A derrota política do neoliberalismo na Argentina e o futuro brasileiro

A vitória de Alberto Fernández e Cristina Kirchner nas eleições presidenciais da Argentina representou um enorme golpe para os movimentos de centro-direita na América Latina. Entre os muitos artigos jornalísticos da imprensa local e de análises especializadas internacionais que circulam desde as eleições primárias na Argentina – em agosto passado e que indicavam uma inevitável derrota de Macri – há um consenso em torno do fracasso econômico do seu governo, sobretudo pela aumento da inflação e endividamento público. [1] O fato dos analistas vincularem a derrota de Macri a políticas econômicas neoliberais acende um alerta para o atual governo brasileiro que se apoia no radicalismo neoliberal como politica econômica.

O fracasso do neoliberalismo econômico de Macri se deu apesar de ele se beneficiar de três aspectos aqui destacados: sua trajetória política, sua origem familiar e suas relações com a comunidade internacional. Estes pontos são importantes para realizar uma comparação com o atual governo brasileiro que se regozija de sua rede política – ainda que formada de novatos e oportunistas –, da valorização de vínculos familiares na política nacional e internacional – como por exemplo a superficial amizade de um dos filhos com a família Trump – e de alianças ilusórias com o governos e investidores estrangeiros. Neste artigo pretende-se trazer à luz as vantagens que o governo Macri possuiu, em relação ao brasileiro, para a implementação de uma agenda neoliberal: o argentino teve de fato uma autêntica, vasta e orgânica rede formada por especialistas em políticas públicas. Sua família é proprietária de um extenso conglomerado de empresas e tem boas relações com empresários locais e internacionais. Macri recebeu um apoio sem precedente recente, na região, da comunidade internacional – da banca financeira, instituições multilaterais, chefes de Estado e de governo. Mesmo com tudo isso Macri fracassou na implementação de sua agenda econômica e nas urnas. Tomando como exemplo o caso Macri  demonstra-se a fragilidade que o atual governo brasileiro apresenta nestes três pilares.

It’s the economy, stupid. Os motivos da derrota.

Em artigo recente, Federico Sturzenegger – presidente do Banco Central da Argentina do governo Macri até Junho de 2018 –   sustenta que “como um todo”  o seu governo não foi mal, mas reconhece que o fracasso eleitoral se deu pela política econômica.[2] Macri de fato teve alguns bons resultados em diversas áreas. Em matéria de política pública houve melhoras estatísticas e institucionais: diminuição de 30% nas taxas de homicídio e nomeação de juízes tidos por independentes para a Corte Suprema Argentina. Realizou também importantes reformas na gestão pública com resultados expressivas na diminuição dos custos na administração pública, melhorou o sistema financeiro nacional e a infraestrutura aérea. Sua gestão também foi aplaudida pela diminuição às restrições ao comércio internacional: eliminação das barreiras as exportações agrícolas e direitos de exportação, fim da falta de transparência nas tramitações de comercio exterior, fim dos controles cambiais. No entanto, ao longo de seus quatro anos de governo houve uma deterioração de importantes indicadores macroeconômicos: queda de 10% na renda per capita nacional; a inflação acumulada nos quatro anos foi acima de 300%; a taxa de desemprego ultrapassou a barreira psicológica dos dois dígitos, passando de 7,5% a mais de 10% de desempregados; triplicou a dívida externa e quase duplicou a dívida pública. [3] Outro renomado ex-ministro da economia e também candidato a presidência, Roberto Lavagna, aponta para o fato de que ao contrário do prometido a política econômica afugentou os  investidores. Ao longo dos quatro anos de governo Macri foram retirados do país quase 85 bilhões de dólares.[4] Tamanho fracasso econômico não era esperado pois o governo tinha a seu lado um excelente grupo de economistas e apoio do sistema financeiro internacional, que ofereceu financiamento para implementação de suas reformas. Macri também desfrutou de estreitos laços com as mais importantes lideranças políticas mundiais. Então qual foi o motivo do fracasso?

Em um país acostumado com super ministros da Economia todo-poderosos, Macri trouxe para seu governo dois deles com enorme reconhecimento dentro e fora do país : Alfonso Prat-Gay, nomeado Ministro da Fazenda e Finanças Públicas, estudou na  Universidade da Pensilvânia nos EUA e goza de reconhecimento internacional por sua destacada passagem na década de 90 pelo JP Morgan de Nova Iorque atuando como diretor e estrategista de mercados e Prat-Gay que já teve uma bem sucedida atuação como presidente do Banco Central da República Argentina entre 2002 e 2004. Outro nome de destaque internacional na equipe de Macri foi o então nomeado para a presidência do Banco Central: Federico Sturzenegger, PhD em economia pelo prestigiado MIT nos EUA, professor na Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA) e na Escola de Governo John F. Kennedy de Harvard. Em 2006 no Fórum Econômico de Davos na Suíça Sturzenegger foi premiado Jovem Líder Global.

Alguns analistas afirmam que a política econômica neoliberal de Macri falhou pela gradual implementação de corte de gastos e pela falta de privatizações. O “gradualismo” é apontado como fator principal para a crise cambiária, aumento da dívida pública interna e externa. Vale lembrar que os resultados econômicos dos seus dois primeiros anos não foram ruins. A debacle econômica foi justamente após setembro de 2018, quando Macri reconheceu pela primeira vez que o pais esta atravessando uma severa crise de confiança e reconheceu as falhas de sua estratégia de cortes a longo prazo.[5] Por isso, alguns analistas sustentam que o surpreendente e retumbante  fracasso se deu justamente pela mudança brusca após as eleições de meio de mandato, quando o gradualismo dos primeiros dois anos foi trocado por um método mais radical em busca imediata de resultados. De acordo com o ex-presidente do Banco Central, Federico Stuzenegger, o objetivo do gradualismo era realizar uma transição suave sem choques sociais até pelo menos as eleições de meio de mandato, ele sustenta que durante o primeiro ano Macri evitou o tratamento-de-choque nas contas públicas temendo as consequências sofridas pelo ex-presidente Fernando De la Rúa em 2001. Os severos cortes nos gastos públicos implementados pela equipe econômica de De La Rúa terminaram  por deteriorar ainda mais a situação econômica provocando assim uma enorme crise político-social que culminou com a renuncia à presidência e com uma fuga cinematográfica ao embarcar em helicóptero de maneira improvisada no teto da Casa Rosada para evitar as manifestações na Plaza de Mayo em 20 dezembro de 2001.

A interpretação destas análises jornalísticas e de especialistas corrobora o entendimento histórico de que na América do Sul a implementação de políticas neoliberais tem um alto custo eleitoral. Nos idos da década de 90 vários países da região haviam adotado as “reformas estruturantes” recomendadas na síntese redigida em 1989 pelo economista inglês John Williamson e conhecido por Consenso de Washington. Essas reformas neoliberais culminaram em privatizações de ativos estatais, arrocho dos gastos públicos, liberalização comercial e financeira. Todos esses governos caíram nas urnas por conta de resultados econômicos pífios. A Argentina em particular viveu um caso único ao passar de campeã das reformas neoliberais do anos 90 ao total e absoluto caos político, econômico e social em dezembro de 2001. Pouco menos de um ano depois, no Brasil, Fernando Henrique Cardoso foi também vitimado pelas urnas em parte pela crise econômica que o pais atravessava. Com exceção da Colômbia, todos os governos sul-americanos que seguiam o Consenso de Washington sofreram derrotas eleitorais na primeira década do século 21. Essa guinada à esquerda ficou conhecida como “maré rosa” (ou pink tide em inglês) nomenclatura criada pelo jornalista norte-americano Larry Rohter.

A surpreendente eleição de Mauricio Macri para presidência da República Argentina em 2015 marcou o inicio da vazante dessa “maré rosa”. Nos anos que se seguiram vieram o impeachment de Dilma Rousseff, em 2016, o retorno de Sebastian Piñera ao Palácio de la Moneda em 2017 e finalmente Jair Bolsonaro eleito em 2018. Mauricio Macri representava o abre-alas de um movimento político que predica melhor gestão do orçamento público por meio de reforma tributária e controle sobre os gastos públicos, controle sobre as nefastas práticas de corrupção e diminuição do tamanho do estado. No entanto em 26 de Outubro passado o então presidente argentino foi o mais recente a cair por adotar políticas neoliberais, naufragando em sua tentativa de reeleição.

Sem entrar no mérito sobre o real valor das politicas econômicas neoliberais, mas tendo em vista as análises dos especialistas sobre s motivos da derrota de Macri nas últimas eleições, assim como o histórico dos últimos 30 anos na região, aceita-se a hipótese de que políticas econômicas neoliberais proporcionam desgaste eleitoral – talvez pura e simplesmente por não resultar em melhorias econômicas concretas dentro do prazo de ciclos eleitorais. Finalmente, vale relembrar que nas últimas quatro décadas Argentina e Brasil passaram por ondas de renovações políticas juntos: da redemocratização dos anos 80, à implementação de reformas neoliberais nos 90 seguida pela ascensão de governos progressistas nos 2000 e retorno de movimento conservador-reformista a partir de 2015. Não há motivos para se supor que essa sintonia política entre as duas nações tenha se interrompido.

Supondo como válida a hipótese sobre o desgaste eleitoral que políticas neoliberais representam aos governantes, este artigo apresenta outras particularidades deste recente caso argentino para contribuir com uma melhor compreensão sobre a atual conjuntura brasileira e avaliação das previsões para o atual governo.

O caso de Macri é paradigmático por três motivos: pelo histórico e consistência de seu projeto político, por seus laços familiares e pelo respaldo internacional que recebeu. Para tanto segue um breve perfil de Mauricio Macri, de sua ascensão como político até sua queda em 26 de Outubro. O motivo para o entendimento da figura política de Mauricio Macri e sua trajetória até a presidência projeta luz sobre a extrema fragilidade do atual governo e, sobretudo, do improviso, oportunismo e demagogia da “nova direita nacional” que tomou o Brasil de assalto. A experiência de Mauricio Macri na Argentina demonstra a enorme dificuldade que uma transição ideológica de poder representa junto a população votante. Outra diferença que salta aos olhos é a politica exterior errática do nosso atual governo federal baseado em superficiais laços pessoais e um discurso pouco pragmático e que beira o conspiratório. A ascensão e queda de Macri se apresentam como uma real medida para comparação, revelando as muitas falhas do atual governo brasileiro assim como o grau de improvisação de  seu “movimento” político brasileiro, e dificuldades para implementação de uma agenda econômica neoliberal.

Uma construção política gradual e orgânica.

Diferente do caso brasileiro, em que um movimento de políticos de centro-direita se deu quase que espontaneamente ou oportunisticamente, o caso argentino da fundação do partido PRO de Mauricio Macri representa um projeto que se iniciou há quase 20 anos. Sua estratégia foi  bem estruturada e executada até o último dia 27 de Outubro quando amargou sua maior e mais surpreendente derrota. Desde 2001 Macri se rodeou de um grande grupo formado por empresários de renome e estudiosos em politicas públicas.

Foi no alvorecer do século 21, no momento da mais grave crise político-econômica e social que a Argentina já viveu que Mauricio Macri iniciou sua construção política. Em 2001 Mauricio Macri, junto de seu então sócio, o empresário Francisco De Narvaez, criou a fundação Creer y Crecer [Acreditar e Crescer] para a elaboração de estudos e propostas de políticas públicas para a cidade de Buenos Aires e para o país. Enquanto De Narvaez ficou responsável pela coordenação do âmbito nacional, Maurício Macri dirigiu os estudos relacionados à cidade de Buenos Aires. Foram convidados empresários e especialistas em políticas públicas para administrar a fundação e coordenar os estudos e propostas que eram levadas adiante por acadêmicos de renome. Enquanto o núcleo central de coordenadores e administradores da Fundação Creer y Crecer era formado por 40 pessoas, a rede estendida de acadêmicos e especialistas chegou a mais de 250 pessoas já em 2002.[6] Boa parte desses colaboradores que estão  juntos dele desde o principio ainda permanecem no seu projeto político até os dias de hoje.  Muitos se elegeram a cargos públicos pelo partido fundado por Macri ou partidos aliados, outros tantos assumiram cargos executivos como secretários e ministros pela cidade e província de Buenos Aires e governo nacional – como por exemplo o atual prefeito de Buenos Aires Horacio Rodriguez Larreta, do chefe de ministro Marcos Peña e da ministra da saúde Carolina Stanley que ocuparam cargos executivos tanto na prefeitura de Buenos Aires como no governo nacional.

Com sua equipe de especialistas formada, Macri criou um novo partido político “Compromisso para el Cambio” [Compromisso para a mudança], que depois viria a se chamar Proposta Republicana, ou PRO. O partido recrutou seus quadros da fundação Creer y Crecer e do meio empresarial, de ONGs, think tanks e políticos dissidentes de outros partidos. Ainda que sem se afincar a uma orientação ideológica explicita, as diretrizes do partido foram baseadas em valores políticos liberal-conservador e em economia de mercado ou neoliberal. Evitando o confronto entre a direita e esquerda e o peronismo e o anti-peronismo, Mauricio Macri se apresentou como uma nova alternativa frente à “velha política” o que possibilitou a adesão de eleitores peronistas e anti-peronistas à sua proposta.  Coerente com suas responsabilidades na Fundação, Macri iniciou sua caminhada política buscando a prefeitura da cidade de Buenos Aires. Macri  aproveitou também de sua popularidade por haver sido entre 1995 e 2007 destacado presidente do clube de futebol Boca Juniors com inúmeras conquistas dentro de campo.

A estreia eleitoral de Macri em 2003 foi considerada um sucesso. Disputando a prefeitura de Buenos Aires, Macri terminou o primeiro turno em primeiro lugar. Mas, foi derrotado por Aníbal Ibarra no segundo turno. Sua robusta proposta política deu resultados no legislativo. Com 25 candidatos eleitos, a chapa política encabeçada por Macri se consolidou como a principal força na câmara legislativa de Buenos Aires e oposição ao governo de Ibarra. Em 2005, Macri viria se eleger deputado federal pela província de Buenos Aires. Seu partido PRO elegeu outros oito deputados federais, mas nenhum senador. Em 2007 Macri foi eleito para prefeitura de Buenos Aires com 45% dos votos válidos no primeiro turno e 61% no segundo turno. Foi reeleito ao cargo em 2011 também no segundo turno com 64% do votos válidos.

Com discurso moderado de centro-direita e com planos de governos objetivos, Mauricio Macri chegou a presidência da República em 2015 ao conquistar 51% do votos válidos no segundo turno contra Daniel Scioli (candidato do Governo e então governador da província de Buenos Aires). Também nas eleições de 2015 seu partido abocanhou o Governo de Buenos Aires e a prefeitura da Cidade de Buenos Aires – feito inédito para um partido politico Argentino. No legislativo, o PRO ocupou 47 das 257 cadeiras da câmara de deputados e 9 das 27 vagas no senado. A vitória de Macri nas eleições de 2015 humilhava o Kirchnerismo.

Famiglia Macri. Laços empresariais na Argentina e no Mundo

Macri faz parte de uma família com laços profundos com a elite empresarial argentina e internacional. O seu pai, Franco Macri (1930-2019) foi um autêntico representante da elite empresarial mundial. Ao longo de sua vida Franco investiu por toda a América Latina, desenvolveu sólidas relações empresariais com o estamento burocrático-empresarial Chinês, esteve envolvido em negócios imobiliários milionários com Donald Trump e cultivou laços profundos com a aristocracia europeia. Apesar  dos escândalos de casos de corrupção e denúncias de lavagem de dinheiro, o império de Franco proporcionou a Macri o privilegiado acesso ao restrito círculo empresarial e de poder local e mundial.

Franco Macri (1930-2019), nascido em Roma filho de um aristocrata da Calábria e de uma Romana herdeira de empresas de transporte público na região de Lácio, chegou em Buenos Aires aos 18 anos de idade. Logo se casou com a filha de um latifundiário da cidade de Tandil, região sul da província de Buenos Aires conhecida por suas terras férteis. Com o passar das décadas Franco constituiu um enorme conglomerado econômico conhecido por Socma (Sociedade Macri). Suas principais atividades empresariais foram na construção civil – pontes, gasodutos, edificações, estradas, fábricas, eletrificação – mas também atuou com destaque na agroindústria, mercado imobiliário, gás natural, hotelaria, mineração, coleta de lixo, aluguel de aviões executivos, produção cinematográfica, produção de autopeças, varejos. Seus investimentos não se limitaram apenas à Argentina, alcançando países limítrofes como Brasil, Paraguai, Uruguai e Chile e chegando também aos Estados Unidos, Bélgica, Itália e até mesmo a China. Na década de 90 Franco Macri começou a desenvolver relações empresariais com o governo chinês a partir do CITIC Group (China International Trust and Investment Corporation). Em 2005 fundou a empresa SHIMA para investimento em campos de soja e processamento de óleo de soja em parceria com a chinesa Sanhe Hopefull Grain and Oil. Desde 2006 Franco Macri atua como “conselheiro sênior para investimentos na América Latina” para a República Popular da China, oferecendo seus conselhos aos executivos do Banco Nacional de Desenvolvimento da China e o Banco Central Chinês.[7] Mariano Macri, um de seus filhos e irmão de Mauricio, foi o presidente da Câmara de Comércio Argentina-China.

Os primeiros passos de Mauricio Macri na política já demonstravam o valor de seus vastos e profundos vínculos com a elite global. Em 2002 quando a Argentina passava por sua pior crise econômica, graças aos seus contatos Macri se mostrou útil ao governo argentino.  No papel de negociador extraoficial Macri se encontrou com líderes do primeiro ministro espanhol José María Aznar e executivos de grandes multinacionais espanholas como Repsol, Telefônica, Banco Bilbao Vizcaya, Endesa e outras. Em seu retorno à Buenos Aires, Macri levou as posições do governo e executivos espanhóis ao então presidente Eduardo Duhalde. Foi como intermediador entre investidores estrangeiros e o governo argentino que Macri dava seus primeiro passos na política e construía assim suas primeiras alianças.[8]

Não é de se surpreender que como presidente da república Macri tenha conseguido receber tantos privilégios da comunidade internacional: massivo apoio da banca financeira internacional em sua emissão de títulos públicos, aprofundamento de acordos com o governo chinês, declarações de apoio da Monarquia espanhola, o direito e privilegio de organizar o encontro do G20 em Buenos Aires em Novembro do ano passado. Finalmente, Macri pode concluir o acordo Mercosul-União Europeia anunciado em Julho de 2019 e receber a formalização do apoio dos Estados Unidos para a entrada da Argentina na OECD – dois elementos favoráveis para sua tentativa de reeleição.[9] São eventos excepcionais como esses que dão a medida exata para o tremendo fracasso econômico-eleitoral.

As intuições financeiras internacionais foram as primeiras a darem apoio ao governo Macri. Em Abril de 2016, depois de quase 15 anos fora dos mercados de capital, a Argentina emitiu 16,5 bilhões de dólares de títulos de dívida pública –a maior emissão já feita por um país emergente. [10] O total ofertado por investidores chegou próximo a 70 bilhões de dólares, indicando voto confiança na política econômica do governo Macri. Dos 16,5 bilhões de dólares emitidos o governo utilizou 9,3 bilhões para pagar os credores de títulos em default desde 2004. A volta aos mercados, apesar de criticada por muitos, colocou fim aos anos de moratória e conflito com os holdouts – fundos abutres detentores de títulos não reestruturados.[11] Em Junho de 2018 Macri anunciou que a Argentina receberia do Fundo Monetário Internacional um empréstimo de 57 bilhões de dólares – o maio empréstimo já outorgado pelo organismo multilateral.[12] Independentemente das críticas que estes empréstimos possam e devam receber, o fato aqui ressaltado é a capacidade de Macri em se articular para receber apoio no âmbito internacional.

Outro elemento de destaque foi o papel de Macri no acordo Mercosul-União Europeia. Diferentemente do alardeado pelo governo brasileiro e noticiado pela imprensa no Brasil, o acordo entre os blocos regionais foi resultado do empenho de Macri para a retomada das negociações ainda em 2015 e concluídas em 2019. Sem entrar no mérito sobre vantagens ou desvantagens do acordo para o Mercosul, é inegável que a conclusão das negociações foi graças a sintonia e esforço entre o governo argentino, governos da Espanha e França e comissários da Comissão Europeia. Pelo lado do Mercosul, as negociações foram lideradas pelo Chanceler Argentino Jorge Faurie e sua equipe formada pelo Ministro de Produção e Trabalho Dante Sica, Secretaria de Comercio Exterior Marisa Bircher e Secretario de Relações Econômicas Horácio Reyser. Nos bastidores da diplomacia é sabido que no primeiro encontro entre os presidentes, em 16 de Janeiro foi Macri quem convenceu Bolsonaro sobre a importância do Mercosul e principalmente do acordo e vantagens da negociação em curso junto à União Europeia. Ter a adesão brasileira nesta negociação realizada por Macri foi o único motivo para sua aproximação de Bolsonaro. O anúncio oficial do acordo foi feito pela trinca formado pela Comissária de Comercio Exterior da União Europeia Cecilia Malmström, seu colega Comissário de Agricultura Phil Hogan e o Chanceler Argentino Faurie.[13] Em vídeo publicado pela AFP news agency, de uma filmagem de celular feito ao término da reunião que selou o acordo, mostra claramente o Chanceler Faurie como principal figura sendo cumprimentado e celebrado pelos negociadores Europeus.[14] O fato é que o acordo Mercosul-União Europeia foi mais um avanço costurado por Macri junto de seus aliados internacionais, culminando na antevéspera do inicio de sua  campanha para reeleição.

Conclusões

No Brasil a maioria de novos atores políticos associados à flamante “nova direita nacional” cresceu alimentando-se das crises político-econômica que assolam o país desde 2016 e do sentimento difuso associado às agendas de anticorrupção e antipetismo. Com exceção feita ao projeto do Partido Novo, os atuais atores políticos da suposta direita liberal conservadora estão umbilicalmente ligados às narrativas especificas sobre os eventos históricos recentes –o Petrolão, a operação Lava-Jato, o impeachment, entre outros. Grande parte desses atores políticos emergentes – como as figuras associadas ao MBL e os rebocados pelo fenômeno Bolsonaro – vêm demonstrando dia-após-dia constrangedoras demonstrações de oportunismo, demagogia, inexperiência política enquanto sobrevivem como verdadeiros parasitas de crises. Outra anomalia da atual política partidária brasileira é a tentativa de tomada de partidos já estabelecidos por lideranças inexperientes – como no caso do PSL e do PSDB – e o feito inédito do abandono do partido e a criação de um novo por um presidente da república no curso de seu mandato. Paulo Guedes também figura como típico aventureiro político que anteviu a possibilidade do sucesso eleitoral de Bolsonaro, mas que não dispõe de notoriedade entre a comunidade internacional nem tampouco de reconhecimento por parte da comunidade acadêmica nacional ou internacional.

Diferentemente dos atuais quadros políticos da direita brasileira, Mauricio Macri realizou uma sólida ascensão ao topo da política argentina baseada em uma estratégia bem desenhada e executada gradualmente com sólidos laços empresariais e institucionais no país e no mundo. O partido PRO possui uma base política institucionalmente sólida e com crescimento orgânico e continuado. Sua rede de colaboradores remonta à crise de 2001 e ofereceu a Macri aliados capacitados e fiéis de diversas matizes da sociedade pensante argentina: membros da academia, do meio empresarial e político. Seu governo contou também com propostas e políticas públicas elaboradas há mais de uma década com visão de médio e longo prazo. Macri chegou a presidência com a experiência de um mandato como legislador nacional e dois mandatos consecutivos no executivo da mais populosa e rica cidade do país. Outro diferencial foram seus estreitos laços empresariais e de amizade com a elite mundial proporcionados por seu pai ao longo de sua vida, mas nem mesmo os aspectos apresentados foram suficientes para garantir a continuidade do seu governo.

Outro fator a considerar é que na Argentina a direita é muito associada e estigmatizada com os governos autoritários entre 1976 e 1983. Além disso somente 20% do eleitorado argentino se classifica como sendo de direita. Por esses motivos Macri sempre se esquivou do rótulo de direita ou centro-direita, reconhecendo apenas sua orientação pro-mercado e liberal. Essa é uma diferença gritante com o governo Bolsonaro que se orgulha de seu antagonismo com todo e qualquer valor progressista.

A única similaridade real entre os governos de Macri e Bolsonaro encontra-se justamente nas políticas econômicas neoliberais, apesar de suas diferenças de método. Enquanto Paulo Guedes opta pela abrasadora terapia de choque – praticada no Chile em 1975, na Bolívia em 1985, e nas antigas repúblicas soviéticas nos anos 90 – a equipe de Mauricio Macri propôs uma estratégia gradualista de diminuição dos gastos públicos e da inflação. Outra diferença que começa a vir a tona é o fato de que desde o principio de seu governo Macri contou com o apoio incondicional da banca internacional, do governo americano – com Obama e Trump –  e do Fundo Monetário Internacional. Neste sentido o atual governo brasileiro alardeou um suposto apoio de lideranças internacionais que vem se mostrando por vezes apenas superficial – no caso do governo Trump exemplificado com o “apoio” a entrada do Brasil na OECD – ou puramente irrelevante – como o apoio inicial do governo israelense de Benjamin Netanyahu que acabou recentemente derrotado na urnas. O mesmo se pode dizer de anúncios sobre os avanços no âmbito internacional e na atração de investimentos estrangeiros que se revelam apenas como narrativas artificiosas – como o acordo Mercosul-União Europeia e o malfadado leilão do pré-sal. O resultado da política de choque do atual governo brasileiro dá seus primeiros sinais de fracasso junto aos investidores estrangeiros. As mais recentes previsões apontam que 2019 vai marcar o recorde histórico de saída de capitais.[15]

Vale dizer também que o caso Macri marcou a segunda derrota de governos tidos por conservadores e neoliberais na América Latina em pouco mais de um ano. Em julho de 2018 Manuel López Obrador derrotou Enrique Peña Nieto no México e se converteu no primeiro presidente de esquerda eleito no país. Vale destacar que o México havia sido um dos poucos países Latino Americanos a ficar de fora do avanço de governos progressista na região. Seriam sinais que vem ai uma ressaca da “maré rosa”?

Por apresentar um projeto diametralmente oposto ao atual movimento político brasileiro, a derrota de Mauricio Macri escancara o desamparo do nosso atual governo. Mesmo um governo com alto nível de organização partidária, com uma equipe composta por fiéis especialistas e com amplo e sólido apoio internacional naufragou nas urnas pelos maus resultados de sua politica econômica neoliberal. Se tomarmos a experiência recente vivida na Argentina, há fortes indícios factuais que apontam para fracasso econômico, político e eleitoral do atual governo brasileiro. No nosso caso há ainda de se observar para que a improvisação e fragilidade política não sejam utilizadas como justificativas para uma eventual ruptura institucional a fim de completar a implementação da agenda “modernizante” das reformas neoliberais.

Bibliografia

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Notas


[1] Artigos da imprensa local

Macri desperdició ” la oportunidad del siglo”, Walter Graziano, 15 de Novembro 2019, Buenos Aires : Ámbito Financiero. https://www.ambito.com/macri-desperdicio-la-oportunidad-del-siglo-n5065845

Los diarios del mundo se hacen eco de la pobreza en Argentina y hablan del fracaso de Macri, 1 de Outubro 2019, Buenos Aires: El Cronista https://www.cronista.com/internacionales/Los-diarios-del-mundo-se-hacen-eco-de-la-pobreza-en-Argentina-y-hablan-del–fracaso-de-Macri-20191001-0004.html

“La percepción ahora es que Macri es un idiota”, 15 de Outubro 2019, Buenos Aires: Página12 https://www.pagina12.com.ar/225410-es-el-modelo-estupido

 “Cinco primeras lecciones de las primarias argentinas”, Maristella Svampa, Agosto 2019.   Opinion, Buenos Aires: Revista Nueva Sociedad. https://nuso.org/articulo/argentina-elecciones-lecciones-clivajes-peronismo-macrismo/

Artigos da impresa internacional

The anti-neoliberal wave rocking Latin America, Ishaan Tharoor , 29 de Outubro 2019, Washington Post.

https://www.washingtonpost.com/world/2019/10/29/anti-neoliberal-wave-rocking-latin-america/

La resurrección de Cristina Fernández de Kirchner, Ricardo Kirschbaum, 22 de Outubro 2019, Foreign Affairs.

Argentina’s economic woes spell doom for Macri’s election prospects, Michael Stott e Benedict Mander, 13 de Outubro 2019, Mendoza: Financial Times

https://www.ft.com/content/59e751c0-e8f6-11e9-a240-3b065ef5fc55

Poverty, priests and politics: why Peronism is back in Argentina,

Benedict Mander, 10 de Outubro 2019. Buenos Aires: Financial Times Magazine Life & Artshttps://www.ft.com/content/bb85da28-ea27-11e9-85f4-d00e5018f061

Stiglitz on Argentina: “Neoliberal experiment has failed”, 21 de Setembro 2019, https://www.telesurenglish.net/news/stiglitz-about-argentina-neoliberal-experiment-has-failed-spectacularly-20190921-0013.html

Argentina’s Economic Misery Could Bring Populism Back to the Country, Peter S. Goodman, 10 de Maio 2019, New York Times. https://www.nytimes.com/2019/05/10/business/argentina-economy-macri-populism.html

[2] “El fracaso económico de Macri es sorprendente”, Federico Sturzenegger, 31 de Outubro, Buenos Aires: Infobae.

https://www.infobae.com/opinion/2019/10/31/si-macri-fallo-en-la-economia-pero-no-fue-todo-por-nada/

[3] Eleições na Argentina: que economia Macri herdou e como está agora, Cristina J. Orgaz, 27 de Outubro 2019, BBC News Mundo. https://www.bbc.com/portuguese/internacional-50189189

[4] “Política econômica de Macri fracassou desde o primeiro dia”, diz ex-ministro da Economia argentino, Enric González entrevista Roberto Lavagna, 1 de Agosto 2019, Buenos Aires: El País. https://brasil.elpais.com/brasil/2019/07/31/internacional/1564592579_093807.html

En septiembre se disparó la fuga de capitales y en la era Macri salieron del país US$84.100 millones, 22 de Outubro 2019, Buenos Aires: Minutouno.com

https://www.minutouno.com/notas/5061276-en-septiembre-se-disparo-la-fuga-capitales-y-la-era-macri-salieron-del-pais-us84100-millones

[5] El discurso de Macri: el Presidente buscó alejar fantasmas propios y agitar los ajenos, Eduardo Paladini, 3 de Setembro 2018. Buenos Aires: Clarin.

https://www.clarin.com/politica/discurso-macri-presidente-busco-alejar-fantasmas-propios-agitar-ajenso_0_rJcVVn5DQ.html

[6] La Fundación Paganini, José Natanson, 22 de Setembro 2002, Buenos Aires: Página12

https://www.pagina12.com.ar/diario/elpais/1-10498-2002-09-22.html

[7] El gobierno chino nombró a Franco Macri consejero para inversiones, 26 de Maio 2006, Buenos Aires: Infobae

https://www.infobae.com/2006/05/26/257013-el-gobierno-chino-nombro-franco-macri-consejero-inversiones/

[8]  Macri, con Duhalde, 14 de Junho 2002, Buenos Aires: Clarín

https://www.clarin.com/politica/macri-duhalde_0_rylbZaVg0Kg.html

[9] “U.S. backs Brazil for OECD membership, but Argentina first”, Marcela Ayres, 10 de Outubro 2019, Brasilia: Reuters

https://www.reuters.com/article/us-brazil-oecd-usa/u-s-backs-brazil-for-oecd-membership-but-argentina-first-idUSKBN1WP2MD

[10] Argentina returns to global debt markets after 15-years, Hugh Bronstein, Sarah Marsh, 19 de Abril 2016. Buenos Aires: Reuters. https://www.reuters.com/article/us-argentina-bonds-bids/argentina-returns-to-global-debt-markets-after-15-years-idUSKCN0XG2W0

[11] Argentina says #CiaoDefault, paying holdouts after 14 years, Brad Haynes e Hugh Bronstein, 22 de Abril 2016. Buenos Aires: Reuters.

https://www.reuters.com/article/us-argentina-debt/argentina-says-ciaodefault-paying-holdouts-after-14-years-idUSKCN0XJ1OO

[12] Argentina gets biggest loan in IMF’s history at $57bn, Uki Goñi, 27 de Setembro 2018, Londres: The Guardian. https://www.theguardian.com/world/2018/sep/26/argentina-imf-biggest-loan

[13] Belgium: EU and Mercosur herald massive new trade deal, 28 de Junho 2019, Ruptly.

[14] Leaders cheers after EU, S. America bloc reach trade deal, 28 de Junho 2019, AFP News Agency.

[15] Saída de dólares já é maior que volume de 1999, pior ano da série. Marcelo Osakabe e Lucas Hirata, 18 de Novembro 2019, São Paulo: Valor Economico https://valor.globo.com/financas/noticia/2019/11/18/saida-de-dolares-ja-e-maior-que-volume-de-1999-pior-ano-da-serie.ghtml

Jonas Rama
Economista com mais de dez anos de experiência internacional e estudos realizados na França (Université Paris 1 Panthéon-Sorbonne e École Normal Supérieure), Argentina (Universidad de Buenos Aires) e Estados Unidos (PSU).