
O Sul Global tornou-se uma das expressões mais utilizadas para explicar a transformação da política internacional. Brasil, Índia, China, África do Sul, Indonésia, Arábia Saudita, Nigéria e dezenas de outros países aparecem reunidos sob uma mesma categoria que procura representar o deslocamento gradual do poder econômico e político para além do núcleo tradicional formado pelos Estados Unidos, Europa e Japão. O problema é que esses países possuem interesses, regimes políticos, níveis de desenvolvimento e prioridades estratégicas profundamente diferentes.
A pergunta, portanto, tornou-se inevitável: o Sul Global realmente existe?
A resposta depende do que esperamos encontrar. Se procurarmos uma aliança organizada, com objetivos comuns e disposição para agir coletivamente, provavelmente não. Se entendermos o Sul Global como um espaço político utilizado por países que desejam aumentar sua autonomia e reformar uma ordem internacional ainda fortemente influenciada pelo Ocidente, então sua existência se torna muito mais evidente.
Essa diferença ajuda a compreender por que a expressão ganhou tanta força justamente quando o mundo se tornou mais fragmentado.
O Sul Global não é uma organização. Não possui sede, tratado constitutivo, liderança definida ou uma política externa comum. Tampouco existe consenso sobre quais países pertencem a ele. China costuma ser incluída apesar de possuir a segunda maior economia do planeta. Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos aparecem associados ao grupo mesmo dispondo de renda per capita superior à de diversos países europeus. Índia e Paquistão podem ser classificados da mesma maneira apesar de décadas de rivalidade.
O conceito, portanto, não descreve uma realidade econômica homogênea. Ele expressa principalmente uma posição diante da distribuição internacional do poder.
É nesse sentido que sua importância cresce.
Muitos países da Ásia, África, Oriente Médio e América Latina compartilham a percepção de que as principais instituições internacionais continuam refletindo uma distribuição de poder criada em outra época. O Conselho de Segurança das Nações Unidas permanece controlado por cinco membros permanentes. O Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial passaram por reformas, mas continuam sendo alvo de questionamentos sobre a distribuição de influência. As grandes regras financeiras, tecnológicas e comerciais internacionais ainda são fortemente condicionadas por países desenvolvidos.
Essa insatisfação cria um ponto de convergência. Mas convergir na crítica é muito mais fácil do que concordar sobre a alternativa.
O BRICS mostra essa contradição com particular clareza. O agrupamento passou por uma expansão significativa e reúne hoje países com enorme peso populacional, econômico e energético. A entrada da Indonésia ampliou ainda mais sua presença asiática, enquanto países como Egito, Etiópia, Irã e Emirados Árabes Unidos aumentaram sua diversidade.
Quanto maior o BRICS se torna, porém, mais difícil fica tratá-lo como um bloco político homogêneo.
China e Índia cooperam dentro do agrupamento, mas são também competidores estratégicos. Possuem disputas territoriais e diferentes projetos para a organização da Ásia. A China deseja ampliar sua influência internacional e reduzir a capacidade dos Estados Unidos de condicionar o sistema global. A Índia também defende uma ordem menos concentrada no Ocidente, mas não pretende simplesmente trocar uma ordem liderada por Washington por outra organizada em torno de Pequim.
Essa diferença explica uma característica aparentemente contraditória da política externa indiana. A Índia participa do BRICS ao lado de China e Rússia e, simultaneamente, participa do Quad com Estados Unidos, Japão e Austrália.
Vista pela lógica tradicional das alianças, essa política parece incoerente. Vista pela lógica da autonomia estratégica, faz bastante sentido.
Nova Délhi não quer escolher um bloco. Quer participar de vários.
A Indonésia segue caminho semelhante. Sua entrada no BRICS não significou ruptura com os Estados Unidos, Japão ou países europeus. Jacarta procura utilizar diferentes fóruns para aumentar seu espaço de negociação, atrair investimentos e preservar uma política externa historicamente preocupada com autonomia.
Essa talvez seja a característica mais importante do Sul Global contemporâneo: sua força não vem da unidade, mas da capacidade de seus integrantes de evitar alinhamentos rígidos.
O Brasil oferece outro exemplo. Brasília defende a reforma das instituições internacionais, participa do BRICS e procura ampliar a cooperação Sul-Sul. Ao mesmo tempo, mantém relações econômicas fundamentais com Estados Unidos e União Europeia e não possui interesse em transformar o BRICS em uma aliança antiocidental.
Para o Brasil, uma ordem multipolar é interessante justamente porque aumenta o número de parceiros possíveis.
A Arábia Saudita utiliza lógica semelhante de maneira ainda mais pragmática. Durante décadas, sua política externa esteve profundamente associada à parceria de segurança com os Estados Unidos. Essa relação continua relevante, mas Riad ampliou seus vínculos econômicos com a China, aproximou-se de outras potências asiáticas e passou a exercer uma diplomacia muito mais autônoma.
Isso não significa que os sauditas tenham escolhido o Oriente contra o Ocidente. Significa que já não desejam depender exclusivamente de uma relação.
A multiplicação dessas estratégias ajuda a explicar por que interpretar o Sul Global como um bloco antiocidental produz tantos erros.
Há governos que possuem relações difíceis com Washington e enxergam a redução da influência norte-americana como objetivo estratégico. Outros querem apenas melhores condições de negociação. Alguns dependem dos Estados Unidos para segurança, da China para comércio e da Europa para investimentos. Muitos querem reformar a ordem internacional sem destruí-la.
Até mesmo a relação com a Rússia demonstra essas diferenças.
A guerra na Ucrânia revelou que grande parte do mundo não estava disposta a reproduzir automaticamente a leitura predominante nos Estados Unidos e na Europa. Isso não significou, porém, apoio uniforme a Moscou. Diversos países condenaram violações da soberania ucraniana ao mesmo tempo que rejeitaram aderir integralmente à política ocidental de isolamento da Rússia.
Para muitos governos, o conflito deveria ser analisado a partir de seus próprios interesses e não de uma obrigação de alinhamento.
A Índia continuou comprando petróleo russo porque energia mais barata atendia aos seus interesses econômicos. Países africanos mantiveram relações com Moscou por razões que envolvem comércio, fertilizantes, armas e segurança. Brasil procurou preservar canais diplomáticos. Nenhuma dessas posições precisa significar adesão integral às interpretações russas sobre a guerra.
Esse comportamento incomoda grandes potências porque reduz a eficácia da lógica dos blocos.
Mas é justamente aí que o Sul Global encontra uma de suas principais fontes de poder.
Durante a Guerra Fria, muitos países recém-independentes tentaram escapar da escolha entre Estados Unidos e União Soviética por meio do Movimento dos Países Não Alinhados. A situação atual é diferente. O mundo é economicamente muito mais integrado, a China possui uma relação comercial com o Ocidente incomparavelmente maior do que a soviética e potências médias dispõem de instrumentos econômicos muito mais relevantes.
O não alinhamento contemporâneo não significa manter distância das grandes potências. Significa aproximar-se de várias ao mesmo tempo.
A África tornou-se um dos lugares onde essa transformação aparece com maior clareza.
Durante décadas, o continente foi frequentemente descrito como receptor de decisões tomadas em outros lugares. Hoje, a competição entre China, Estados Unidos, Europa, Índia, Turquia, Rússia e países do Golfo ampliou as opções disponíveis para muitos governos africanos.
A Etiópia pode buscar investimentos chineses em infraestrutura e simultaneamente manter relações com instituições financeiras ocidentais e países do Golfo. A Nigéria pode negociar com diferentes parceiros interessados em energia, mercados e infraestrutura. A África do Sul pode participar do BRICS, manter relações políticas com China e Rússia e continuar profundamente conectada às economias ocidentais.
A própria União Africana tornou-se membro permanente do G20, ampliando a capacidade institucional do continente de participar das discussões sobre governança econômica global.
Mas falar em uma única posição africana também seria equivocado.
As prioridades de um exportador de petróleo como a Nigéria não são idênticas às de um país dependente de importações energéticas. Estados costeiros possuem preocupações diferentes das economias sem acesso ao mar. Países ricos em minerais estratégicos observam a transição energética de maneira diferente daqueles que não possuem esses recursos.
A mesma diversidade aparece na América Latina.
Brasil procura ampliar seu papel internacional por meio de fóruns multilaterais e relações diversificadas. Argentina possui ciclos políticos que alteram significativamente sua orientação externa. México está profundamente integrado economicamente aos Estados Unidos. Países menores da América Central e do Caribe enfrentam limitações que tornam suas estratégias muito diferentes das brasileiras.
O Sul Global, portanto, não fala com uma única voz porque não possui uma única realidade.
Ainda assim, isso não significa que a categoria seja inútil.
Existem questões nas quais interesses diferentes conseguem produzir coalizões importantes. A reforma das instituições financeiras internacionais é uma delas. O financiamento climático é outra. Países em desenvolvimento argumentam que não podem assumir os mesmos custos de uma transição energética que as economias industrializadas, responsáveis por grande parte das emissões históricas.
A disputa sobre minerais estratégicos oferece outro exemplo.
Durante décadas, economias periféricas exportaram matérias-primas e importaram produtos industrializados de maior valor agregado. A transição energética abriu uma nova oportunidade para países que possuem lítio, cobre, cobalto, níquel e outros minerais essenciais. A República Democrática do Congo, Indonésia, Chile e diversos países africanos passaram a discutir maneiras de capturar uma parcela maior do valor dessas cadeias.
A Indonésia adotou políticas destinadas a estimular o processamento doméstico de níquel em vez de permanecer apenas como exportadora do minério bruto. O objetivo é simples: utilizar um recurso estratégico para construir capacidade industrial.
Essa lógica interessa a vários países do Sul Global, mesmo quando eles competem entre si.
O mesmo acontece com a inteligência artificial, infraestrutura digital e acesso a tecnologias. Países em desenvolvimento não querem permanecer apenas como consumidores de sistemas criados nos Estados Unidos, China ou Europa. A discussão sobre soberania digital começa a ser incorporada à discussão mais ampla sobre desenvolvimento.
É aqui que o conceito de Sul Global se torna politicamente relevante.
Esses países não precisam concordar sobre Rússia, China, democracia, comércio ou segurança para perceber que possuem interesse em ampliar sua participação na definição das regras internacionais.
A unidade, portanto, não está necessariamente nas respostas. Está em algumas das perguntas.
Quem controla as instituições financeiras? Quem define padrões tecnológicos? Quem financia a transição energética? Quem absorve os custos das mudanças climáticas? Quem possui direito a veto nas Nações Unidas? Quem transforma matérias-primas em produtos de alto valor agregado? Quem estabelece as condições de financiamento para países endividados?
São questões diferentes, mas todas envolvem a distribuição internacional de poder.
Isso explica por que a expressão Sul Global continuará sendo utilizada apesar de suas evidentes contradições.
O erro está em imaginar que o crescimento de sua importância produzirá uma nova coalizão semelhante aos antigos blocos da Guerra Fria. É mais provável que aconteça o contrário. Países emergentes utilizarão cada vez mais diferentes organizações para objetivos específicos.
Brasil pode cooperar com Índia em uma questão, com China em outra e com Estados Unidos em uma terceira. Arábia Saudita pode aproximar-se de Pequim economicamente e continuar dependendo de Washington em assuntos de segurança. Indonésia pode participar do BRICS e preservar fortes relações com Japão e países ocidentais. Governos africanos podem negociar simultaneamente com China, Europa, Índia, Turquia e países do Golfo.
O que parece contradição pode ser justamente a estratégia.
O Sul Global ganha importância não porque seus integrantes estejam formando um bloco capaz de enfrentar coletivamente o Ocidente, mas porque um número crescente de países deixou de aceitar que participar da ordem internacional exija escolher permanentemente um lado.
Isso também impõe limites à própria China. Pequim é frequentemente apresentada como principal beneficiária da ascensão do Sul Global e certamente utiliza esse discurso para defender uma ordem menos concentrada nos Estados Unidos. Mas a autonomia desejada por Brasil, Índia, Indonésia, Arábia Saudita e países africanos vale tanto diante de Washington quanto diante de Pequim.
Eles querem mais opções, não necessariamente um novo líder.
Essa distinção será decisiva para compreender os próximos anos. Quanto mais intensa ficar a competição entre Estados Unidos e China, maior será a pressão para que outros países escolham posições. Mas essa mesma competição aumenta o valor daqueles que conseguem preservar relações com os dois lados.
O Sul Global pode nunca se transformar em uma unidade política coerente. Talvez essa expectativa parta de uma compreensão equivocada sobre o fenômeno.
Sua influência não depende de todos marcharem na mesma direção.
Ela nasce de algo mais fragmentado e, ao mesmo tempo, mais compatível com a ordem internacional que está surgindo: dezenas de países com interesses diferentes perceberam que a dispersão do poder mundial lhes permite negociar mais, diversificar parceiros e resistir a alinhamentos automáticos.
O Sul Global existe justamente porque não precisa ser um bloco. Sua principal força pode estar naquilo que parece ser sua maior fraqueza: a capacidade de permanecer diverso enquanto seus integrantes exigem mais espaço para decidir os próprios caminhos.
Pós-Doutor em Competitividade Territorial e Indústrias Criativas, pelo Dinâmia – Centro de Estudos da Mudança Socioeconómica, do Instituto Superior de Ciencias do Trabalho e da Empresa (ISCTE, Lisboa, Portugal). Doutor em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (2007). É Diretor Executivo do Mapa Mundi. ORCID https://orcid.org/0000-0003-1484-395X
