UE x EUA x RPC = Hwawei/BR (?)

Da solução desta (im)possível equação depende o futuro da tecnologia e, por extensão, da geoeconomia neste século. Trocando em miúdos, ela demonstra (c.q.d.) a disputa entre a União Europeia, os Estados Unidos e a República Popular da China pela tecnologia 5G, que definirá o futuro do planeta, segundo os analista

O mega-magnata húngaro-americano George Soros, conhecido por seu apoio às causas políticas progressistas e liberais, para as quais distribui doações por meio de sua fundação – a “Open Society Foundation” – e que teve um papel influente no colapso do comunismo na Europa Oriental, já se manifestou. Referindo-se à reunião de Cúpula entre o presidente chinês, Xi Jinping com vinte e sete chefes de Estado e de governo europeus prevista para setembro deste ano, em Leipzig, alerta: “Neither the European public nor European political and business leaders fully understand the threat presented by Xi Jinping’s China….Europeans need to understand that they will hand him a much-needed political victory unless he is held accountable for his failure to uphold human rights, particularly in Tibet, Xinjiang, and Hong Kong”.

Mais além das questões políticas propriamente ditas, vamos aos fatos: o que está em jogo é a adoção da tecnologia 5G, que a China vem liderando. Este será um dos temas mais importantes – senão o mais – e a ser tratado no encontro. Xi empenha-se em convencer seus pares europeus a adotar a tecnologia “Made in China”. Conforme sabemos, a 5G é muito mais que um novo padrão de telefonia: “sua adoção vai revolucionar a maneira como o mundo produz, ao permitir uma conexão sem precedentes entre máquinas e uma resposta imediata a comandos, viabilizando as aplicações como carros autônomos e a cirurgia à distância”, afirma Claudia Trevisan no artigo “Brasil não pode se atrasar para pegar o “bonde” do 5G”, publicada no Estadão do dia 29/01. Ela afirma, ainda, que “a transformação irá além das fábricas e do setor de serviços e será crucial para a agropecuária”, justamente o setor em que temos as maiores vantagens comparativas na economia mundial.

Ou seja, “o buraco é muito mais embaixo”, pois não se trata apenas de uma disputa de mercados, mas de hegemonia geoeconômica/política, em última instância. Ou seja, estamos no umbral de um novo mundo e na disputa de quem – ou qual país, ou empresa – irá liderá-lo. A questão é, portanto, crucial, tanto que os Estados Unidos e alguns de seus aliados têm tomado iniciativas drásticas para excluir a chinesa Huawei – que lidera a pesquisa e o desenvolvimento desta tecnologia (muito à frente, até agora, dos americanos) – do mercado mundial.

A Huawei não é apenas a maior fornecedora de equipamentos de telecomunicações e o segundo maior fabricante de telefones do planeta; ela é, também, a líder global na construção de redes 5G de ultra-velocidade, muito à frente de qualquer concorrente dos EUA ou europeu. Paralelamente, junto com algumas outras empresas chinesas, ela fornece equipamentos de vigilância para cerca de 230 cidades da Europa Ocidental, Ásia e África subsaariana. Ou seja, um “polvo tecnológico” com tentáculos universais.

Nesta disputa, o governo dos EUA acusa a Huawei de “roubar” propriedade intelectual, cometer fraude e obstruir a Justiça ao escapar das sanções americanas, além de potencialmente usar o hardware e software embutido nos equipamentos que utilizam seus insumos para espionagem. E, como se sabe, ela tem vínculos com o governo chinês. Por este motivo, as autoridades americanas proibiram as agências governamentais do país de comprar equipamentos da Huawei (e também das suas “irmãs” ZTE, Hikvision, Dahua e Hytera).

Até agora os europeus não definiram qual será o padrão que irão adotar. Os italianos tendem a optar pela chinesa, “so far”. A este respeito, Soros afirma que “ espiar não é o maior perigo para a Europa. Tornar a infraestrutura mais crítica da Europa dependente da tecnologia chinesa significa abrir as portas para chantagem e sabotagem…está claro para mim que a China de Xi representa uma ameaça aos valores sobre os quais a UE foi fundada. Aparentemente, isso não está claro para os líderes dos Estados-membros da UE, nem para os líderes da indústria, particularmente da Alemanha.

Em última instância, o dilema constitui em depender dos americanos ou dos chineses… ou desenvolver com urgência pesquisa própria, o que até agora os europeus não conseguiram. Ainda segundo Claudia Trevisan, “as autoridades da UE avaliam que a dianteira na adoção do 4G deu aos EUA a liderança na criação das gigantescas plataformas de internet que estão entre as empresas mais valiosas do mundo, como Google, Amazon e Facebook. Agora não querem ficar para trás no novo padrão”. Só que não há nenhuma garantia de que esse esforço será bem-sucedido.

Isto não será possível, ao que parece, no tempo exíguo que resta diante da velocidade dos chineses. A 5G JÁ É UMA REALIDADE, e vários países estão-se mobilizando para implementá-la. A questão que subjaz é qual seria a escolha…

Isto nos transporta ao Brasil. Estamos discutindo neste momento a adoção do nosso padrão 5G. E quem participará do leilão aquil serão as operadoras de telefonia. A demora na escolha da plataforma custará muito caro ao nosso país em termos de investimentos e competitividade. O Ministro de Ciência e Tecnologia, Marcos Pontes, “vê com apreensão” a ideia de um “decoupling” tecnológico entre Ocidente, liderado pelos Estados Unidos, e o Oriente, liderado pela República Popular da China.

Ideologia ou globalização “a-ideológica”, em última instância? E a que preço? Com toda a certeza não podemos mais tergiversar, sob a pena de, mais uma vez, perdermos o século XXI, a exemplo do que passou. Equação difícil…

Sugiro aos amigos que leiam esta matéria do site “Project Syndicate”:

US President Donald Trump’s campaign against leading Chinese technology companies is driven by legitimate concerns. But are they so different from the worries that democratic societies should have about American social-media and technology companies?

PROJECT-SYNDICATE.ORG

Is Huawei Really More Dangerous than Facebook? | by Ngaire Woods

US President Donald Trump’s campaign against leading Chinese technology companies is driven by legitimate concerns. But are they so different from the worries that democratic societies should have about American social-media and technology companies?

Fausto Godoy
Doutor em Direito Internacional Público em Paris. Ingressou na carreira diplomática em 1976, serviu nas embaixadas de Bruxelas, Buenos Aires, Nova Déli, Washington, Pequim, Tóquio, Islamabade (onde foi Embaixador do Brasil, em 2004). Também cumpriu missões transitórias no Vietnã e Taiwan. Viveu 15 anos na Ásia, para onde orientou sua carreira por considerar que o continente seria o mais importante do século 21 – previsão que, agora, vê cada vez mais perto da realidade.