A bolha da inteligência artificial e a oportunidade estratégica das terras raras brasileiras

Brasil China



O crescimento acelerado da inteligência artificial começa a revelar uma contradição importante na economia mundial. Enquanto governos e grandes empresas continuam investindo bilhões de dólares na construção de infraestrutura tecnológica, surgem sinais de que parte desses investimentos poderá não produzir os retornos esperados. Na China, onde a expansão da capacidade computacional foi estimulada por políticas industriais e pela competição entre governos locais, o problema já aparece na forma de capacidade ociosa e dificuldades de rentabilização de determinados projetos. Nos Estados Unidos, a preocupação se concentra na distância entre os investimentos anunciados e as receitas efetivamente geradas pelas aplicações de inteligência artificial. Entretanto, por trás dessa possível bolha financeira, existe uma transformação econômica mais profunda, que envolve a reorganização das cadeias industriais e a disputa pelo controle dos recursos necessários à produção de tecnologias avançadas. É nesse contexto que as terras raras brasileiras adquirem uma importância que ultrapassa o setor mineral.

A expansão da inteligência artificial tem sido sustentada por expectativas extraordinárias de crescimento. Empresas de tecnologia passaram a investir em centros de processamento de dados, semicondutores especializados e sistemas de armazenamento de energia, apostando que a incorporação da inteligência artificial às atividades econômicas produzirá ganhos de produtividade capazes de justificar os custos atuais. O problema é que a velocidade dos investimentos tem sido superior à capacidade de muitas empresas de transformar essas tecnologias em receitas proporcionais. A existência de aplicações comercialmente bem-sucedidas não elimina a possibilidade de que parte da infraestrutura construída tenha sido dimensionada para uma demanda que poderá demorar mais do que o previsto para se materializar.

A experiência chinesa ajuda a compreender essa tensão. Durante décadas, a China utilizou investimentos industriais antecipados como instrumento de transformação econômica. O país construiu capacidade produtiva em setores considerados estratégicos antes mesmo da consolidação da demanda, aceitando períodos de excesso de oferta como parte de uma estratégia de desenvolvimento. Esse modelo contribuiu para sua liderança em painéis solares, baterias e veículos elétricos, embora também tenha produzido dificuldades financeiras e competição intensa entre empresas. A inteligência artificial passou a reproduzir algumas dessas características, especialmente quando governos provinciais e municipais começaram a promover centros de computação como instrumentos de atração de investimentos e desenvolvimento regional.

O eventual estouro de uma bolha nesse setor precisa, portanto, ser interpretado com cuidado. A existência de infraestrutura subutilizada pode representar uma destruição de capital para investidores, mas também pode reduzir o custo de acesso à capacidade computacional e favorecer a difusão tecnológica. A China possui condições particulares para explorar esse processo, pois combina uma base industrial diversificada com empresas capazes de desenvolver modelos de inteligência artificial relativamente eficientes em termos de recursos computacionais. A experiência da DeepSeek demonstrou que a competição tecnológica não depende exclusivamente da disponibilidade dos semicondutores mais avançados. A eficiência dos modelos, sua adaptação a aplicações específicas e o custo de utilização também influenciam a capacidade de competir.

Nos Estados Unidos, a lógica apresenta diferenças relevantes. A liderança das grandes empresas norte-americanas está associada ao desenvolvimento de modelos avançados, à disponibilidade de capital e ao controle de plataformas digitais utilizadas internacionalmente. Entretanto, a expansão da infraestrutura necessária para sustentar essa liderança exige investimentos cada vez maiores, frequentemente realizados antes de existir clareza sobre a rentabilidade futura. Caso as expectativas sejam revistas, o ajuste poderá afetar o valor das empresas e o financiamento de novos projetos. Isso não significaria necessariamente o fracasso da inteligência artificial como tecnologia, assim como a crise das empresas de internet no início dos anos 2000 não interrompeu a expansão da economia digital.

O elemento mais importante dessa comparação é que a disputa tecnológica está deixando de se concentrar exclusivamente no desenvolvimento dos modelos de inteligência artificial. A capacidade de produzir equipamentos, garantir eletricidade e controlar componentes industriais começa a adquirir importância semelhante. Os semicondutores continuam sendo essenciais, mas sua fabricação depende de uma cadeia extensa de equipamentos especializados. A infraestrutura que permite operar sistemas de inteligência artificial também exige instalações de refrigeração, motores, sistemas elétricos e componentes de alta precisão. Nesse conjunto, as terras raras desempenham funções relevantes, embora não sejam os principais materiais utilizados na fabricação dos chips.

As terras raras constituem um grupo de 17 elementos químicos empregados em diferentes aplicações industriais. Alguns deles, como neodímio e praseodímio, são utilizados na fabricação de ímãs permanentes de alto desempenho, presentes em motores elétricos, equipamentos industriais e sistemas tecnológicos avançados. Outros, como disprósio e térbio, contribuem para que determinados ímãs mantenham suas propriedades em temperaturas elevadas. Sua importância para a inteligência artificial decorre sobretudo da infraestrutura física que sustenta a economia digital e das cadeias industriais que a acompanham. A relação também se estende à robótica, um dos campos em que a inteligência artificial poderá produzir transformações econômicas mais significativas.

A China compreendeu antecipadamente o valor estratégico dessa cadeia. Ao longo de décadas, desenvolveu capacidade de extração, separação química e fabricação de componentes, consolidando uma posição dominante que não pode ser explicada apenas pela disponibilidade de reservas minerais. Em 2025, o país respondia por aproximadamente 85% do refino mundial das terras raras utilizadas em ímãs permanentes e por uma parcela ainda maior da fabricação desses componentes. Essa concentração permite que decisões regulatórias chinesas tenham consequências diretas sobre indústrias localizadas em outros continentes.

As restrições chinesas às exportações de determinados elementos de terras raras, introduzidas em 2025, demonstraram a dimensão dessa dependência. A possibilidade de interrupção no fornecimento levou empresas industriais a rever seus estoques e governos a acelerar projetos destinados à diversificação das cadeias produtivas. A Agência Internacional de Energia estimou que a implementação integral dessas restrições poderia colocar em risco atividades industriais responsáveis por aproximadamente US$ 6,5 trilhões anuais de produção fora da China. Trata-se do valor potencialmente exposto a problemas de abastecimento, e não de uma previsão de perdas financeiras efetivas. Ainda assim, a dimensão da estimativa mostra como materiais comercializados em volumes relativamente pequenos podem condicionar atividades econômicas muito maiores.

É justamente nessa reorganização que o Brasil passa a ocupar uma posição relevante. O país possui reservas estimadas em aproximadamente 21 milhões de toneladas de terras raras, situando-se entre os maiores detentores mundiais desses recursos. Entretanto, sua participação na produção internacional continua reduzida, especialmente quando comparada à dimensão de suas reservas. Essa diferença revela uma característica persistente da inserção brasileira na economia mundial: a existência de recursos naturais estratégicos não se traduz automaticamente em capacidade de influenciar as cadeias industriais que dependem deles. O valor econômico e geopolítico desses recursos depende cada vez mais das tecnologias utilizadas para transformá-los em componentes industriais.

A produção brasileira começa a apresentar mudanças importantes, especialmente com o desenvolvimento de projetos em Goiás e em outras regiões com potencial mineral. A operação da Serra Verde, voltada à produção de terras raras a partir de depósitos de argilas iônicas, demonstra que o país pode participar de segmentos relevantes dessa cadeia. Esses depósitos despertam interesse particular porque podem conter elementos pesados, como disprósio e térbio, cuja disponibilidade internacional é mais concentrada. Entretanto, a expansão da mineração não resolve o problema central. Sem capacidade de separação dos elementos, produção de metais e fabricação de ímãs, o Brasil poderá continuar exportando materiais intermediários e importando produtos industriais de maior valor agregado.

A competição entre Estados Unidos e China oferece ao Brasil uma oportunidade de negociação que dificilmente existiria em condições normais de mercado. Washington procura reduzir sua dependência das cadeias controladas por Pequim e tem ampliado o apoio financeiro a projetos minerais no exterior. A China, por sua vez, sinalizou interesse em aprofundar a cooperação com o Brasil, inclusive em tecnologias de separação de terras raras. Essa convergência de interesses externos amplia o espaço de negociação brasileiro, desde que o país consiga estabelecer objetivos industriais próprios. A possibilidade de atrair investimentos de diferentes origens permite negociar transferência tecnológica, formação de profissionais e desenvolvimento de capacidade produtiva nacional.

O risco está em transformar essa oportunidade em uma nova disputa pela exportação de matérias-primas. A pressão internacional por fontes alternativas de terras raras pode estimular projetos de extração sem produzir o desenvolvimento industrial correspondente. Nesse cenário, o Brasil assumiria os custos ambientais e territoriais da mineração, enquanto as etapas mais lucrativas permaneceriam concentradas em outros países. A experiência histórica com diferentes ciclos de exportação mineral recomenda cautela, sobretudo porque a exploração de terras raras envolve desafios relacionados ao uso de água, à gestão de resíduos e aos impactos sobre comunidades próximas às áreas de produção. Uma estratégia industrial consistente precisa incorporar esses custos desde a concepção dos projetos.

Existe ainda uma questão econômica que aproxima diretamente o debate sobre a inteligência artificial da política brasileira para minerais estratégicos. Se a expansão da infraestrutura tecnológica estiver atravessando um período de investimentos excessivos, uma correção poderá alterar as expectativas de demanda por determinados equipamentos e materiais. O Brasil não deveria estruturar sua política mineral exclusivamente sobre projeções de crescimento acelerado da inteligência artificial. As terras raras possuem aplicações suficientemente diversificadas para justificar uma estratégia de longo prazo, incluindo motores industriais, equipamentos médicos, energia renovável e sistemas de automação. Essa diversidade reduz a dependência de um único mercado e permite construir uma política industrial menos vulnerável às oscilações financeiras do setor tecnológico.

Também seria equivocado imaginar que a oportunidade brasileira depende necessariamente de uma ruptura com a China. O domínio chinês sobre as tecnologias de processamento resulta de décadas de investimentos, desenvolvimento industrial e formação de conhecimento especializado. Reproduzir integralmente essa estrutura em poucos anos seria economicamente difícil. Uma alternativa mais consistente envolveria estabelecer parcerias internacionais diversificadas, aproveitando conhecimentos disponíveis na Ásia e oportunidades de financiamento em outros mercados. O Japão, por exemplo, desenvolveu políticas de diversificação do abastecimento de terras raras depois das tensões comerciais com a China em 2010, acumulando experiência em segurança de suprimentos e tecnologias industriais. Essa experiência demonstra que a redução de vulnerabilidades depende de investimentos prolongados e de cooperação entre empresas e governos.

Para o Brasil, o desafio é identificar em quais etapas da cadeia existe possibilidade concreta de desenvolver competitividade. A construção de instalações de separação química pode representar um primeiro avanço, mas exige investimentos elevados, domínio tecnológico e capacidade de operação ambientalmente responsável. A fabricação de ímãs permanentes apresenta exigências adicionais, relacionadas à qualidade dos materiais e à existência de compradores industriais. O país precisaria articular projetos minerais com centros de pesquisa e empresas capazes de utilizar esses componentes. Sem essa integração, a política de terras raras corre o risco de permanecer restrita à ampliação da oferta mineral, sem produzir uma transformação significativa na estrutura produtiva brasileira.

A possível bolha da inteligência artificial torna essa discussão ainda mais relevante porque evidencia a diferença entre expectativas financeiras de curto prazo e transformações industriais duradouras. Algumas empresas poderão desaparecer, investimentos poderão ser interrompidos e parte da capacidade computacional instalada talvez permaneça subutilizada. Entretanto, a incorporação progressiva da inteligência artificial à produção industrial continuará exigindo equipamentos e infraestrutura física. A velocidade desse processo permanece incerta, mas a competição pelo domínio das tecnologias necessárias à sua sustentação já está modificando as relações econômicas internacionais.

O Brasil possui condições para participar dessa reorganização em uma posição mais favorável do que aquela tradicionalmente ocupada como fornecedor de recursos naturais. Entretanto, essa possibilidade depende de decisões que precisam ser tomadas antes que os investimentos internacionais consolidem novas estruturas de dependência. A negociação de contratos de longo prazo, a exigência de compromissos industriais verificáveis e a construção de capacidades tecnológicas nacionais podem ampliar a parcela de valor econômico retida no país. Essas medidas precisam considerar a viabilidade dos projetos e a necessidade de oferecer condições estáveis aos investidores, sem renunciar à possibilidade de utilizar os recursos minerais como instrumentos de desenvolvimento.

A discussão sobre a bolha da inteligência artificial, portanto, revela uma mudança importante na distribuição internacional de poder econômico. Enquanto os mercados financeiros procuram identificar quais empresas conseguirão transformar a inteligência artificial em lucros, os governos disputam as condições materiais necessárias para sustentar a próxima etapa da transformação tecnológica. A China já ocupa uma posição privilegiada nessa estrutura, construída muito antes da atual expansão da inteligência artificial. Os Estados Unidos procuram reduzir suas vulnerabilidades e recuperar capacidades industriais. O Brasil, por sua vez, encontra uma oportunidade pouco frequente de negociar sua participação em cadeias estratégicas enquanto elas ainda estão sendo reorganizadas. A questão decisiva será saber se o país conseguirá utilizar o interesse internacional por suas terras raras para desenvolver competências industriais próprias ou se assistirá a mais um ciclo em que sua riqueza mineral contribuirá principalmente para o avanço tecnológico de outras economias.

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