América Latina e BRICS: para onde o Brasil deve olhar

A política externa brasileira atual tem ocorrido erraticamente. Ainda que se defenda que ela busca novos alinhamentos, a verdade é que não tem uma linha clara, baseada na busca pelos interesses do país. Mas nem tudo é culpa da atual direção que é impressa à política externa, o mundo tem mudado e colocado novos desafios.

Há muito a polaridade estruturante da Guerra Fria acabou. Desde então o mundo vem passando por importantes movimentos de reorganização das forças, forçando os Estados a buscarem posicionamentos políticos que lhes ofereçam mais retornos. Nos últimos 10 anos, em particular, essa busca por reordenamento do sistema internacional ficou ainda mais confusa.

Hoje o dito sistema multilateral está mostrando limites cada vez maiores, ao mesmo tempo em que vemos algumas potências imprimindo um perfil mais unilateralista em suas políticas. Esse é notadamente o caso dos Estados Unidos e, em menor medida, da China. Mas ambos são potências em todos os sentidos do termo (política, econômica, cultural e militarmente).

O Brasil, por sua vez, tem adotado um discurso de cunho mais unilateralista. É preciso notar, entretanto, que não temos os vetores de poder necessários para nos afirmarmos como uma potência internacional. Bem ao contrário, alguns dos vetores que tínhamos estão se enfraquecendo (notadamente o econômico e o político).

Fica cada vez mais claro que não podemos continuar a nos comportar como se tivéssemos poder suficiente para influenciar o mundo como um todo, temos limites que devem ser reconhecidos e utilizados para nortear nossa política externa.

Numa perspectiva de capacidade de influência econômica, nossas limitações se dão em função dos poucos recursos que temos. Assim, seu uso internacionalmente deve se concentrar em lugares nos quais seus efeitos sejam potencializados. Sobremaneira desde o governo Lula a África ganhou espaço, mas hoje enfrenta uma forte concorrência com a China, que está colocando uma quantidade de recursos econômicos muito grande no continente, transformando nossa presença em algo com pouca significância.

Outra região que pode ter uma resposta maior aos poucos recursos econômicos que poderemos projetar internacionalmente é a América Latina. Para isso, precisamos (re)priorizar a região, buscando oferecer ajuda e investimentos aos países da região. O problema aqui está na superação de visões ideologizadas que tanto têm marcado o governo atual.

Em termos políticos a atuação brasileira tem se mostrado muito limitada atualmente, tanto em função de limitações internas quanto da também baixa quantidade de vetores de poder que podemos projetar. O uso dos meios multilaterais se mostra como o mais indicado para países que não são potências internacionais. No entanto, atualmente estes também se mostram bastante limitados, como se pode perceber com toda a crise pela qual passa o Sistema das Nações Unidas.

No entanto, alguns fóruns ainda se mostram com potencial, como é o caso do BRICS. O bloco anda esquecido do grande público e parece ter um prestígio baixo nas orientações da política externa brasileira. Ainda assim, seu potencial é grande e deveria ser escolhido como a principal estratégia de política multilateral do governo.

Ainda que haja muita diferença entre os parceiros do grupo (em termos de impacto no sistema internacional), há algo em comum que deve ser observado: a busca por modelos de organização sistêmica alternativos. Nele há espaço para ensaios de ações colaborativas que levem a um ambiente mais propício à atuação brasileira.

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Pós-Doutor em Competitividade Territorial e Indústrias Criativas, pelo Dinâmia – Centro de Estudos da Mudança Socioeconómica, do Instituto Superior de Ciencias do Trabalho e da Empresa (ISCTE, Lisboa, Portugal). Doutor em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (2007), Mestre em Ciência Política pela Universidade de São Paulo (2001) e Bacharel em Relações Internacionais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (1998).