ISSN 2674-8053

NAVROZ, o Ano Novo parsi

No √ļltimo dia 16 de agosto a comunidade parsi da √ćndia celebrou o Navroz, o seu Ano Novo, o dia em que ela se compromete com a renova√ß√£o da esperan√ßa. As resid√™ncias s√£o arrumadas com esmero, os indiv√≠duos vestem roupas novas, trocam presentes e fazem doa√ß√Ķes para institui√ß√Ķes de caridade. Nada muito diferente do Natal crist√£o. Tradi√ß√£o de 3000 anos, o feriado de Ano Novo parsi foi criado pelo profeta Zoroastro, de acordo com a lenda.

Mas, quem s√£o os zoroastristas e os parsis?

O Zoroastrismo √© considerado a mais antiga dentre as religi√Ķes monote√≠stas conhecidas, embora haja controv√©rsias a este respeito. Teve in√≠cio com as revela√ß√Ķes de Zaratustra, a quem os gregos chamavam de Zoroastro. N√£o h√° muitas informa√ß√Ķes sobre a sua vida; acredita-se que teria nascido em Sogdiana, no reino de Bactriana ou Karezmia, regi√£o que abrange hoje o leste do Ir√£, o Afeganist√£o e Turcomenist√£o.

N√£o est√° igualmente claro em que √©poca ele ter√° vivido. A maioria das evid√™ncias lingu√≠sticas e arqueol√≥gicas aponta para o per√≠odo entre 1500 e 1200 AEC. Alguns estudiosos acreditam, por√©m, que ele foi contempor√Ęneo de Ciro, o Grande, que viveu no s√©culo VI AEC e fundou o imp√©rio aquem√™nida da P√©rsia.

A hist√≥ria conhecida de Zoroastro √© plena de lendas que demonstrariam a sua natureza ‚Äúespecial‚ÄĚ. Segundo elas, ao nascer, a crian√ßa n√£o chorou; pelo contr√°rio, riu sonoramente. No vilarejo havia um sacerdote que percebeu que aquele menino viria a ser um revolucionador do pensamento humano e enfraqueceria o poder dos “patronos” das religi√Ķes. Procurou, ent√£o, seu pai e disse-lhe que este fato era um mau press√°gio para a comunidade. Acrescentou que a crian√ßa teria um dem√īnio dentro de si. Diante da incredulidade de seu pai, o sacerdote imp√īs, ent√£o, uma prova: acendeu uma grande fogueira, e na frente de todos, nela atirou o menino. Como ele n√£o sofreu dano algum, o sacerdote ficou confuso.

Zoroastro foi levado, então, para um vale estreito e colocado na passagem de uma manada. O primeiro boi notou o menino e ficou parado sobre ele, protegendo-o; o bebê não sofreu um só arranhão. O sacerdote arquitetou outro plano: Zoroastro foi levado para a toca de uma loba que, ao invés de devorá-lo, cuidou dele até que sua mãe viesse buscá-lo. Diante de tantos prodígios o sacerdote, envergonhado, mudou-se do vilarejo.

Na juventude, Zoroastro indagava-se sobre quem seria o autor do universo e da humanidade. Um dia, enquanto meditava √†s margens de um rio, um ser de imensa beleza e envolto em intensa luz apareceu e lhe disse que Ahura Mazda, o Criador, o havia escolhido para anunciar a mensagem redentora para a humanidade. Ele ent√£o perguntou: ‚Äú- por que eu? ‚Äú. A resposta foi que Zoroastro possu√≠a todas as qualidades necess√°rias: bons pensamentos, palavras e a√ß√Ķes. Retornando √† casa, ele contou o que lhe acontecera. Sua fam√≠lia acreditou no seu relato, mas os sacerdotes, temerosos de perder seus privil√©gios, decidiram dar cabo da sua vida. Ele ent√£o fugiu com vinte e dois companheiros; vagaram durante v√°rias semanas, at√© chegarem √† Bactria, atual Afeganist√£o, onde viveu at√© os 77 anos, quando foi assassinado por um sacerdote enquanto rezava diante do fogo sagrado.

O zoroastrismo tem seus fundamentos fixados no Avest√° que, assim como a B√≠blia, √© uma cole√ß√£o de livros sagrados que foram escritos durante um longo per√≠odo e em diferentes idiomas. Reconhece a exist√™ncia de duas divindades, que representam respectivamente, o Bem – Ahura Mazda – e o Mal – Arim√£. Do embate entre elas, vence a divindade que representa o Bem. Os zoroastristas cr√™em tamb√©m no Paraiso, na Ressurrei√ß√£o, e no Ju√≠zo Final. Esta cren√ßa veio a influenciar as outras religi√Ķes monote√≠stas que surgiram posteriormente, segundo os estudiosos. O s√≠mbolo que representa o Bem √© o Fogo, que os fi√©is consideram o elemento supremo da pureza. A chama – a luz de Deus (Ahura Mazda) -, que significa a mente iluminada, nunca deve ser extinta. O fogo sagrado √© mantido no chamado Templo do Fogo / ‚ÄúFire Temple‚ÄĚ. Nenhum ritual ou cerim√īnia √© realizado sem a presen√ßa desta chama. Em 2019, havia 167 Templos do Fogo no mundo, dos quais 45 em Mumbai, 105 no resto da √ćndia, e 17 em outros pa√≠ses.

O zoroastrismo foi a religi√£o mais importante do planeta por mais de mil anos, e a ‚Äúoficial‚ÄĚ do imp√©rio persa, desde cerca de 630 AEC at√© o s√©culo VII, quando os √°rabes invadiram a regi√£o e converteram a popula√ß√£o ao isl√£.

E o que é ele hoje? Quem são os parsis?

Quando os ex√©rcitos isl√Ęmicos invadiram a P√©rsia, entre 636 e 651 CE, muitos zoroastriastas emigraram para a regi√£o do Gujarat, na √ćndia, entre outros destinos, para preservar sua identidade religiosa e escapar √† persegui√ß√£o e √† convers√£o for√ßada ao isl√£. Atualmente h√° cerca de 2,6 milh√Ķes de zoroastriastas em todo o mundo. Os Parsis – “parsi’ √© o termo que significa “persa” em gujarati ‚Äď s√£o aqueles que se fixaram na √ćndia. A data exata da imigra√ß√£o √© desconhecida. De acordo com a tradi√ß√£o, eles inicialmente se estabeleceram em Hormuz, no Golfo P√©rsico, mas encontrando-se ali perseguidos, partiram para a √ćndia. Os primeiros ali chegaram ainda no s√©culo VIII e se estabeleceram primeiramente em Diu, que se tornaria um entreposto portugu√™s na √ćndia, no s√©culo XVI, mas logo se mudaram para Gujarat, ao sul, onde permaneceram por cerca de 800 anos como uma pequena comunidade agr√≠cola.

Entretanto, ap√≥s o acordo de com√©rcio firmado no in√≠cio do s√©culo XVII entre o imperador Mogul Jehangir e o Rei James I, da Inglaterra, a Companhia das √ćndias Orientais obteve os direitos exclusivos de residir e construir f√°bricas na regi√£o de Surat, e em outras √°reas do imp√©rio mogul. Muitos parsis, que at√© ent√£o viviam em comunidades agr√≠colas aceitaram as oportunidades de emprego que lhes foram oferecidas e se mudaram para os assentamentos administrados pelos ingleses. Em 1668, a Companhia das √ćndias Orientais construiu um porto de √°guas profundas nas costas de Mumbai e para ali transferiu sua sede de Surat.

Os Parsis a acompanharam e logo passaram a ocupar postos de confian√ßa em conex√£o com o governo e as entidades de obras p√ļblicas. Foi in√≠cio da aflu√™ncia econ√īmica da comunidade, que a preserva ainda hoje. Nos s√©culos XVIII e XIX, os parsis emergiram como “as pessoas mais relevantes na √ćndia em assuntos educacionais, industriais e sociais‚ÄĚ. A comunidade assumiu a vanguarda do progresso, acumulando vastas fortunas. Eles se tornaram igualmente grandes benem√©ritos assistencialistas e patronos de v√°rias institui√ß√Ķes de caridade, assim como de pesquisa.

Ao longo dos s√©culos desde que os primeiros zoroastristas chegaram √† √ćndia, os parsis se integraram √† sociedade indiana, mantendo, entretanto, ou desenvolvendo simultaneamente, seus pr√≥prios costumes e tradi√ß√Ķes distintas e, portanto, sua identidade √©tnica. Isto, por sua vez, deu √† comunidade uma posi√ß√£o bastante peculiar: eles s√£o √≠ndianos em termos de nacionalidade, l√≠ngua e hist√≥ria, mas n√£o tipicamente indianos em termos de consanguinidade, etnia ou de pr√°ticas culturais, comportamentais e religiosas.

Testes de DNA geneal√≥gicos realizados para determinar a pureza da linhagem apresentaram resultados mistos. Um estudo apoia a alega√ß√£o parsi de que eles mantiveram suas ra√≠zes persas, evitando o casamento com as popula√ß√Ķes locais. Na realidade, na medida em que a tradi√ß√£o impede o casamento fora da religi√£o/etnia, a defini√ß√£o de quem √©, e n√£o √©, Parsi, √© uma quest√£o de grande controv√©rsia dentro da comunidade. √Č geralmente aceito que um Parsi √© a pessoa que: (a) √© diretamente descendente dos refugiados persas originais, e (b) formalmente admitida na religi√£o atrav√©s da cerim√īnia do ‚Äúnavjote‚ÄĚ (coloca√ß√£o do cord√£o sagrado /‚ÄĚsacred thread‚ÄĚ, que dever√° ser portado sob a roupa pelo resto da vida). N√£o √© poss√≠vel a convers√£o.

De acordo com o Censo da √ćndia de 2011, existem 57. 264 parsis no pa√≠s, apenas. Segundo a Comiss√£o Nacional de Minorias, h√° uma “variedade de causas respons√°veis por esse decl√≠nio constante da popula√ß√£o da comunidade”, sendo as mais significativas a aus√™ncia de filhos e a emigra√ß√£o. Uma taxa de natalidade mais lenta do que a de mortalidade √© respons√°vel pelo resto: a partir de 2001, os parsis com mais de 60 anos representam 31% da comunidade. Apenas 4,7% da comunidade tem menos de 6 anos de idade, o que se traduz em 7 nascimentos por ano por 1000 indiv√≠duos. Proje√ß√Ķes demogr√°ficas calculam que at√© o ano de 2021 esta popula√ß√£o ser√° de apenas 23.000 pessoas. O Parsis ent√£o deixar√£o de ser considerados como uma comunidade pela legisla√ß√£o indiana, e ser√£o classificados como “tribo”.

No entanto, esta comunidade em decl√≠nio √© at√© hoje respons√°vel por algumas das maiores fortunas da √ćndia, todas comprometidas com a benemer√™ncia e o amparo √† pesquisa cient√≠fica e √† sociedade. Muitos dos maiores empres√°rios indianos s√£o parsis, Entre os mais reconhecidos internacionalmente est√£o os cl√£s Tata e Godrej.

Em termos pessoais, nesta minoria est√£o alguns dos meus melhores amigos de vida, indianos, ou n√£o. A qualidade intelectual al√©m de car√°ter, destes indiv√≠duos e o compromisso e dedica√ß√£o deles para com os outros foi um dos principais motivos por eu ter-me afei√ßoado tanto √† √ćndia, minha “matrika”. Eles foram roteiro e guias!

NAVROZ MUBARAK!!!

Fausto Godoy
Doutor em Direito Internacional P√ļblico em Paris. Ingressou na carreira diplom√°tica em 1976, serviu nas embaixadas de Bruxelas, Buenos Aires, Nova D√©li, Washington, Pequim, T√≥quio, Islamabade (onde foi Embaixador do Brasil, em 2004). Tamb√©m cumpriu miss√Ķes transit√≥rias no Vietn√£ e Taiwan. Viveu 15 anos na √Āsia, para onde orientou sua carreira por considerar que o continente seria o mais importante do s√©culo 21 ‚Äď previs√£o que, agora, v√™ cada vez mais perto da realidade.