
A aproximação entre China, Rússia, Irã e um conjunto crescente de países da Ásia, África e América Latina não é apenas uma soma de acordos bilaterais dispersos. Ela revela a tentativa de construção de um eixo político e econômico alternativo à ordem internacional liderada pelos Estados Unidos desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Ainda que esse movimento não se apresente como uma aliança formal nos moldes da Guerra Fria, seus contornos indicam a formação de um campo de cooperação estratégica que desafia, direta ou indiretamente, a hegemonia americana.
O símbolo mais visível dessa articulação é a expansão do grupo dos BRICS. Originalmente formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, o bloco passou a incorporar novos membros do Oriente Médio e da África, ampliando seu peso energético e demográfico. Arábia Saudita, Irã e Emirados Árabes Unidos, por exemplo, reforçam o peso do grupo no mercado global de petróleo. A entrada desses países sinaliza uma convergência que ultrapassa o comércio e alcança a coordenação política.
A China ocupa posição central nesse rearranjo. Sua estratégia combina financiamento de infraestrutura, acordos comerciais e investimentos em setores estratégicos. Portos no Paquistão, ferrovias na África Oriental, projetos energéticos na América Latina e redes digitais no Sudeste Asiático compõem uma malha que amplia sua influência econômica. Para muitos países do chamado Sul Global, essa presença é vista como alternativa ao modelo tradicional de financiamento ocidental, frequentemente condicionado a reformas políticas e exigências institucionais.
A Rússia, pressionada por sanções ocidentais, intensificou sua aproximação com parceiros asiáticos e africanos. Moscou ampliou exportações de energia para China e Índia, fortaleceu acordos militares em regiões do Sahel e consolidou cooperação estratégica com o Irã. Esse movimento não apenas reduz o impacto das restrições impostas por Washington e Bruxelas, mas também contribui para a formação de circuitos econômicos menos dependentes do dólar.
O Irã, historicamente isolado por sanções, encontrou nesse ambiente uma oportunidade de reinserção parcial. A cooperação energética com a China, a parceria militar com a Rússia e a aproximação com países latino-americanos como a Venezuela integram uma estratégia de sobrevivência e projeção internacional. Teerã passa a atuar como elo entre Oriente Médio, Eurásia e América Latina dentro dessa rede emergente.
Na África, governos buscam diversificar alianças. Países como Etiópia, Egito e Nigéria equilibram relações com China, Rússia, Europa e Estados Unidos. A lógica não é necessariamente antiamericana, mas pragmática: ampliar margem de negociação e reduzir dependências unilaterais. A competição entre grandes potências cria espaço para barganha política e econômica.
A Índia representa um caso particular. Embora membro dos BRICS e parceira histórica da Rússia, Nova Délhi mantém relações estratégicas profundas com os Estados Unidos, especialmente no contexto do Indo-Pacífico. Sua postura demonstra que o eixo emergente não é homogêneo. Trata-se mais de uma convergência de interesses do que de uma aliança ideológica rígida.
Outro elemento central desse movimento é a tentativa de reduzir a centralidade do dólar no comércio internacional. A ampliação de transações em moedas locais, acordos bilaterais de compensação e discussões sobre sistemas financeiros alternativos refletem o desejo de mitigar a vulnerabilidade a sanções americanas. Embora o dólar continue dominante, a simples busca por alternativas já indica mudança estrutural na percepção de risco.
Do ponto de vista de Washington, esse rearranjo representa desafio estratégico de longo prazo. A liderança americana sempre se apoiou em três pilares: superioridade militar, centralidade financeira e capacidade de formar alianças amplas. O fortalecimento de mecanismos paralelos no Sul Global pressiona especialmente o pilar financeiro e diplomático.
Entretanto, o eixo emergente enfrenta limitações. Diferenças históricas, disputas regionais e assimetrias econômicas dificultam coordenação plena. China e Índia competem por influência na Ásia; Rússia e China mantêm relação marcada por cautela estratégica; países africanos evitam alinhamentos automáticos. A ausência de uma estrutura institucional robusta também reduz a coesão do bloco.
Ainda assim, a tendência aponta para um sistema internacional mais fragmentado e multipolar. Em vez de um confronto direto entre dois blocos ideológicos, observa-se uma rede de cooperação flexível, orientada por interesses nacionais e resistência a pressões unilaterais. O Sul Global não se organiza necessariamente para confrontar os Estados Unidos militarmente, mas para ampliar autonomia e reduzir dependência.
Esse processo redefine o conceito de hegemonia. A influência deixa de ser medida apenas por presença militar e passa a incluir capacidade de financiamento, controle tecnológico e domínio de cadeias produtivas. Infraestrutura digital, energia, minerais críticos e rotas comerciais tornam-se instrumentos centrais dessa disputa silenciosa.
O eixo emergente do Sul Global não anuncia o fim da liderança americana, mas sinaliza que o monopólio de influência do pós-Guerra Fria está sendo gradualmente substituído por uma ordem mais distribuída. A questão central não é se haverá substituição de hegemonia, mas como se dará a convivência entre múltiplos centros de poder em um sistema internacional cada vez mais interdependente e competitivo.
Pós-Doutor em Competitividade Territorial e Indústrias Criativas, pelo Dinâmia – Centro de Estudos da Mudança Socioeconómica, do Instituto Superior de Ciencias do Trabalho e da Empresa (ISCTE, Lisboa, Portugal). Doutor em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (2007). É Diretor Executivo do Mapa Mundi. ORCID https://orcid.org/0000-0003-1484-395X
