
Ao longo desta série, procurei desenvolver uma hipótese que, à primeira vista, pode parecer contraintuitiva. A inteligência artificial talvez não represente o principal ativo econômico da próxima década. À medida que modelos cada vez mais sofisticados se tornam amplamente disponíveis, seu acesso tende a deixar de constituir um diferencial competitivo isolado. Como ocorreu anteriormente com a eletricidade, a internet e outras grandes infraestruturas tecnológicas, a vantagem deixará de residir na tecnologia em si e passará a depender da capacidade de utilizá-la de maneira mais eficiente do que os demais.
Essa conclusão conduz naturalmente a uma nova pergunta. Se todos poderão acessar sistemas semelhantes de inteligência artificial, o que continuará diferenciando empresas, regiões e países? Em outras palavras, qual será a verdadeira vantagem competitiva da economia baseada em inteligência artificial?
Responder a essa questão exige abandonar uma percepção bastante difundida segundo a qual as revoluções tecnológicas produzem vencedores apenas porque algumas sociedades desenvolvem máquinas mais avançadas do que outras. A história econômica revela um processo muito mais complexo. As tecnologias transformadoras sempre estiveram disponíveis para diferentes países em algum momento. O que variou foi a capacidade de reorganizar instituições, empresas e mercados em torno dessas inovações.
A eletricidade oferece um bom exemplo. Poucos anos depois de sua consolidação, praticamente todas as economias industrializadas tinham acesso às mesmas tecnologias básicas de geração e distribuição de energia. No entanto, seus resultados econômicos foram bastante distintos. Algumas sociedades reorganizaram rapidamente seus processos produtivos, investiram em qualificação profissional, ampliaram sua capacidade industrial e desenvolveram novos setores econômicos. Outras incorporaram a mesma tecnologia de forma muito mais lenta, preservando estruturas produtivas pouco adaptadas à nova realidade.
A inteligência artificial parece iniciar um processo semelhante. Embora a qualidade dos modelos continue evoluindo, tudo indica que diferenças significativas entre eles tenderão a diminuir ao longo do tempo. Isso não significa que a inovação deixará de existir. Significa apenas que o acesso à tecnologia será progressivamente democratizado. Nesse cenário, possuir inteligência artificial já não será suficiente. O verdadeiro diferencial consistirá na capacidade de reorganizar a economia para extrair dela o máximo potencial.
Essa reorganização começa pelas empresas, mas não termina nelas. Organizações podem incorporar sistemas avançados de inteligência artificial para automatizar processos, apoiar decisões e desenvolver novos produtos. Entretanto, seus resultados dependerão também da existência de profissionais qualificados, infraestrutura digital adequada, disponibilidade de energia, ambiente regulatório previsível, acesso a capital, universidades capazes de formar talentos e ecossistemas de inovação suficientemente dinâmicos para transformar descobertas científicas em aplicações econômicas.
A vantagem competitiva deixa, assim, de ser um atributo exclusivamente empresarial. Ela passa a constituir uma característica sistêmica. Economias capazes de coordenar esses diferentes elementos tenderão a incorporar a inteligência artificial com maior velocidade e profundidade. Por outro lado, países que apresentarem fragilidades persistentes em algumas dessas dimensões poderão enfrentar dificuldades mesmo dispondo das mesmas ferramentas tecnológicas.
Essa constatação modifica também a forma de compreender a produtividade. Durante muito tempo, ganhos de produtividade foram associados principalmente à introdução de máquinas mais eficientes ou à redução dos custos de produção. A inteligência artificial amplia essa lógica. Seu maior potencial talvez não esteja apenas em automatizar tarefas específicas, mas em reorganizar a maneira como decisões são tomadas, como informações circulam entre organizações e como diferentes setores econômicos interagem entre si.
Essa perspectiva aproxima a inteligência artificial de outras grandes revoluções tecnológicas. A internet não criou apenas novos canais de comunicação. Ela modificou profundamente as relações entre consumidores, empresas, governos e mercados. Da mesma forma, a inteligência artificial tende a alterar os mecanismos pelos quais conhecimento é produzido, compartilhado e aplicado. Seu impacto econômico dependerá menos da existência de algoritmos sofisticados e mais da capacidade de integrar esses algoritmos aos processos cotidianos da sociedade.
É justamente por essa razão que diferentes países começam a investir simultaneamente em áreas aparentemente desconectadas. Reformas educacionais, expansão da infraestrutura energética, fortalecimento da pesquisa científica, modernização das telecomunicações, incentivos à inovação e políticas industriais voltadas aos semicondutores fazem parte de uma mesma estratégia. Todas procuram ampliar a capacidade nacional de absorver uma tecnologia que, por sua própria natureza, atravessará praticamente todos os setores da economia.
Esse movimento revela uma mudança importante na própria ideia de desenvolvimento. Durante décadas, muitas políticas públicas concentraram seus esforços em atrair investimentos ou estimular determinados segmentos industriais. A economia baseada em inteligência artificial exige uma abordagem mais abrangente. O desafio deixa de ser apenas produzir mais tecnologia. Passa a ser construir instituições capazes de transformar inteligência abundante em ganhos permanentes de produtividade, inovação e competitividade.
Sob essa perspectiva, o recurso verdadeiramente escasso da próxima década talvez não seja a inteligência artificial, mas a capacidade coletiva de reorganização. Empresas precisarão rever processos internos. Universidades terão de adaptar modelos de formação profissional. Governos enfrentarão o desafio de atualizar regulações concebidas para uma economia anterior. Trabalhadores desenvolverão novas competências. Mercados financeiros aprenderão a avaliar ativos cujo principal valor estará cada vez menos associado a bens materiais e cada vez mais relacionado à capacidade de combinar conhecimento, tecnologia e organização.
Essa transformação ajuda a compreender por que a inteligência artificial dificilmente produzirá vencedores automáticos. O simples acesso à tecnologia não garante desenvolvimento econômico, assim como a disponibilidade de eletricidade jamais assegurou, por si só, industrialização. O diferencial continuará dependendo da forma como sociedades inteiras respondem às oportunidades abertas por cada revolução tecnológica.
Talvez essa seja a principal lição deste momento histórico. A inteligência artificial modifica profundamente os instrumentos disponíveis para produzir riqueza, mas não altera um princípio que acompanha a economia há séculos. O desenvolvimento nunca foi consequência exclusiva da tecnologia. Ele sempre resultou da capacidade de organizar pessoas, instituições e recursos em torno das possibilidades abertas por cada nova etapa do progresso técnico.
Se essa interpretação estiver correta, a grande disputa do século XXI não ocorrerá apenas nos laboratórios que desenvolvem modelos cada vez mais sofisticados. Ela acontecerá, sobretudo, na capacidade de cada sociedade transformar uma inteligência que se torna abundante em prosperidade, inovação e poder econômico. É justamente essa capacidade de reorganização que definirá os novos líderes da economia mundial.
Pós-Doutor em Competitividade Territorial e Indústrias Criativas, pelo Dinâmia – Centro de Estudos da Mudança Socioeconómica, do Instituto Superior de Ciencias do Trabalho e da Empresa (ISCTE, Lisboa, Portugal). Doutor em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (2007). É Diretor Executivo do Mapa Mundi. ORCID https://orcid.org/0000-0003-1484-395X
