ISSN 2674-8053

Rússia-Ucrânia: o efeito spill over do armamento

Foto de Valentyn Onyshchenko

A guerra entre Rússia e Ucrânia continua com passos lentos e sentido incerto. Recentemente Putin declarou que pode lançar mão das opções que tem em mãos, o que levantou o medo da utilização de armas atômicas. Ainda que não saibamos qual será o desfecho dessa possibilidade existe um outro problema que já se mostra real e que não tem sido discutido: qual a utilização atual e futura da enorme quantidade de armas disponibilizadas nessa guerra?

Em qualquer esforço de guerra, por mais que haja a tentativa de controle sobre os recursos, a verdade é que é difícil realmente saber o que está acontecendo. Para que tenhamos uma ideia do que estamos falando, o Ocidente já superou o gasto de US$ 10 bilhões em apoio militar para a Ucrânia. São gastos dos mais variados, como lançadores de mísseis, veículos, armamento pesado e leve, além de munição (para mais informações, ver o artigo da BBC Ukraine weapons: what military equipment is the world giving? https://www.bbc.com/news/world-europe-62002218).

Diante dessa imensa oferta de armamentos e da baixa capacidade de controle de seu destino, países que fazem parte da OTAN começaram a mostrar a preocupação do que ocorre e ocorrerá com essas armas (para mais informações, ver o artigo do Financial Times Nato and EU sound over risk of Ukraine weapons smuggling https://www.ft.com/content/bce78c78-b899-4dd2-b3a0-69d789b8aee8).

Acredita-se que parte desse armamento pode ser desviado para um mercado ilegal de armas. Há um esforço crescente para envio de missões de monitoramento a fim de verificar o destino das armas. A OTAN, por sua vez, está pressionando cada vez mais o governo ucraniano para que efetivamente consiga monitorar a aplicação do armamento no conflito, impedindo seu desvio.

Nos Estados Unidos há relatos de movimentações políticas buscando esse maior controle. O Senador Rand Paul é um dos que tem publicamente cobrado um maior controle, destacando que somente os Estados Unidos já se comprometeram com US$ 7,6 bilhões neste conflito.

Essas manifestações mostram a importância que o tema tem ganho ao longo dos últimos meses. É preciso ter em mente que não se trata de um mercado ilegal de armas leves, o que acabaria por impactar no aumento da violência urbana. Como estamos falando de armamento de guerra, eles acabam destinados a grupos mais organizados e com potencial desestabilizador maior. Há o risco real de vermos parte do armamento enviado para a Ucrânia ser desviado para outros conflitos. Movimentos separatistas, guerras civis em andamento ou mesmo Estados instáveis podem ser alimentados por esse armamento, criando mais crise pelo mundo.

É fundamental que a sociedade internacional acompanhe a questão do armamento com mais rigor.

Rodrigo Cintra
Pós-Doutor em Competitividade Territorial e Indústrias Criativas, pelo Dinâmia – Centro de Estudos da Mudança Socioeconómica, do Instituto Superior de Ciencias do Trabalho e da Empresa (ISCTE, Lisboa, Portugal). Doutor em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (2007). É Diretor Executivo do Mapa Mundi. ORCID https://orcid.org/0000-0003-1484-395X

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