ISSN 2674-8053 | Receba as atualiza√ß√Ķes dos artigos no Telegram: https://t.me/mapamundiorg

Os BRICS como um ensaio para o novo Bretton Woods

Foto: Divulgação/The Economist

2015 √© um ano potencialmente importante para o posicionamento internacional brasileiro, foi quando foi criado o Novo Banco de Desenvolvimento (https://www.ndb.int/) pelos pa√≠ses formados do BRICS (Brasil, R√ļssia, √ćndia, China e √Āfrica do Sul). O Banco veio como uma alternativa aos j√° consolidados Banco Mundial (https://www.worldbank.org/en/who-we-are/ibrd) e Banco Interamericano de Desenvolvimento (https://www.iadb.org/pt/sobre-o-bid/visao-geral). Ainda que o primeiro tamb√©m esteja sob forte influ√™ncia europeia, ambos est√£o numa esfera de controle dos Estados Unidos.

Em termos gerais, o Banco dos BRICS se foca no apoio ao desenvolvimento de obras estruturais, especialmente ligadas à infraestrutura. Por outro lado, tem também uma função política importante, ao mostrar ao mundo que os países dos BRICS estão dispostos a injetar recursos no Banco para que, na sequência, sejam redistribuídos aos países do grupo. Com isso, mostram uma disposição para cooperar e construir alternativas.

Agora o Banco entra numa nova fase, na qual novos pa√≠ses acionistas poder√£o se juntar. Cada pa√≠s-membro poder√° convidar at√© tr√™s novos acionistas, o que indica a vontade de crescimento pol√≠tico da proposta. A entrada de novos membros, mesmo n√£o fazendo parte do BRICS, faz com participem de forma ativa numa nova estrutura de poder internacional. Ainda √© cedo para dizer quais pa√≠ses querer√£o se juntar, mas est√° ficando claro que o movimento n√£o √© resumido a apenas essas tr√™s indica√ß√Ķes iniciais.

Num momento de aumento das tens√Ķes globais em torno do macro-modelo de poder a prevalecer nas rela√ß√Ķes internacionais, todos esses movimentos s√£o ensaios de ordena√ß√Ķes. Os europeus est√£o fechados em seus desafios internos, buscando a manuten√ß√£o do bloco, de forma a evitarem grandes engajamentos internacionais que podem levar a diferen√ßas de posi√ß√Ķes entre seus membros. Os Estados Unidos, por sua vez, t√™m apresentado uma lideran√ßa internacional err√°tica nos √ļltimos anos. A China tem ensaiado uma retomada de sua relev√Ęncia global h√° anos e agora parece mais confiante em defender o que acredita ser o seu papel no mundo.

O resultado √© o ensaio de uma estrutura global em que Estados Unidos lideram o modelo vigente e China se esfor√ßa para construir um modelo alternativo. N√£o chegaria a afirmar que viveremos uma nova Guerra Fria, s√≥ que com a substitui√ß√£o de um dos oponentes. Mas podemos dizer que vivemos um novo Bretton Woods (https://www.ipea.gov.br/desafios/index.php?option=com_content&view=article&id=2247:catid=28&Itemid=23), na medida em que est√° aparecendo a oportunidade de recria√ß√£o de um esfor√ßo de estrutura√ß√£o do sistema pol√≠tico-econ√īmico global. Tens√Ķes militares latentes que podem desembocar em uma guerra propriamente dita parece improv√°vel no momento, mas o enfraquecimento de institui√ß√Ķes moldadoras da realidade internacional e o surgimento de outras mostram esse movimento em potencial.

BRICS e o Novo Banco de Desenvolvimento certamente n√£o s√£o institui√ß√Ķes capazes de moldar uma nova estrutura de poder internacional, j√° que teriam que ser capazes de substituir as ainda importantes (ainda que decadentes em termos de capacidade de organiza√ß√£o das rela√ß√Ķes internacionais) ONU e OMC. No entanto, s√£o ensaios de proje√ß√£o de poder e que podem indicar o caminho para esse rearranjo global.

O Brasil est√° em uma posi√ß√£o de vantagem neste debate por ser um membro original dos BRIC (que tem o S da √Āfrica do Sul anexado quase 10 anos depois do conceito). No momento, estamos desperdi√ßando essa vantagem e n√£o dar a real import√Ęncia ao grupo, transformando-o em um dos pilares reais de nossa pol√≠tica externa. Se n√£o acordarmos logo para isso, poder√° ser tarde demais.

Rodrigo Cintra
P√≥s-Doutor em Competitividade Territorial e Ind√ļstrias Criativas, pelo Din√Ęmia ‚Äď Centro de Estudos da Mudan√ßa Socioecon√≥mica, do Instituto Superior de Ciencias do Trabalho e da Empresa (ISCTE, Lisboa, Portugal). Doutor em Rela√ß√Ķes Internacionais pela Universidade de Bras√≠lia (2007). √Č Diretor Executivo do Mapa Mundi. ORCID https://orcid.org/0000-0003-1484-395X