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Autor: Rodrigo Cintra

Pós-Doutor em Competitividade Territorial e Indústrias Criativas, pelo Dinâmia – Centro de Estudos da Mudança Socioeconómica, do Instituto Superior de Ciencias do Trabalho e da Empresa (ISCTE, Lisboa, Portugal). Doutor em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (2007). É Diretor Executivo do Mapa Mundi. ORCID https://orcid.org/0000-0003-1484-395X
Democracias sob pressão e o esgotamento silencioso da representação
África, Américas, Ásia, Europa, França, Nigéria, Reino Unido, Tailândia

Democracias sob pressão e o esgotamento silencioso da representação

A democracia do século XXI enfrenta uma crise que não se anuncia por tanques nas ruas ou discursos autoritários evidentes. O desgaste atual é silencioso, cotidiano e estrutural. Ele se manifesta na ruptura gradual do pacto social, no descrédito generalizado das instituições políticas, na fragmentação das identidades coletivas e na fadiga das narrativas que antes sustentavam a legitimidade dos regimes representativos. Essa corrosão, que ocorre tanto em democracias consolidadas quanto em regimes mais jovens, revela não apenas falhas conjunturais, mas a exaustão de um modelo político cujos mecanismos de mediação parecem cada vez mais incapazes de responder aos anseios sociais. A primeira camada dessa crise está na desigualdade. Não apenas a disparidade de renda, mas a desigualdade de expec...
Valores em disputa e o retorno dos particularismos
África, Ásia, China, Europa, Irã, OMC, ONU, Organizações Internacionais, Oriente Médio, Paquistão, Rússia, Sebegal, Uganda

Valores em disputa e o retorno dos particularismos

A ideia de que certos valores — como direitos humanos, democracia liberal e racionalidade científica — seriam universais e aplicáveis a todas as sociedades está sendo crescentemente desafiada por governos, movimentos e intelectuais em várias partes do mundo. A noção de universalismo, outrora sustentada como base moral da ordem internacional pós-Segunda Guerra Mundial, enfrenta uma contraofensiva discursiva e institucional que recoloca o particularismo cultural, religioso, nacional e civilizacional no centro das disputas globais. Essa inflexão não é apenas retórica: ela impacta diretamente o funcionamento das instituições multilaterais, a cooperação internacional e o próprio conceito de convivência entre diferentes modelos de sociedade. A emergência de narrativas alternativas ao universa...
O que quer a Índia no cenário internacional?
Ásia, Índia

O que quer a Índia no cenário internacional?

Entre as potências emergentes do século XXI, a Índia ocupa uma posição única. É a maior democracia do mundo, um dos países mais populosos, possui armas nucleares, economia em rápido crescimento, forte base tecnológica e um histórico de política externa marcada pela autonomia. Mas ao contrário da China, que busca rivalizar diretamente com os Estados Unidos, ou da Rússia, que confronta abertamente o Ocidente, a Índia adota uma estratégia mais ambígua e flexível. A pergunta que mobiliza analistas internacionais é: o que exatamente quer a Índia no sistema global? A resposta passa, antes de tudo, por entender a tradição diplomática indiana. Desde a independência, em 1947, a Índia construiu sua política externa com base no princípio do não alinhamento. Durante a Guerra Fria, recusou-se a inte...
Nacionalismo em ascensão revela tendência de desglobalização
África, Alemanha, Américas, Ásia, China, Estados Unidos, Etiópia, Europa, França, Índia, Reino Unido

Nacionalismo em ascensão revela tendência de desglobalização

O mundo vem atravessando uma onda articulada de nacionalismo, que não se restringe ao Ocidente, mas ressoa também na África e na Ásia, criando uma dinâmica que aponta para uma possível reversão do processo de globalização. Se no século XX houve movimentos importantes de afirmação nacional — na Europa pós‑Guerras Mundiais, na África em busca da descolonização, e na Índia durante sua luta por independência —, agora assistimos a uma nova fase, marcada por reações às crises econômicas, insegurança cultural e temores de perda de soberania diante de fluxos migratórios, tecnologia e acordos transnacionais. Em muitos países ocidentais, o nacionalismo voltou sob uma faceta do chamado “neo‑nacionalismo”: com discursos identitários, protecionistas e anti‑globalização. Exemplos como o Brexit no Rei...
Reconfiguração do poder global em tempos de multipolaridade
Arábia Saudita, Ásia, BRICS, China, Europa, G20, Índia, Indonésia, Irã, Organizações Internacionais, Oriente Médio, Rússia

Reconfiguração do poder global em tempos de multipolaridade

A ordem internacional está passando por uma transformação profunda, na qual a centralidade dos Estados Unidos e de seus aliados europeus vem sendo gradualmente substituída por uma lógica de equilíbrio entre múltiplos polos de poder. Esse processo, mais estrutural do que conjuntural, tem como protagonistas países como China, Índia, Rússia, Arábia Saudita, Irã e Indonésia, entre outros do chamado Sul Global. A disputa pelo novo desenho do poder global extrapola a geopolítica tradicional e se materializa em esferas como cadeias produtivas, moedas, tecnologia, sistemas de governança e até mesmo na formulação de valores e visões de mundo concorrentes. A ascensão da China é um dos pilares mais visíveis desse novo cenário. Pequim não apenas expandiu sua influência econômica e diplomática, como...
Tecnologia, vigilância e controle social: o dilema do progresso
Ásia, China, Emirados Árabes Unidos, Irã, Organizações Internacionais, Oriente Médio, União Europeia

Tecnologia, vigilância e controle social: o dilema do progresso

A promessa de que a tecnologia digital promoveria liberdade, transparência e inclusão foi, em boa medida, substituída por uma realidade marcada por vigilância difusa, controle de comportamento e poder algorítmico. A expansão da inteligência artificial, a coleta massiva de dados, os sistemas automatizados de decisão e as novas formas de censura e modulação de discurso compõem uma arquitetura de controle sem precedentes, cujos efeitos se manifestam tanto em democracias quanto em regimes autoritários. Mais do que uma revolução técnica, trata-se de uma transformação estrutural na forma como o poder é exercido, distribuído e legitimado no século XXI. Em regimes autoritários, como China, Irã e Emirados Árabes Unidos, o uso de tecnologias de vigilância digital é explícito e institucionalizado....
Por que a China investe tanto fora de casa?
Ásia, China

Por que a China investe tanto fora de casa?

Nos últimos vinte anos, a China tornou-se a maior investidora mundial em infraestrutura fora de suas fronteiras. Presente em mais de 150 países, com obras que vão de portos na Grécia a ferrovias no Quênia, a expansão chinesa no exterior chama atenção não apenas pela escala, mas pela consistência estratégica. Mas afinal, por que a China investe tanto fora de casa? A resposta está em uma combinação de interesses econômicos, projeção geopolítica, segurança energética e consolidação de sua influência global. A primeira razão é econômica. A China acumula, há décadas, superávits comerciais gigantescos. Isso significa que vende muito mais do que compra, e portanto acumula enormes reservas em moeda estrangeira, especialmente em dólares. Investir esses recursos no exterior torna-se uma forma de ...
Perda de influência dos EUA reacende disputa pelos valores globais
Alemanha, Américas, Ásia, China, Estados Unidos, Europa, França, Índia, OMC, ONU, Organizações Internacionais, Países Baixos

Perda de influência dos EUA reacende disputa pelos valores globais

A perda do poder de atração dos Estados Unidos assume hoje uma dimensão crítica, sinalizando uma virada histórica na disputa pelo soft power global. Durante décadas, o estilo de vida americano, seus valores democráticos e seu modelo cultural serviram de farol para grande parte do mundo. Agora, essa posição está fragilizada — e as consequências vão além das fronteiras americanas, jogando incertezas sobre quais princípios morais e políticos dominarão no cenário mundial. A erosão do soft power dos EUA reflete um fenômeno multifacetado. Internamente, desafios econômicos crônicos como o endividamento público, a desigualdade e uma crise de representatividade política enfraqueceram a imagem de um país confiável e atraente. Internacionalmente, a ascensão de outras potências — como China, Índia ...
A proposta de tribunal especial para a Rússia e os riscos à ordem jurídica internacional
Europa, ONU, Organizações Internacionais, Rússia

A proposta de tribunal especial para a Rússia e os riscos à ordem jurídica internacional

A criação de um tribunal especial para julgar líderes russos pelo crime de agressão na Ucrânia, formalizada em junho de 2025 por meio de um acordo entre a Ucrânia e o Conselho da Europa, representa um marco jurídico e político de grandes proporções. Embora a iniciativa busque preencher lacunas legais deixadas pela jurisdição limitada do Tribunal Penal Internacional (TPI), ela também levanta preocupações significativas sobre a coerência do direito internacional, a legitimidade das instituições multilaterais e os precedentes que pode estabelecer para o futuro da ordem jurídica global. O acordo assinado em Estrasburgo por Volodymyr Zelensky e Alain Berset prevê a criação de um tribunal especial com competência para processar altos dirigentes russos, incluindo o presidente Vladimir Putin, p...
A transição climática como disputa de poder global
África, Américas, Ásia, Bolívia, Chile, China, Estados Unidos, Indonésia, Organizações Internacionais, República Democrática do Congo, Sul Global, União Europeia

A transição climática como disputa de poder global

A mudança climática já não é apenas uma emergência ambiental. Ela tornou-se um eixo estratégico que reorganiza as hierarquias de poder no sistema internacional. O que antes era tratado como tema técnico de conferências climáticas agora se impõe como campo de disputa entre Estados, empresas, blocos regionais e visões de mundo concorrentes. A transição energética e ecológica, longe de ser consenso, é palco de conflitos distributivos, negociações tensas e tentativas de reconfiguração da ordem global. No centro desse processo estão a corrida por minerais críticos, a reindustrialização verde, os impasses entre Norte e Sul sobre financiamento climático e perdas & danos, além da emergência de novas geografias políticas em torno da energia limpa. A corrida por minerais críticos — como lítio...