Crônica da morte anunciada… ou a tragédia afegã

Presidente do Afeganistão Ashraf Ghani em 2019 (REUTERS NO RESALES. NO ARCHIVE – RC142B0FF7F0)

Ontem, 25/06, o Presidente do Afeganistão, Ashraf Ghani, acompanhado do seu Primeiro-Ministro e Presidente do Alto Conselho para a Reconciliação Nacional – e antagonista político – Abdullah Abdullah, encontraram-se na Casa Branca, com o Presidente Joe Biden para estabelecer um roteiro para o país após a partida das tropas americanas, fixadas para o dia 11 de setembro, data fatídica da tragédia do “World Trade Center”, aliás.

Diante da convulsão político-social que se prenuncia com a partida do contingente americano, a porta-voz da Casa Branca, Jen Psaki, reafirmou o compromisso dos EUA com a governabilidade do país. Em comunicado, ela afirmou que “os Estados Unidos estão comprometidos em apoiar o povo afegão fornecendo assistência diplomática, econômica e humanitária para apoiar o povo afegão, incluindo mulheres, meninas e minorias afegãs… Os Estados Unidos permanecerão profundamente engajados com o governo do Afeganistão para garantir que o país nunca mais se torne um porto seguro para grupos terroristas que representam uma ameaça à pátria dos EUA… Os Estados Unidos continuam a apoiar plenamente o processo de paz em curso e encoraja todas as partes afegãs a participarem significativamente nas negociações para acabar com o conflito”. O Presidente Biden garantiu ao visitante que “”we’re going to stick with you and we’re going to do our best to see to it you have the tools you need”.

Será?…

Vejamos. Conforme assinalei numa postagem anterior, a partida das tropas põe fim ao engajamento de vinte anos dos EUA na luta – frustrada – pela pacificação do país e pelo desmantelamento da militância talibã, que lhes custou mais de US $ 800 bilhões e a vida de 2.218 militares. Os países-membros da “Organização do Tratado do Atlântico Norte”/OTAN decidiram acompanhar a iniciativa dos americanos. A respeito, recordo que diante do fracasso dos ocidentais em pacificar o país, os americanos mantiveram uma série de encontros confidenciais com os inimigos talibãs, em Doha, no último dos quais, em junho do ano passado, ainda na gestão Trump, firmaram o roteiro da “pacificação”. Só que se “esqueceram” de convidar o Presidente Ghani, o qual, irado, afirmou que não reconheceria os termos alcançados à sua revelia. Acordo “meia-boca”? Estaria a maior potência militar do planeta capitulando?

E o que mostra a “bola de cristal” para o futuro?

Há temores de que as forças de segurança afegãs, já desmoralizadas, sejam rapidamente desbaratadas quando as tropas americanas restantes se retirarem. O Talibã capitalizou os estágios finais da retirada das tropas dos EUA e fez enormes avanços em todo o país, reivindicando o controle de mais de 80 dos seus 421 distritos. E por cima, as negociações de paz entre o grupo Talibã e o governo afegão permanecem paralisadas.  Oficiais militares dos EUA confirmaram, esta semana, uma avaliação do setor de inteligência americano, relatada pelo Wall Street Journal, de que o governo afegão poderia entrar em colapso seis meses após a saída das forças americanas.

E  qual é a situação política?

Os analistas mais antenados e alguns membros do governo pintam um retrato de Ghani como cada vez mais alheio aos contatos e isolado no palácio presidencial, no coração da “zona verde”, fortemente protegida. “Ele só ouve três ou quatro pessoas, incluindo seu chefe de gabinete e seu conselheiro de segurança nacional, e, claro, sua esposa”, afirmou uma fonte ocidental. Segundo a mesma, “há o fenômeno tradicional da “corte”, mas há também o fator pessoal do próprio Ghani, que desconfia de todos.”

Ele vem pressionando os talibãs para que aceitem um papel em alguma forma de governo provisório até que se realizem novas eleições. Mas os combatentes, armados e encorajados por seus ganhos no campo de batalha, parecem ter pouco interesse em novas negociações; ao contrário, estão dispostos a assumir o controle total e a restaurar um emirado governado por anciãos religiosos ortodoxos com base nos princípios islâmicos no Afeganistão.

A este respeito, eles recentemente emitiram várias declarações  amplamente delineadas, mas sucintas nos detalhes, sobre como governariam. Os direitos das mulheres e meninas se baseariam nos ensinamentos corânicos, afirmaram. Entretanto, sua interpretação do Islã é muito mais conservadora do que em outros lugares. “Há relatos razoáveis de que eles podem ter-se radicalizado ainda mais ao longo dos anos na luta contra forças estrangeiras não muçulmanas”, afirma o analista Sayed Naser Mosawi. E acrescenta, “os esforços dos Talibãs para se apresentarem como uma força eficaz capaz de governar o Afeganistão e dar às mulheres e minorias seus direitos é mera decepção”.

Neste ínterim, enquanto as forças nacionais continuam a sofrer perdas, chefes de milícias e “senhores da guerra” (líderes tribais e étnicos), no norte do Afeganistão, incluindo vários proeminentes comandantes “mujahideen” que lutaram contra o Talibã antes do 11 de setembro, estão intervindo para preencher o vazio e mais uma vez pegando em armas e convocando os partidários para se mobilizarem contra o Talibã. Depois que Cabul passou anos construindo um exército profissional, de grande custo para os Estados Unidos, aliás, a proliferação de combatentes autônomos ameaça um retorno às velhas rivalidades, o que poderia mergulhar o Afeganistão novamente numa guerra civil.

Repete-se o modelo Iraque, Líbia, Síria, etc?

Conforme assinalei numa postagem anterior, a melhor solução para este emaranhado de dilemas reside no consenso entre tribos e etnias a ser alcançado na reunião da “Loya Jirga”, a assembleia dos lideres, única forma, a meu ver, de construir um mínimo de governabilidade. De outra  maneira, corre-se o risco de se ver repetido o cenário atroz que presenciei quando servi na região, em 2004/7, dos campos inchados de refugiados à deriva…Tempos “bicudos”…

Sugiro aos amigos que leiam o texto do Al Jazeera: “Explainer: Where things stand for Afghanistan as Ghani visits US”

https://www.aljazeera.com/news/2021/6/24/afghanistan-ashraf-ghani-us-visit-taliban?fbclid=IwAR3TW9yxm0Q2sIJejvQCxsYo6EvtFWm0JS0GtF1jaOwFdDDCBNYZQx78D10

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Doutor em Direito Internacional Público em Paris. Ingressou na carreira diplomática em 1976, serviu nas embaixadas de Bruxelas, Buenos Aires, Nova Déli, Washington, Pequim, Tóquio, Islamabade (onde foi Embaixador do Brasil, em 2004). Também cumpriu missões transitórias no Vietnã e Taiwan. Viveu 15 anos na Ásia, para onde orientou sua carreira por considerar que o continente seria o mais importante do século 21 – previsão que, agora, vê cada vez mais perto da realidade.