
Terras raras e minerais críticos tornaram-se o eixo silencioso da nova disputa global por poder, desenvolvimento e soberania tecnológica. Muito além de insumos industriais, esses recursos passaram a definir a capacidade de países produzirem semicondutores, carros elétricos, turbinas eólicas, equipamentos militares e sistemas de comunicação avançados. Em um mundo que acelera a transição energética e digital, o controle sobre lítio, cobalto, níquel, grafite e os 17 elementos conhecidos como terras raras tornou-se tão estratégico quanto o petróleo foi no século XX.
A expressão “terras raras” pode sugerir escassez absoluta, mas o termo é enganoso. Esses elementos não são necessariamente raros na crosta terrestre; o desafio está em encontrá-los em concentrações economicamente viáveis e, sobretudo, em dominarem-se as etapas de refino e processamento, que exigem tecnologia sofisticada e geram impactos ambientais significativos. Já os chamados minerais críticos variam conforme o país e sua estratégia industrial. Para os Estados Unidos, incluem lítio, cobalto e terras raras. Para a União Europeia, a lista é mais ampla. Para a China, a criticidade é definida pela dependência externa e pelo valor agregado na cadeia produtiva.
Sob a perspectiva geopolítica, esses recursos redefinem alianças e rivalidades. A China ocupa posição central nesse tabuleiro. O país não apenas concentra reservas relevantes de terras raras, como também domina mais de 80% da capacidade global de processamento desses elementos. Foi uma decisão estratégica iniciada ainda nos anos 1990, quando Pequim optou por aceitar os custos ambientais da mineração e do refino, enquanto países ocidentais fechavam suas minas por razões econômicas e ambientais. Ao longo de três décadas, a China construiu um ecossistema industrial integrado que vai da extração à fabricação de ímãs permanentes essenciais para motores elétricos e sistemas militares.
Essa concentração tornou-se instrumento de pressão diplomática. Em 2010, durante uma disputa territorial com o Japão no Mar do Sul da China, Pequim restringiu exportações de terras raras para Tóquio, sinalizando que a dependência poderia ser explorada politicamente. O episódio foi um alerta para países industrializados. Desde então, Estados Unidos, Japão, Austrália e União Europeia passaram a investir na diversificação de fornecedores e no desenvolvimento de cadeias alternativas.
A Austrália emergiu como ator relevante com grandes reservas e projetos de mineração apoiados por capital ocidental. O Japão investiu em tecnologia de reciclagem e firmou parcerias com produtores africanos. A Índia, por sua vez, começou a revisar sua política mineral para reduzir dependências externas e ampliar sua inserção nas cadeias globais de valor. Mesmo países do Sudeste Asiático, como Vietnã e Malásia, ganharam destaque como potenciais polos de processamento.
Na África, a geopolítica dos minerais críticos assume contornos próprios. A República Democrática do Congo responde por mais de 70% da produção mundial de cobalto, insumo essencial para baterias. O Zimbábue e a Namíbia avançam na exploração de lítio. Moçambique tornou-se relevante no grafite. Esses países estão no centro de uma nova corrida por influência que envolve empresas chinesas, europeias e norte-americanas. Pequim consolidou presença por meio de investimentos em infraestrutura e acordos de longo prazo. Ao mesmo tempo, Washington e Bruxelas tentam oferecer alternativas, enfatizando padrões ambientais e governança mais rigorosos.
A América Latina também ocupa posição estratégica. O chamado “triângulo do lítio”, formado por Argentina, Bolívia e Chile, concentra algumas das maiores reservas do mundo. O Chile, com modelo mais aberto ao investimento estrangeiro, tornou-se um dos principais exportadores globais. A Bolívia, que optou por um modelo mais estatizante, enfrentou dificuldades tecnológicas e políticas para transformar reservas em produção em larga escala. A Argentina tem atraído empresas asiáticas e ocidentais, numa dinâmica que mistura oportunidades econômicas e disputas regulatórias internas. O Brasil, além de possuir reservas de nióbio e grafite, começa a explorar seu potencial em terras raras e lítio, buscando inserir-se numa cadeia de maior valor agregado.
A geopolítica desses minerais não se limita à disputa entre grandes potências. Ela envolve também o controle de rotas marítimas, a proteção de cadeias logísticas e a definição de padrões tecnológicos. O estreito de Malaca, por onde passa grande parte do comércio asiático, torna-se ainda mais sensível quando se considera o fluxo de insumos estratégicos. A crescente militarização do Indo-Pacífico está conectada, ainda que indiretamente, à proteção de cadeias produtivas críticas.
Do ponto de vista da geoeconomia, o tema é igualmente transformador. O poder não deriva apenas da posse das reservas, mas da capacidade de capturar valor nas etapas mais lucrativas da cadeia. A mineração representa uma fração relativamente pequena do valor final de um carro elétrico ou de um smartphone. O maior ganho está no processamento, na fabricação de componentes e no domínio tecnológico. É nesse ponto que a China consolidou vantagem competitiva, enquanto muitos países ricos em recursos permanecem presos à exportação de matéria-prima.
A transição energética acelera essa dinâmica. Um carro elétrico pode demandar seis vezes mais minerais do que um veículo convencional. Uma turbina eólica offshore utiliza grandes quantidades de terras raras para seus ímãs permanentes. A expansão de redes elétricas e sistemas de armazenamento aumenta a demanda por cobre, lítio e níquel. A Agência Internacional de Energia projeta que a procura por esses minerais pode multiplicar-se nas próximas décadas, caso metas climáticas sejam mantidas.
Esse cenário cria oportunidades e riscos. Países produtores podem usar a demanda crescente como alavanca para renegociar contratos e exigir maior processamento local. A Indonésia oferece exemplo claro. Rica em níquel, essencial para baterias, Jacarta proibiu a exportação do minério bruto e obrigou empresas estrangeiras a investir em plantas de refino no país. A medida foi contestada por parceiros comerciais, mas elevou a participação indonésia na cadeia de valor. Ao mesmo tempo, aumentou a dependência global de um único fornecedor em um mercado específico.
Na Arábia Saudita, tradicional potência petrolífera, há esforços para diversificar a economia investindo em mineração de minerais críticos. A estratégia busca preparar o país para um mundo menos dependente de combustíveis fósseis. Nos Emirados Árabes Unidos, fundos soberanos têm investido em projetos minerais na África e na Ásia Central, combinando geoeconomia e diplomacia.
A União Europeia tenta reduzir vulnerabilidades por meio de uma política industrial mais ativa, com incentivos à produção local de baterias e à reciclagem de metais estratégicos. A França e a Alemanha apoiam projetos na África, enquanto desenvolvem tecnologia para reaproveitamento de materiais. Nos Estados Unidos, a legislação recente direciona bilhões de dólares para fortalecer cadeias domésticas de semicondutores e baterias, condicionando subsídios à origem dos minerais.
A reciclagem surge como dimensão central da geoeconomia dos minerais críticos. Japão e Coreia do Sul investem fortemente em reaproveitamento de componentes eletrônicos, reduzindo dependência de importações. Empresas chinesas também avançam nesse segmento, integrando mineração urbana ao modelo industrial. Essa tendência pode alterar a correlação de forças no médio prazo, especialmente se novas tecnologias reduzirem a necessidade de determinados elementos.
Outro fator relevante é a inovação tecnológica. Pesquisas em baterias de estado sólido, alternativas ao cobalto e substituição de terras raras em motores elétricos podem redesenhar a importância relativa de certos minerais. Países que dominarem essas inovações terão vantagem não apenas industrial, mas estratégica. A corrida tecnológica, portanto, caminha lado a lado com a corrida por recursos naturais.
Ao mesmo tempo, cresce o debate sobre sustentabilidade e justiça social. A mineração de cobalto no Congo frequentemente envolve condições de trabalho precárias. A extração de lítio consome grandes volumes de água em regiões áridas da América do Sul. Comunidades locais questionam os impactos ambientais e exigem maior participação nos benefícios econômicos. Esses fatores influenciam decisões de investimento e reputação internacional, tornando a governança um componente essencial da geoeconomia mineral.
A disputa por terras raras e minerais críticos evidencia uma mudança estrutural no sistema internacional. O poder econômico e militar passa a depender da capacidade de integrar cadeias produtivas complexas e resilientes. Não se trata apenas de garantir acesso a recursos, mas de construir ecossistemas industriais, dominar tecnologia e estabelecer parcerias estratégicas.
Assim como o petróleo moldou alianças, guerras e estratégias ao longo do século XX, os minerais críticos moldam o século XXI. A diferença é que, agora, a interdependência é mais profunda e a competição ocorre simultaneamente nos campos da diplomacia, da indústria, da tecnologia e do meio ambiente. Países que compreenderem essa nova equação e agirem de forma coordenada terão maior capacidade de influenciar os rumos da economia global e do equilíbrio de poder nas próximas décadas.
Pós-Doutor em Competitividade Territorial e Indústrias Criativas, pelo Dinâmia – Centro de Estudos da Mudança Socioeconómica, do Instituto Superior de Ciencias do Trabalho e da Empresa (ISCTE, Lisboa, Portugal). Doutor em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (2007). É Diretor Executivo do Mapa Mundi. ORCID https://orcid.org/0000-0003-1484-395X
