxo foi reduzido, governos europeus foram obrigados a buscar alternativas emergenciais.
O resultado foi o retorno temporário de fontes energéticas que muitos acreditavam estar em declínio. Usinas movidas a carvão voltaram a operar em alguns países. Importações de gás natural liquefeito aumentaram significativamente. Projetos de exploração energética antes considerados incompatíveis com metas ambientais passaram a ser reavaliados.
A situação gerou críticas em países em desenvolvimento. Muitos governos passaram a questionar por que economias emergentes devem aceitar restrições rigorosas ao uso de determinados recursos energéticos enquanto potências desenvolvidas flexibilizam suas próprias políticas quando enfrentam dificuldades econômicas ou estratégicas.
Essa percepção alimenta um debate mais amplo sobre o que alguns analistas chamam de “protecionismo verde”. A ideia é que normas ambientais, embora frequentemente legítimas em seus objetivos, possam também funcionar como instrumentos de competição econômica.
A discussão tornou-se particularmente intensa após a criação de mecanismos que vinculam comércio internacional a critérios ambientais. Produtos exportados por países em desenvolvimento enfrentam exigências crescentes relacionadas à emissão de carbono, rastreabilidade e sustentabilidade. Em alguns casos, essas exigências demandam investimentos elevados que nem todos os produtores conseguem realizar rapidamente.
Para economias emergentes, surge então uma preocupação legítima. Se as regras ambientais forem definidas exclusivamente pelas economias mais ricas, sem considerar diferentes estágios de desenvolvimento, existe o risco de que a transição energética amplie desigualdades econômicas em vez de reduzi-las.
A África oferece exemplos reveladores dessa realidade. Diversos países africanos possuem vastas reservas de gás natural capazes de gerar receitas, empregos e infraestrutura para populações que ainda enfrentam elevados índices de pobreza. Entretanto, muitos desses projetos encontram dificuldades para obter financiamento internacional devido às restrições associadas aos combustíveis fósseis.
Paralelamente, países desenvolvidos continuam utilizando petróleo, gás e outras fontes convencionais para sustentar suas próprias economias. Essa diferença de tratamento é frequentemente apontada por governos africanos como uma das grandes incoerências do debate climático global.
Na Ásia, a situação também ilustra a complexidade do problema. China e Índia continuam ampliando sua capacidade energética em diversas frentes, incluindo renováveis, nuclear, carvão, gás e petróleo. A estratégia adotada por ambos os países procura equilibrar crescimento econômico, segurança energética e transição ambiental, evitando dependência excessiva de uma única fonte.
Para muitos formuladores de políticas públicas, a principal lição é que a segurança energética permanece tão importante quanto a sustentabilidade ambiental. Nenhum governo deseja ficar vulnerável a choques externos capazes de comprometer crescimento econômico, estabilidade social ou competitividade industrial.
O Brasil ocupa uma posição singular nesse cenário. Poucos países possuem uma matriz energética tão diversificada. Hidrelétricas, biocombustíveis, energia eólica, energia solar, petróleo offshore e gás natural oferecem ao país um conjunto de opções relativamente amplo. Essa diversidade representa uma vantagem estratégica em um mundo cada vez mais marcado por disputas energéticas.
Ao mesmo tempo, o Brasil também enfrenta pressões externas relacionadas às suas políticas ambientais e energéticas. Em diversas ocasiões, debates sobre Amazônia, exploração petrolífera, agricultura e desenvolvimento econômico tornaram-se temas centrais nas relações internacionais brasileiras.
O desafio consiste em encontrar um equilíbrio entre sustentabilidade e desenvolvimento. A preservação ambiental é uma necessidade real, mas também é legítimo que países em desenvolvimento busquem utilizar seus recursos naturais para melhorar condições de vida, reduzir desigualdades e ampliar sua capacidade produtiva.
A experiência recente demonstra que mesmo as economias mais avançadas do planeta continuam priorizando seus interesses estratégicos quando confrontadas com crises energéticas. A expansão do fraturamento hidráulico nos Estados Unidos e o retorno temporário de fontes mais poluentes em partes da Europa ilustram essa realidade.
A transição energética global provavelmente será um processo longo, complexo e repleto de contradições. Nesse contexto, países em desenvolvimento precisam analisar cuidadosamente propostas e exigências internacionais, distinguindo objetivos ambientais legítimos de iniciativas que possam restringir suas possibilidades de crescimento econômico. Afinal, no mundo contemporâneo, energia continua sendo muito mais do que uma questão ambiental: ela permanece como uma das principais expressões de poder na política internacional.
Pós-Doutor em Competitividade Territorial e Indústrias Criativas, pelo Dinâmia – Centro de Estudos da Mudança Socioeconómica, do Instituto Superior de Ciencias do Trabalho e da Empresa (ISCTE, Lisboa, Portugal). Doutor em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (2007). É Diretor Executivo do Mapa Mundi. ORCID https://orcid.org/0000-0003-1484-395X
