
Os recursos energéticos desempenham um papel central na dinâmica geopolítica contemporânea, refletindo não apenas as necessidades de desenvolvimento econômico dos Estados, mas também suas ambições estratégicas. Em um contexto de crescente instabilidade global, caracterizado por conflitos regionais, rivalidades entre grandes potências e transformações na matriz energética mundial, a disputa por fontes de energia se intensifica, moldando alianças e desafiando o status quo internacional.
O conceito de “segurança energética”, amplamente discutido por autores como Daniel Yergin, assume dimensões renovadas diante das crises atuais, envolvendo não apenas a disponibilidade de recursos, mas também a acessibilidade, a sustentabilidade e a resiliência das cadeias de suprimento. As sanções impostas à Rússia em razão do conflito na Ucrânia demonstram como a energia pode ser utilizada como instrumento de poder, com a Europa buscando reduzir sua dependência do gás russo por meio de diversificação de fornecedores e investimentos em fontes renováveis.
A transição energética, impulsionada pelos compromissos climáticos e pelo avanço tecnológico, adiciona uma camada de complexidade à equação geopolítica. Enquanto países ocidentais, como os membros da União Europeia, aceleram a adoção de fontes limpas, grandes economias emergentes, como China e Índia, ainda dependem fortemente de combustíveis fósseis para sustentar seu crescimento. A China, por sua vez, tem ampliado sua influência por meio de investimentos em energia renovável e infraestruturas energéticas em áfrica e América Latina, consolidando sua posição como líder na produção de tecnologia solar e eólica.
A crescente competição pelo acesso a minerais estratégicos, essenciais para a produção de baterias e equipamentos de energia limpa, também redefine as relações internacionais. O controle de elementos como lítio, cobalto e terras raras se torna um fator determinante para a soberania tecnológica e industrial, colocando regiões como a África subsaariana e a América do Sul no centro das atenções de potências globais.
Diante desse cenário, as perspectivas energéticas futuras dependem de equilíbrio entre segurança e sustentabilidade. Para os países em desenvolvimento, a questão da acessibilidade e financiamento de infraestrutura energética representa um desafio significativo, exigindo cooperação internacional e inovação. Já para as potências tradicionais, como Estados Unidos e Rússia, a manutenção de sua influência no mercado energético global dependerá de sua capacidade de adaptação às novas demandas e realidades tecnológicas.
Pós-Doutor em Competitividade Territorial e Indústrias Criativas, pelo Dinâmia – Centro de Estudos da Mudança Socioeconómica, do Instituto Superior de Ciencias do Trabalho e da Empresa (ISCTE, Lisboa, Portugal). Doutor em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (2007). É Diretor Executivo do Mapa Mundi. ORCID https://orcid.org/0000-0003-1484-395X