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China e Rússia constroem uma arquitetura de segurança paralela para desafiar a ordem liderada pelo Ocidente

À medida que Estados Unidos, OTAN e União Europeia consolidam uma teia de alianças flexíveis na Ásia-Pacífico com o objetivo de conter a ascensão chinesa e russa, um movimento contrário se desenha com nitidez crescente. Moscou e Pequim, historicamente desconfiadas uma da outra, vêm construindo uma arquitetura de segurança própria, informal, mas ambiciosa, que visa contestar o domínio geoestratégico ocidental e oferecer uma alternativa ao modelo euro-atlântico. Trata-se de um esforço articulado, ainda que não declarado, de erguer uma ordem paralela baseada em multipolaridade, soberania estatal e rejeição ao que classificam como “intervencionismo hegemônico”.

Essa arquitetura emergente apoia-se em três pilares principais: aprofundamento das relações bilaterais sino-russas, uso estratégico de organizações multilaterais alternativas e aproximação com países insatisfeitos com a ordem liberal internacional. Juntos, esses elementos formam uma estrutura de contenção ao Ocidente — não nos moldes rígidos de uma aliança militar formal como a OTAN, mas como uma rede de segurança política e militar que opera por meio da coordenação pragmática de interesses convergentes.

O centro gravitacional desse esforço é a Organização para a Cooperação de Xangai (SCO), criada em 2001 por China, Rússia, Cazaquistão, Quirguistão, Tajiquistão e Uzbequistão, e hoje integrada também por Índia, Paquistão e Irã. Embora seu mandato formal seja limitado a questões de segurança regional e combate ao extremismo, a SCO tem sido utilizada cada vez mais como plataforma diplomática para contestar a hegemonia ocidental. Suas cúpulas anuais se tornaram fóruns de crítica às sanções unilaterais impostas por EUA e UE, à presença militar estrangeira em territórios asiáticos e ao que seus membros chamam de “ingerência em assuntos internos sob o pretexto de direitos humanos”.

O segundo vetor é a intensificação da cooperação bilateral militar e tecnológica entre China e Rússia. Desde 2022, os dois países realizaram mais de uma dezena de exercícios militares conjuntos em regiões sensíveis: mar do Japão, mar da China Oriental, mar de Okhotsk, mar de Bering e até mesmo no Ártico. Essas operações incluem simulações de interdição naval, vigilância aérea e defesa antimísseis — indicando não apenas coordenação tática, mas também integração estratégica. Em 2023, aeronaves chinesas e russas realizaram pela primeira vez patrulhas aéreas conjuntas próximas ao espaço aéreo sul-coreano e japonês, provocando reações imediatas das forças americanas na região.

Além disso, os dois países têm ampliado o intercâmbio de tecnologias militares sensíveis, com destaque para sistemas de mísseis hipersônicos, radares de longo alcance e armamentos cibernéticos. A Rússia, enfraquecida economicamente após as sanções ocidentais, tornou-se cada vez mais dependente do mercado chinês — e Pequim, por sua vez, aproveita a oportunidade para acelerar seu aprendizado militar e reduzir sua vulnerabilidade frente ao cerco tecnológico imposto por Washington e seus aliados.

O terceiro pilar da arquitetura paralela está na diplomacia multivetorial voltada a países do Sul Global. China e Rússia intensificaram suas relações com nações que compartilham do incômodo com a liderança ocidental ou que desejam manter autonomia estratégica. Irã, Mianmar, Coreia do Norte e países da Ásia Central são parceiros óbvios, mas a atuação também se estende à África e à América Latina. A retórica que acompanha essas aproximações é sempre a mesma: soberania, respeito à autodeterminação, multipolaridade e oposição ao “neocolonialismo liberal”. No contexto asiático, destaca-se a crescente influência da China sobre o Laos, o Camboja e o Paquistão, e da Rússia sobre os países pós-soviéticos que orbitam a Ásia Central.

Essa contra-arquitetura também passa pela formulação de princípios ideológicos comuns. Em vez de defesa da democracia liberal e dos direitos humanos universais, a China e a Rússia propõem uma segurança baseada no respeito à diversidade de modelos políticos e culturais. Argumentam que os valores ocidentais não devem ser universalizados, e que o mundo precisa ser organizado segundo um equilíbrio de civilizações, não sob a imposição de um único padrão normativo. A segurança, nesse modelo, é concebida como indivisível — ou seja, a expansão de alianças ocidentais próximas às suas fronteiras é vista não como legítima, mas como ameaça.

O resultado desse esforço é a emergência de um novo eixo de poder que, embora ainda em construção, já pressiona a ordem internacional em múltiplas frentes. A guerra na Ucrânia acelerou essa consolidação: isolada do Ocidente, a Rússia estreitou laços com a China e passou a atuar como satélite estratégico de Pequim, oferecendo recursos naturais, cooperação militar e posicionamento geopolítico. A China, por sua vez, vê na parceria com Moscou uma forma de desafiar o domínio americano sem se expor diretamente a confrontos de alta intensidade — pelo menos por enquanto.

Essa arquitetura paralela, apesar de não ter a institucionalidade e os mecanismos de coordenação da OTAN, é eficaz por sua adaptabilidade. Não requer tratados formais, mas opera por meio da convergência de interesses, uso estratégico de organismos multilaterais, exercícios conjuntos e discursos sincronizados. Sua força está justamente na capacidade de atuar por fora das estruturas tradicionais, aproveitando-se das lacunas e limitações da ordem liberal construída no pós-Guerra Fria.

Entretanto, esse modelo também apresenta fragilidades. As assimetrias entre China e Rússia — econômicas, políticas e estratégicas — podem gerar tensões futuras. A dependência russa tende a aumentar, o que pode provocar desconforto em Moscou diante da liderança chinesa. Além disso, a adesão de países secundários à arquitetura sino-russa é, em grande parte, tática e circunstancial, e não estrutural. A promessa de multipolaridade pode se converter, para muitos desses parceiros, em uma nova forma de dependência, agora orientada para o Oriente.

Mesmo assim, o avanço desse sistema alternativo sinaliza que o mundo caminha para uma era de “dupla ordem”: uma liderada pelo Ocidente, apoiada em instituições e valores liberais; outra articulada por China e Rússia, voltada à soberania, ao poder bruto e à lógica de esferas de influência. Entre essas duas arquiteturas, não se trata apenas de quem tem mais poderio militar ou influência econômica, mas de que tipo de mundo se deseja construir — e de quem estará disposto a defendê-lo.

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