
A aproximação entre China e Rússia está deixando de ser apenas uma parceria entre duas grandes potências para se transformar em parte de uma disputa muito maior sobre quem terá poder para definir as regras internacionais nas próximas décadas. Pequim e Moscou defendem abertamente mudanças na governança global, procuram fortalecer organizações como o BRICS e a Organização para Cooperação de Xangai e questionam a concentração de poder existente nas instituições criadas sob forte influência dos Estados Unidos e da Europa depois da Segunda Guerra Mundial. Para o Brasil, permanecer distante desse movimento seria um erro estratégico, não porque o país deva escolher entre Ocidente e Oriente, mas porque precisa estar presente nos espaços onde as regras do futuro estão sendo discutidas.
A formação de uma ordem internacional mais multipolar não significa necessariamente o desaparecimento das instituições existentes nem a criação de um bloco liderado pela China que simplesmente substituiria aquele construído pelos Estados Unidos. O processo em andamento é muito mais complexo e combina competição e cooperação, instituições antigas e novas, interesses convergentes e profundas divergências entre os próprios países interessados em reformar o sistema internacional. É justamente nesse ambiente, no qual nenhuma potência consegue impor sozinha todas as suas preferências, que o Brasil pode encontrar maior espaço para exercer influência.
Os encontros entre Xi Jinping e Vladimir Putin nos últimos anos têm mostrado claramente essa transformação. O presidente chinês passou a defender com crescente frequência uma reforma da governança global e a construção de um mundo que Pequim descreve como multipolar, mais igualitário e menos sujeito à hegemonia de uma única potência. Putin apresenta visão semelhante e procura ampliar a coordenação entre Rússia e China na ONU, no BRICS e em outras organizações internacionais.
Essa aproximação possui uma dimensão concreta. China e Rússia ampliaram sua cooperação comercial, energética, tecnológica e financeira, enquanto Moscou redirecionou para a Ásia parte importante das exportações que anteriormente tinham a Europa como destino. Depois das sanções impostas pelos países ocidentais em consequência da guerra na Ucrânia, o mercado chinês ganhou importância ainda maior para a economia russa. Pequim, por sua vez, procura ampliar rotas comerciais pela Ásia Central, financiar infraestrutura, internacionalizar suas empresas e fortalecer relações políticas com países que durante décadas permaneceram na periferia das grandes decisões internacionais.
Isso não significa, porém, que chineses e russos tenham interesses idênticos. Moscou deseja ampliar suas exportações de gás para a China por meio de novas infraestruturas, enquanto Pequim negocia preços e condições procurando maximizar suas próprias vantagens. Na Ásia Central, os dois países cooperam, mas também disputam influência: a Rússia conserva profundos vínculos históricos, militares e culturais com as antigas repúblicas soviéticas, enquanto a China se tornou progressivamente uma potência econômica central para esses mesmos países.
A construção de novas conexões ferroviárias entre China e Ásia Central mostra bem essa ambiguidade. Ao mesmo tempo que Pequim defende com Moscou uma transformação da ordem internacional, desenvolve corredores comerciais que diversificam suas rotas e reduzem a necessidade de utilizar território russo para alcançar mercados ocidentais. A parceria sino-russa, portanto, não elimina a competição, mas demonstra uma característica fundamental do mundo multipolar que está surgindo: diferentes centros de poder podem cooperar em determinadas questões enquanto competem em outras.
China e Índia oferecem outro exemplo. Os dois países possuem disputas territoriais, competem por influência na Ásia e mantêm profunda desconfiança estratégica. A Índia participa do Quad ao lado dos Estados Unidos, Japão e Austrália, estrutura interpretada por Pequim como parte da tentativa norte-americana de equilibrar o crescimento do poder chinês no Indo-Pacífico. Ao mesmo tempo, indianos e chineses participam conjuntamente do BRICS e da Organização para Cooperação de Xangai. Nova Délhi compra armamentos e petróleo russos, aprofunda relações econômicas e tecnológicas com Washington e, simultaneamente, mantém canais de negociação com Pequim.
Aquilo que parece contraditório quando observado pela lógica rígida dos blocos da Guerra Fria talvez seja uma das características mais importantes do novo sistema internacional. Os países procuram aumentar suas opções, evitando dependências excessivas e preservando relações simultâneas com potências concorrentes.
A Indonésia pode cooperar economicamente com a China sem aceitar todas as posições chinesas no Mar do Sul da China. A Arábia Saudita pode manter uma relação estratégica histórica com os Estados Unidos enquanto aprofunda negócios com Pequim. Países africanos podem receber investimentos chineses, europeus, americanos, indianos, turcos e dos países do Golfo sem necessariamente se alinhar integralmente a nenhum desses polos.
O Brasil possui condições especialmente favoráveis para atuar dessa maneira. Mantém relações históricas com Estados Unidos e Europa, possui laços culturais e econômicos profundos com o Ocidente e participa das principais instituições construídas sob liderança ocidental. Ao mesmo tempo, a China tornou-se um parceiro econômico de enorme importância, o Brasil integra o BRICS desde sua formação política e mantém relações diplomáticas com praticamente todos os grandes centros de poder. Poucos países de dimensões semelhantes possuem uma combinação tão ampla de relacionamentos.
Existe ainda uma vantagem frequentemente subestimada. O Brasil não é percebido internacionalmente como uma potência expansionista, não possui disputas territoriais relevantes com seus vizinhos, não mantém uma rede de bases militares pelo planeta e tampouco procura organizar alianças militares sob sua liderança. Essa realidade limita a capacidade brasileira de exercer poder pela força, mas amplia as possibilidades de influência diplomática em um mundo no qual as grandes potências estão cada vez mais envolvidas em disputas estratégicas.
O problema é que o sistema internacional no qual a diplomacia brasileira aprendeu a operar está mudando rapidamente. As instituições criadas depois de 1945 continuam fundamentais: a ONU permanece no centro da legitimidade internacional, o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial desempenham papéis decisivos na economia global, o dólar continua sendo a principal moeda internacional e os Estados Unidos permanecem como a maior potência militar do planeta e um dos principais centros financeiros, tecnológicos e científicos do mundo.
A distribuição do poder econômico, entretanto, mudou profundamente. Quando a arquitetura de Bretton Woods foi construída, China e Índia eram países muito pobres, grande parte da África permanecia sob domínio colonial europeu, Alemanha e Japão estavam destruídos e a União Soviética constituía o grande contraponto estratégico aos Estados Unidos, embora possuísse uma economia muito menor.
O mundo atual apresenta uma configuração bastante diferente. A China tornou-se uma potência industrial e tecnológica, a Índia ultrapassou diversas grandes economias e continua aumentando sua participação na produção mundial, a Indonésia ganhou importância, os Estados do Golfo acumularam enorme capacidade financeira e a África possui uma população em rápida expansão que deverá ampliar seu peso econômico e político ao longo deste século.
A distribuição formal do poder internacional, porém, não acompanhou integralmente essa transformação. O Conselho de Segurança da ONU continua tendo como membros permanentes Estados Unidos, Rússia, China, França e Reino Unido, sem qualquer representante permanente africano ou latino-americano. A Índia, uma das nações mais populosas do planeta e uma potência nuclear, também permanece fora desse núcleo.
Essa estrutura ajuda a explicar por que a ideia de reformar a governança internacional encontra receptividade muito além de Pequim e Moscou. Há décadas países em desenvolvimento reivindicam maior representação nas instituições internacionais. O Brasil defende historicamente uma reforma do Conselho de Segurança, a União Africana reivindica maior participação africana e a Índia também pressiona por mudanças. As discussões sobre a distribuição de votos no FMI e no Banco Mundial refletem a mesma diferença entre a economia mundial contemporânea e aquela existente quando essas instituições foram criadas.
A China percebeu esse espaço político e passou a ocupá-lo com maior intensidade. Suas propostas para uma nova governança global procuram apresentar o país não apenas como uma potência interessada em aumentar sua própria influência, mas como defensor de princípios com forte apelo no Sul Global, entre eles a igualdade soberana dos Estados, o respeito ao direito internacional, o multilateralismo e uma participação maior dos países em desenvolvimento.
Naturalmente, existe uma dimensão de poder por trás desse discurso. Toda grande potência procura construir uma ordem internacional compatível com seus interesses. Os Estados Unidos fizeram isso depois de 1945, as potências europeias haviam feito o mesmo durante os séculos anteriores e não existe razão para imaginar que a China constitua uma exceção histórica. Para o Brasil, entretanto, a questão relevante não é determinar se as propostas chinesas são altruístas, mas identificar até que ponto determinadas mudanças coincidem com os interesses brasileiros.
Em muitos casos, existe uma convergência importante. O Brasil deseja maior participação dos países em desenvolvimento nas decisões globais, defende uma reforma das instituições multilaterais, reivindica maior representação no Conselho de Segurança e tem interesse em preservar o comércio internacional, evitando uma fragmentação completa da economia mundial em blocos rivais. Também precisa ampliar as fontes de financiamento para infraestrutura, transição energética, tecnologia e desenvolvimento industrial.
A aproximação com iniciativas destinadas a transformar a governança internacional não deveria, portanto, ser interpretada como aceitação de uma ordem sino-russa. O objetivo brasileiro deveria ser exatamente impedir que qualquer nova arquitetura internacional seja construída exclusivamente por chineses, russos, americanos ou europeus. Se as regras estão sendo rediscutidas, o Brasil precisa participar de sua elaboração.
O BRICS oferece um exemplo concreto dessa oportunidade. Quando Brasil, Rússia, Índia e China começaram a organizar politicamente o grupo, havia grande ceticismo sobre sua relevância. Com a entrada da África do Sul e posteriormente sua ampliação, o BRICS passou a reunir um conjunto muito mais diverso de países, com regimes políticos, estruturas econômicas e interesses estratégicos bastante diferentes.
Essa diversidade é simultaneamente uma fraqueza e uma força. China e Índia possuem rivalidades importantes, os países do Oriente Médio carregam suas próprias disputas e Brasil e Rússia apresentam prioridades internacionais bastante diferentes. Essa heterogeneidade torna improvável que o BRICS se transforme em algo semelhante à OTAN ou à antiga aliança soviética, mas talvez sua relevância nunca tenha dependido disso. Seu maior potencial pode estar em constituir um espaço no qual países que não desejam simplesmente seguir decisões tomadas pelas potências tradicionais consigam coordenar interesses específicos.
O Novo Banco de Desenvolvimento demonstra essa possibilidade. Criado pelos países do BRICS, oferece uma fonte adicional de financiamento para infraestrutura e desenvolvimento sem precisar substituir Banco Mundial, Banco Interamericano de Desenvolvimento ou outras instituições multilaterais. A importância está justamente na ampliação das opções disponíveis, porque alternativas aumentam a capacidade de negociação dos países.
Uma economia dependente de um único financiador possui menos margem para negociar condições. Um país dependente de apenas um grande mercado externo torna-se vulnerável às decisões políticas tomadas nesse mercado, enquanto a dependência de uma única fonte de tecnologia também reduz sua autonomia. A política externa brasileira deveria, por isso, procurar multiplicar alternativas, aprofundando relações com a China sem abandonar os Estados Unidos, trabalhando com o BRICS sem enfraquecer o G20, defendendo a ONU enquanto pressiona por sua reforma e cooperando com a Europa em meio ambiente e tecnologia ao mesmo tempo que busca investimentos asiáticos em infraestrutura e indústria.
A experiência de diversos países asiáticos demonstra o valor dessa diversificação. O Vietnã mantém uma relação econômica intensa com a China, mas possui disputas marítimas com Pequim e aprofundou significativamente sua relação com Washington. Singapura combina fortes relações econômicas com a China com estreita cooperação de segurança com os Estados Unidos. A Índia participa simultaneamente do BRICS, da Organização para Cooperação de Xangai e do Quad. Em vez de enxergar essas relações como incompatíveis, esses países procuram utilizá-las para aumentar sua própria margem de decisão.
Na África ocorre movimento semelhante. Países como Etiópia, Quênia, África do Sul e Egito procuram combinar relações com China, Europa, Estados Unidos, países do Golfo e outras potências. A competição externa pode criar riscos, principalmente quando governos acumulam dívidas ou concedem vantagens excessivas em troca de investimentos, mas também oferece oportunidades quando os países conseguem negociar preservando autonomia.
Existe, contudo, um cuidado indispensável para o Brasil. A defesa de uma ordem multipolar não pode significar relativizar princípios sempre que eles forem violados por países considerados parceiros. Se o país pretende defender uma governança baseada em direito internacional, soberania e multilateralismo, esses princípios precisam valer tanto para Estados Unidos e Europa quanto para China, Rússia e os próprios integrantes do Sul Global.
A guerra na Ucrânia expôs uma das contradições mais evidentes desse debate. Moscou critica a hegemonia ocidental e defende uma ordem multipolar, mas utilizou força militar contra um Estado vizinho reconhecido internacionalmente. Para um país como o Brasil, cuja própria segurança histórica depende em grande medida do respeito às fronteiras e às normas internacionais, ignorar essa contradição seria contraproducente. Da mesma maneira, apoiar maior presença chinesa nas instituições internacionais não exige concordar com todas as posições de Pequim. Autonomia diplomática pressupõe justamente a capacidade de cooperar quando existem interesses convergentes e discordar quando eles deixam de existir.
Há também uma dimensão econômica nessa transformação que frequentemente desaparece atrás das grandes discussões geopolíticas. A disputa pela nova ordem mundial acontece não apenas em reuniões diplomáticas, mas em portos, ferrovias, cabos submarinos, sistemas de pagamentos, satélites, redes de telecomunicações, semicondutores, inteligência artificial, energia e minerais estratégicos. O controle de padrões tecnológicos produz poder, assim como o financiamento de infraestrutura cria influência e a existência de moedas utilizadas internacionalmente reduz vulnerabilidades.
A China compreendeu essa relação há muito tempo. A Iniciativa Cinturão e Rota ajudou a criar uma ampla rede de infraestrutura e relações econômicas conectando partes da Ásia, África, Oriente Médio, Europa e América Latina. Mesmo depois da revisão de alguns projetos e da redução de financiamentos considerados mais arriscados, permanece a compreensão de que infraestrutura, comércio e geopolítica estão profundamente relacionados.
A Rússia, embora muito menos poderosa economicamente que a China, possui recursos energéticos, capacidade militar, tecnologia nuclear e um enorme território conectando Europa e Ásia. A Índia procura construir sua própria posição industrial e tecnológica, os países do Golfo utilizam capital e energia para ampliar sua influência, a União Europeia transforma o tamanho de seu mercado em poder regulatório e os Estados Unidos combinam capacidade militar, financeira, tecnológica e monetária.
Nesse ambiente, o Brasil precisa aprender a transformar seus próprios ativos em instrumentos de influência. O país é uma das maiores potências agrícolas do mundo, possui enorme disponibilidade de água doce, território, biodiversidade e energia renovável, além de reservas minerais relevantes para a transição energética. Está geograficamente distante dos principais conflitos militares do planeta, mantém relações diplomáticas diversificadas e participa simultaneamente de organizações associadas ao Ocidente e ao Sul Global.
O problema brasileiro nunca foi uma ausência completa de recursos de poder, mas a dificuldade de convertê-los em uma estratégia internacional de longo prazo. Participar ativamente da transformação da governança global permitiria colocar temas de interesse brasileiro no centro das negociações, entre eles segurança alimentar, financiamento climático, reforma das instituições financeiras, combate à pobreza, infraestrutura, transição energética, tributação internacional, regulação da inteligência artificial e maior representação do Sul Global.
Essa perspectiva também permite escapar de uma armadilha recorrente no debate brasileiro, que transforma disputas geopolíticas em escolhas ideológicas domésticas. Aproximar-se dos Estados Unidos passa a ser interpretado por alguns como submissão a Washington, enquanto aprofundar relações com a China é apresentado por outros como adesão a Pequim e manter canais com Moscou torna-se automaticamente uma declaração de apoio ao governo russo. Uma política externa baseada nos interesses permanentes do país não pode depender dessa lógica.
A China continuará sendo uma potência central independentemente de quem governe o Brasil. Os Estados Unidos continuarão fundamentais, a Europa permanecerá importante, a Índia provavelmente aumentará seu peso e a África deverá adquirir importância crescente. O BRICS continuará sendo um espaço relevante em alguma configuração, enquanto novas instituições, mecanismos financeiros e coalizões deverão surgir à medida que a distribuição do poder mundial se modifica.
A aproximação entre China e Rússia precisa ser observada nesse contexto mais amplo. Sua importância não decorre da formação de uma aliança perfeita capaz de substituir imediatamente a ordem liderada pelos Estados Unidos, mas do fato de revelar que as regras do sistema internacional voltaram a ser objeto de disputa. As próprias diferenças entre Pequim e Moscou mostram que o mundo que está surgindo provavelmente será mais fragmentado, negociado e competitivo do que a divisão relativamente rígida em blocos que marcou grande parte do século XX.
Esse cenário cria riscos para países de poder intermediário, mas também amplia oportunidades para aqueles capazes de manter relações com diversos polos. O Brasil possui população, economia, território, recursos naturais, tradição diplomática e posição internacional suficientes para participar dessa transformação de maneira relevante, desde que compreenda que autonomia não significa distância, e sim presença ativa sem alinhamento automático.
As novas instituições, corredores comerciais, mecanismos financeiros, padrões tecnológicos e coalizões políticas estão sendo construídos agora. Depois de consolidados, será muito mais difícil modificá-los. Por isso, a discussão sobre a nova governança global não deveria ser reduzida à escolha entre apoiar China, Rússia ou Estados Unidos. Para o Brasil, a questão realmente importante é garantir que, quando as grandes potências negociarem as regras do mundo que vem pela frente, o país tenha influência suficiente para não apenas recebê-las prontas, mas participar de sua construção.
Pós-Doutor em Competitividade Territorial e Indústrias Criativas, pelo Dinâmia – Centro de Estudos da Mudança Socioeconómica, do Instituto Superior de Ciencias do Trabalho e da Empresa (ISCTE, Lisboa, Portugal). Doutor em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (2007). É Diretor Executivo do Mapa Mundi. ORCID https://orcid.org/0000-0003-1484-395X