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Alinhar não é submeter – o estranho caso Brasil/Estados Unidos

President Donald J. Trump welcomes President Jair Bolsonaro of the Federative Republic of Brazil to the White House Tuesday, March 19, 2019 (Official White House Photo by Tia Dufour)

Em diferentes ocasiões podemos ver como lideranças do governo brasileiro afirmam o alinhamento que buscam com os Estados Unidos. Do presidente Bolsonaro e seus filhos ao chanceler Ernesto Araújo, é possível ver declarações de como estamos alinhados e como isso trará benefícios ao país.

Interessante notar que não conseguem expor quais benefícios teremos, reduzindo muito do discurso a uma visão ideológica superficial, na qual dizem que é a forma de evitar a esquerda. Muito deste posicionamento é resultante de uma visão mais limitada sobre o sistema internacional, percebendo os Estados dentro de uma dualidade de amigos ou inimigos.

A ascensão da China como uma potência fez com que reeditássemos a visão da Guerra Fria. Assim, existe um grupo que é o “bem” e outro que é o “mal”. Aqui Estados Unidos são o bem (porque de direita) e a China o mal (porque de esquerda). Ainda que desconsideremos a visão simplória de esquerda e direita que se pretende construir, essa visão bipolarizada do sistema internacional se mostra limitada.

Os fatos estão longe do discurso, mas nem sempre a realidade parece ter relevância neste tipo de discussão. Se pensarmos em termos comerciais, o Brasil depende mais da China do que dos Estados Unidos. Basta olharmos o peso que os chineses têm nas exportações do agronegócio brasileiro[i]. Ainda assim, o discurso é de crítica à China e elogios aos Estados Unidos.

Não se trata de negar os Estados Unidos e sua relevância. Ao contrário, é um país importante para a região e para o país, com o qual devemos buscar um relacionamento de longo prazo, temos muitos interesses comuns. O que não se pode é acreditar que o simples fato de declararmos que estamos alinhados nos trarão o retorno que buscamos.

Tirando a dimensão de uma crença em ideologias próximas dos presidentes de lá e de cá, pouco parece sobrar. Ambos se afirmam de direita, ainda que direita nos Estados Unidos signifique algo muito diferente daquilo que temos no Brasil (sem fazer qualquer julgamento aqui sobre qual é melhor).

Donald Trump não é considerado um Republicano típico nem mesmo dentro de seu partido, gerando uma forte movimentação de outras lideranças republicanas para boicota-lo, mesmo que a custo da eleição de um presidente de outro partido[ii]. E, ainda que forcemos nossa visão e o percebamos como um republicando, é importante notar que governos republicanos são mais protecionistas comercialmente e nacionalistas em termos de políticas. Resultado: o Brasil costuma ser menos relevante para os Estados Unidos durante estes governos.

No final, o que se percebe é um discurso de alinhamento vazio, que está mais focado nas bravatas dos que propriamente nos interesses e ações. Até aí não haveria tanto problema, se isso não limitasse nossa atuação em outros campos. Os constantes desgastes desnecessários com a China, a desvalorização contínua de iniciativas como os BRICS e a baixa conexão com as agendas latino-americanas acabam por mostrar quanto o Brasil está distante dos fatos.

Como diz Rubens Ricúpero, “é uma situação que é difícil de discutir racionalmente, porque não tem nenhuma racionalidade”[iii].


[i] Ver o artigo As exportações do agronegócio e o tamanho da China em https://www.jornaldocomercio.com/_conteudo/opiniao/2020/07/749537-as-exportacoes-do-agronegocio-e-o-tamanho-da-china.html

[ii] Ver o artigo A guerrilha de republicanos que luta contra a reeleição de Trump em https://brasil.elpais.com/internacional/2020-07-19/a-guerrilha-de-republicanos-que-luta-contra-a-reeleicao-de-trump.html

[iii] Bolsonaro substituiu Duterte e virou ‘pior vilão internacional’, diz Rubens Ricupero disponível em https://www.bbc.com/portuguese/brasil-53086999

Rodrigo Cintra
Pós-Doutor em Competitividade Territorial e Indústrias Criativas, pelo Dinâmia – Centro de Estudos da Mudança Socioeconómica, do Instituto Superior de Ciencias do Trabalho e da Empresa (ISCTE, Lisboa, Portugal). Doutor em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (2007). É Diretor Executivo do Mapa Mundi. ORCID https://orcid.org/0000-0003-1484-395X