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A inserção brasileira nos blocos comerciais internacionais

Principais parceiros comerciais para cada estado do Brasil

A integração global dos processos produtivos é uma realidade já confirmada, mas ainda não bem aproveitada pelo Brasil. Para se ter um exemplo atual da relevância da integração dos países em blocos produtivos basta olhar o caso da Inglaterra. Com sua saída (que sequer está completa) da União Europeia o que se vê é o caos produtivo e de oferta de produtos. Faltam trabalhadores, matéria-prima e produtos para serem consumidos no país, que acreditou ter uma economia autossuficiente.

Por mais que não percebamos, cada produto que consumimos depende de ações realizadas nos mais diversos lugares do mundo. A integração desse processo produtivo é chamada de Cadeia Global de Valor, tendo diversas etapas produtivas até o produto final: extração de matéria-prima, processamento, pesquisa e desenvolvimento, distribuição e logística, promoção de vendas…

Por si só já é um processo complexo, mas ele encontra outro elemento fundamental: a participação em blocos comerciais. À exemplo do Mercosul, os blocos econômicos facilitam a circulação de produtos entre os membros, simplificando e barateando o processo produtivo, sem contar no a formação de um mercado consumidor maior. Os países mais industrializados e ricos do mundo já descobriram e se aproveitam desse movimento com acordos já consolidados (NAFTA, União Europeia e Asean como alguns exemplos).

A relativa novidade está na busca por acordos entre os blocos econômicos. Assim, mais do que trazer novos membros para um bloco existente, o movimento agora é fazer acordos estratégicos entre os diferentes blocos ou mesmo a criação de blocos inteiramente novos, mas com envergaduras geográficas inimagináveis há alguns anos.

No entanto, quando olhamos o caso brasileiro, vemos a grande limitação do país em utilizar essa estratégia. Os dados do governo indicam que 13% do comércio internacional do país é feito dentro de acordos comerciais, enquanto a média mundial é de 60%, ou seja, mais de 4 vezes maior.

Devemos reconhecer que o Brasil tem ensaiado há tempos um passo nesse sentido no chamado acordo Mercosul-União Europeia. Em 2019 chegamos perto de algo mais concreto, o que logo foi travado diante de ações brasileiras como o aumento do desmatamento da Amazônia (tema cada vez mais sensível internacionalmente). Desde então não conseguimos avançar de uma forma mais concreta.

Ainda existem alguns outros esforços, mas todos lentos e com poucos frutos concretos, como as tentativas de acordo entre Mercosul e Canadá ou Cingapura ou mesmo aqueles diretos entre Brasil e Chile ou México.

Ao olharmos com mais detalhes os motivos pelo baixo avanço nessas integrações é possível perceber um choque de posicionamentos políticos, de propostas. Daí a necessidade de não olharmos para os potenciais acordos apenas a partir da dimensão econômica. É preciso entender que também existem interesses políticos e estratégicos envolvidos nessa questão.

É nesse contexto que surgem outras alternativas pouco exploradas pelo Brasil e que poderiam ganhar algum destaque. O mais óbvio, neste sentido, é o BRICS. Ainda que existam conflitos internos dada a própria natureza de cada um dos membros, os interesses maiores já estão claros. Outro possível caminho é uma aproximação com a União Econômica Eurasiática (envolvendo os países do norte da Eurásia) ou com a União Africana (envolvendo praticamente toda a África).

Caminhos existem e é preciso que o Brasil os persiga o quanto antes, de forma que não fiquemos à margem dos principais fluxos produtivos internacionais.

Rodrigo Cintra
Pós-Doutor em Competitividade Territorial e Indústrias Criativas, pelo Dinâmia – Centro de Estudos da Mudança Socioeconómica, do Instituto Superior de Ciencias do Trabalho e da Empresa (ISCTE, Lisboa, Portugal). Doutor em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (2007). É Diretor Executivo do Mapa Mundi. ORCID https://orcid.org/0000-0003-1484-395X