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O novo cerco ocidental no Indo-Pacífico reorganiza o tabuleiro geopolítico da Ásia

A presença militar do Ocidente na região Ásia-Pacífico vem se intensificando de maneira estratégica e silenciosa. Em vez de repetir o modelo clássico da Guerra Fria, baseado em alianças rígidas e compromissos mútuos de defesa, os Estados Unidos, a OTAN e a União Europeia têm apostado numa nova arquitetura de segurança: um emaranhado de parcerias bilaterais e grupos minilaterais, com formatos flexíveis e objetivos de curto prazo. Essa estrutura, conhecida nos meios diplomáticos como “arquitetura de segurança de baixa geometria”, busca conter o avanço da China e da Rússia na região, enquanto reconfigura o equilíbrio de forças do Indo-Pacífico com base em coalizões ad hoc e cooperações militares fragmentadas.

Esse modelo de “baixa geometria” rompe com os padrões institucionais tradicionais que marcaram o século XX. Ele não parte de tratados multilaterais amplos nem exige o comprometimento irrestrito dos membros. Em vez disso, cada país se engaja conforme suas conveniências estratégicas em temas específicos: exercícios navais conjuntos, patrulhamento marítimo, compartilhamento de inteligência ou transferência de tecnologias militares. O objetivo não é criar uma OTAN asiática, mas sim uma rede dinâmica de parcerias capazes de responder com rapidez a possíveis movimentos de Pequim e Moscou.

Nos últimos anos, exemplos desse novo arranjo se multiplicaram. A aliança AUKUS — formada por Austrália, Reino Unido e Estados Unidos — foi estruturada para equipar a marinha australiana com submarinos de propulsão nuclear, reforçando a vigilância sobre o mar do Sul da China. O Diálogo de Segurança Quadrilateral (QUAD), que reúne EUA, Japão, Austrália e Índia, intensificou a coordenação estratégica em torno de temas como segurança marítima e resiliência tecnológica. Em 2025, um novo eixo começou a se formar entre Estados Unidos, Japão, Austrália e Filipinas, com foco explícito na dissuasão militar frente à China, especialmente em áreas próximas ao estreito de Taiwan.

Além das iniciativas americanas, a OTAN tem expandido seus vínculos na região. Mesmo sem bases permanentes no Indo-Pacífico, a aliança atlântica tem aprofundado seu diálogo político e cooperação técnica com países como Coreia do Sul, Japão e Austrália. O objetivo é reforçar a interoperabilidade entre forças armadas, padronizar tecnologias e construir cenários de atuação conjunta, ainda que sem compromisso de defesa mútua. Paralelamente, a União Europeia tem se inserido como ator secundário, apoiando missões de monitoramento, firmando acordos de cibersegurança e promovendo programas de capacitação estratégica, sempre com foco em contenção e dissuasão.

Esse conjunto de movimentos, apesar de fragmentado, forma uma teia que está reorganizando o equilíbrio estratégico do Indo-Pacífico. Países que historicamente cultivavam uma política externa independente, como Indonésia, Vietnã ou Tailândia, têm sido cada vez mais pressionados a escolher lados ou a integrar iniciativas voltadas à contenção da China. Ao mesmo tempo, o aumento do número de exercícios militares conjuntos e o crescimento das frotas navais ocidentais na região contribuem para a militarização acelerada de zonas já marcadas por disputas marítimas e rivalidades territoriais.

O impacto regional desse novo modelo de segurança não se limita à esfera militar. Ao gerar sobreposição de estruturas, agendas e mandatos, a arquitetura de baixa geometria também pode provocar desorganização estratégica e instabilidade. A ausência de um comando unificado ou de diretrizes comuns entre os diferentes blocos dificulta a articulação coerente das respostas, abrindo margem para erros de cálculo e mal-entendidos em situações de crise. Essa fragmentação, longe de pacificar a região, pode tornar mais difícil a gestão de conflitos emergentes.

Como resposta, tanto a China quanto a Rússia têm buscado reforçar suas próprias estratégias de contenção. Moscou intensificou a cooperação militar com Pequim, promovendo exercícios navais conjuntos e ampliando o intercâmbio de inteligência. A China, por sua vez, propõe uma arquitetura alternativa baseada em princípios asiáticos, acusando o Ocidente de tentar recriar blocos excludentes e exportar uma lógica de confronto típica da Guerra Fria. A proposta chinesa defende uma segurança “indivisível”, construída a partir do diálogo entre os próprios países asiáticos e afastada de interferências externas.

Diversos países do Sudeste Asiático, especialmente os membros da ASEAN, resistem à ideia de se alinhar completamente com um dos lados. Valorizando sua autonomia e a via diplomática, essas nações preferem manter uma postura de não alinhamento ativo, buscando equilibrar as relações com China, Rússia e Ocidente. No entanto, mesmo entre os mais neutros, cresce a percepção de que a escalada de rivalidades pode colocá-los no centro de uma disputa geopolítica cada vez mais polarizada.

A iniciativa ocidental de consolidar uma arquitetura de segurança flexível no Indo-Pacífico representa, portanto, um esforço de longo prazo para reconfigurar a ordem mundial. Não se trata apenas de conter a ascensão militar da China ou neutralizar a influência da Rússia. Trata-se de disputar o modelo de governança internacional que irá prevalecer nas próximas décadas. Contudo, ao buscar essa reconfiguração com instrumentos fluidos, improvisados e não institucionalizados, o Ocidente também corre o risco de gerar instabilidade, fragmentação e imprevisibilidade — especialmente numa das regiões mais dinâmicas e tensionadas do planeta.

O futuro da Ásia-Pacífico pode estar menos em alianças formais e mais em redes táticas. Mas, como em toda rede, o risco é que uma conexão mal calibrada leve a um curto-circuito. E no atual ambiente geopolítico, esse curto-circuito pode ter repercussões globais.

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