
O redesenho da arquitetura de segurança no Indo-Pacífico, liderado principalmente pelos Estados Unidos e seus aliados, tem colocado potências médias da região diante de uma encruzilhada estratégica. Na medida em que o ambiente geopolítico se polariza entre blocos rivais — de um lado, o Ocidente organizado em alianças flexíveis de “baixa geometria” e, de outro, a contra-arquitetura sino-russa — países como Índia, Indonésia, Vietnã, Coreia do Sul, Malásia e Filipinas enfrentam uma pressão crescente para se posicionar. O antigo espaço para políticas externas multivetoriais, que equilibravam pragmatismo econômico e autonomia política, vem se estreitando diante da exigência de alinhamentos cada vez mais explícitos.
Essas potências médias exercem papel estratégico por diferentes razões: localização geográfica em áreas sensíveis, capacidade militar considerável, economias em expansão e influência política regional. No entanto, seu poder relativo não as blinda das consequências da crescente bipolarização. Ao contrário, sua importância as torna alvo direto das disputas por influência entre Washington e Pequim, entre Bruxelas e Moscou, entre Tóquio e Pyongyang. O resultado é um ambiente em que as margens de manobra para a neutralidade estratégica diminuem, e o custo do não-alinhamento se torna cada vez mais alto.
A Índia talvez seja o caso mais ilustrativo desse dilema. Membro do QUAD — uma aliança informal com Estados Unidos, Japão e Austrália —, o país participa ativamente de exercícios militares conjuntos e reforça a retórica de liberdade de navegação no Indo-Pacífico. Ao mesmo tempo, mantém laços estreitos com a Rússia, inclusive no campo da defesa, de onde importa a maior parte de seus armamentos estratégicos. Também evita criticar frontalmente a China, mesmo com a rivalidade intensa que os dois países mantêm ao longo da fronteira do Himalaia. Para Nova Délhi, o desafio é articular sua ascensão como potência global sem se tornar instrumento de blocos externos — mas o equilíbrio entre cooperação com o Ocidente e autonomia geopolítica se torna cada vez mais instável.
A Indonésia, por sua vez, historicamente avessa a alianças militares, tem reafirmado sua posição de não-alinhamento, mas sofre pressões crescentes para participar de esquemas de segurança coordenados. Sua localização, entre o oceano Índico e o mar do Sul da China, a transforma em ponto-chave para as rotas comerciais e para as projeções navais dos EUA e da China. Embora o governo indonésio participe de fóruns regionais como o ASEAN Defence Ministers’ Meeting-Plus (ADMM+), evita compromissos com exercícios militares ocidentais ou chineses, e aposta na diplomacia como principal ferramenta de contenção. Ainda assim, analistas indicam que a pressão externa para que Jacarta “escolha um lado” tende a crescer, especialmente se confrontos no mar do Sul da China se intensificarem.
O Vietnã ilustra um terceiro caso: o de um país que, mesmo com histórico de resistência ao imperialismo, hoje se vê cada vez mais próximo dos Estados Unidos, por conta da disputa territorial com a China no mar do Sul da China. O país fortaleceu acordos de defesa com Washington e Tóquio, modernizou suas forças navais com apoio externo e diversificou sua cooperação militar. Ao mesmo tempo, mantém vínculos históricos com Moscou e evita hostilidades abertas com Pequim. Esse movimento de reequilíbrio estratégico permite ao Vietnã aumentar sua margem de defesa, mas também o insere, gradualmente, na órbita de alianças que limitam sua autonomia diplomática.
A Coreia do Sul enfrenta outro tipo de tensão. Embora seja formalmente aliada dos EUA, sua relação com a China é vital para sua economia, e suas políticas em relação ao Indo-Pacífico refletem esse equilíbrio delicado. Recentemente, Seul tem aprofundado sua participação em exercícios conjuntos com EUA e Japão, voltados para a contenção da Coreia do Norte, mas também percebidos por Pequim como parte da estratégia americana de contenção à China. Ao mesmo tempo, o governo sul-coreano tem resistido a aderir a alianças explícitas contra a China, demonstrando que seu compromisso com a segurança não exclui a necessidade de relações comerciais e diplomáticas funcionais com seus vizinhos.
Esse mesmo padrão se repete em países como Malásia, Filipinas e Tailândia. A Malásia, embora crítica à militarização da região, participa de diálogos de defesa com o Ocidente e busca modernizar suas capacidades marítimas. As Filipinas, após anos de ambivalência sob governos anteriores, realinharam-se aos EUA em 2023, reabrindo bases militares americanas e participando de exercícios conjuntos, sobretudo por conta das disputas no mar do Sul da China. A Tailândia, tradicional aliada dos EUA, tem, nos últimos anos, fortalecido laços econômicos e diplomáticos com a China, mantendo uma posição de equilíbrio pragmático.
O dilema enfrentado por essas potências médias não é apenas geopolítico, mas também interno. Em muitos desses países, setores das elites militares e econômicas preferem um alinhamento mais claro com o Ocidente, enquanto outros segmentos — políticos, nacionalistas ou empresariais — defendem relações mais próximas com a China ou a Rússia, seja por razões ideológicas, seja por interesses comerciais. A política externa, nesse contexto, torna-se campo de disputa entre visões distintas de inserção internacional, nem sempre resolvidas de forma linear.
O risco dessa crescente polarização estratégica é o colapso da autonomia regional. A pressão por alinhamentos pode desestruturar iniciativas multilaterais autônomas, como a ASEAN, e comprometer a capacidade dos países asiáticos de mediar conflitos ou propor soluções regionais. Além disso, a divisão entre campos rivais pode aprofundar rivalidades locais e transformar disputas bilaterais em peças de um xadrez geopolítico maior — com consequências que escapam ao controle dos próprios atores envolvidos.
Nesse cenário, potências médias tornam-se não apenas campo de disputa, mas também peças fundamentais na construção ou no colapso da estabilidade regional. Sua escolha — ou recusa — de alinhamento pode redefinir o equilíbrio do Indo-Pacífico e determinar se a região se tornará uma arena de confronto entre grandes potências ou um espaço de pluralidade estratégica capaz de conter tensões por meio do diálogo.
O destino dessas nações, portanto, não depende apenas de suas escolhas soberanas, mas também da habilidade dos blocos em disputa de respeitar — ou de tentar dobrar — a vontade dos que preferem não ser arrastados para um novo tipo de guerra fria.
Pós-Doutor em Competitividade Territorial e Indústrias Criativas, pelo Dinâmia – Centro de Estudos da Mudança Socioeconómica, do Instituto Superior de Ciencias do Trabalho e da Empresa (ISCTE, Lisboa, Portugal). Doutor em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (2007). É Diretor Executivo do Mapa Mundi. ORCID https://orcid.org/0000-0003-1484-395X
