Brasil entra no jogo eleitoral dos EUA

Foto: Jason Leysner/AFP

Em 18/9/2020 o Secretário de Estado dos Estados Unidos, Mike Pompeo, fez uma rápida visita ao Brasil. Dada a importância do cargo era de se esperar uma agenda importante entre os governos dos Estados Unidos e do Brasil. Mas a realidade foi bem diferente: o governo brasileiro abriu as portas do território para que o Secretário pudesse fazer campanha política para a re-eleição do atual presidente Donald Trump.

A visita se quer ocorreu em Brasília, onde poderíam ser adequadamente implementados todos os protocolos exigidos para um Secretário dos Estados Unidos (equivalente a um ministro, no Brasil). Também não serviu para as trocas de intenções ou mesmo assinaturas de acordos de cooperação. Foi uma visita inusitada à Roraima. Por que?

Para compreender melhor a visita é preciso entender o que está acontecendo nas eleições norte-americanas. A Flórida é um dos estados que têm se mostrado como decisivos nas eleições e está sendo alvo de especial atenção dos candidatos. No momento os candidatos Trump e Biden estão tecnicamente empatados pela busca dos 29 votos equivalentes ao colégio eleitoral do estado.

A comunidade venezuelana no estado é muito grande e influente. Resultado: quem conquistar a agenda desta comunidade pode alcançar também uma boa influência sobre os eleitores de origem latina.

Os venezuelanos da Flórida são contrários ao presidente Nicolás Maduro e defendem uma atuação mais forte do governo norte-americano para sua retirada do poder. É neste contexto que o Secretário Pompeo visita Roraima, reforçando o apoio dos Estados Unidos à democracia e, por consequência, contra movimentações de Maduro para se fortalecer no poder.

Não bastando a visita ser de caráter claramente eleitoral, contou ainda com a presença do chanceler brasileiro Ernesto Araújo. Assim, o que poderia ter sido apenas um movimento eleitoral de outro país, utilizando de uma visita internacional, ficou ainda maior, ao contar com o endosso da chancelaria brasileira.

Seria algo estranho em si, mas ao olharmos a atual política externa brasileira em relação aos Estados Unidos fica clara a estratégia de apoiar o que vem de lá independente de interesses do próprio Brasil.

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Pós-Doutor em Competitividade Territorial e Indústrias Criativas, pelo Dinâmia – Centro de Estudos da Mudança Socioeconómica, do Instituto Superior de Ciencias do Trabalho e da Empresa (ISCTE, Lisboa, Portugal). Doutor em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (2007), Mestre em Ciência Política pela Universidade de São Paulo (2001) e Bacharel em Relações Internacionais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (1998). Atualmente é o Head of International Office da ESPM.