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Autor: Rodrigo Cintra

Pós-Doutor em Competitividade Territorial e Indústrias Criativas, pelo Dinâmia – Centro de Estudos da Mudança Socioeconómica, do Instituto Superior de Ciencias do Trabalho e da Empresa (ISCTE, Lisboa, Portugal). Doutor em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (2007). É Diretor Executivo do Mapa Mundi. ORCID https://orcid.org/0000-0003-1484-395X
Por que a China investe tanto fora de casa?
Ásia, China

Por que a China investe tanto fora de casa?

Nos últimos vinte anos, a China tornou-se a maior investidora mundial em infraestrutura fora de suas fronteiras. Presente em mais de 150 países, com obras que vão de portos na Grécia a ferrovias no Quênia, a expansão chinesa no exterior chama atenção não apenas pela escala, mas pela consistência estratégica. Mas afinal, por que a China investe tanto fora de casa? A resposta está em uma combinação de interesses econômicos, projeção geopolítica, segurança energética e consolidação de sua influência global. A primeira razão é econômica. A China acumula, há décadas, superávits comerciais gigantescos. Isso significa que vende muito mais do que compra, e portanto acumula enormes reservas em moeda estrangeira, especialmente em dólares. Investir esses recursos no exterior torna-se uma forma de ...
Perda de influência dos EUA reacende disputa pelos valores globais
Alemanha, Américas, Ásia, China, Estados Unidos, Europa, França, Índia, OMC, ONU, Organizações Internacionais, Países Baixos

Perda de influência dos EUA reacende disputa pelos valores globais

A perda do poder de atração dos Estados Unidos assume hoje uma dimensão crítica, sinalizando uma virada histórica na disputa pelo soft power global. Durante décadas, o estilo de vida americano, seus valores democráticos e seu modelo cultural serviram de farol para grande parte do mundo. Agora, essa posição está fragilizada — e as consequências vão além das fronteiras americanas, jogando incertezas sobre quais princípios morais e políticos dominarão no cenário mundial. A erosão do soft power dos EUA reflete um fenômeno multifacetado. Internamente, desafios econômicos crônicos como o endividamento público, a desigualdade e uma crise de representatividade política enfraqueceram a imagem de um país confiável e atraente. Internacionalmente, a ascensão de outras potências — como China, Índia ...
A proposta de tribunal especial para a Rússia e os riscos à ordem jurídica internacional
Europa, ONU, Organizações Internacionais, Rússia

A proposta de tribunal especial para a Rússia e os riscos à ordem jurídica internacional

A criação de um tribunal especial para julgar líderes russos pelo crime de agressão na Ucrânia, formalizada em junho de 2025 por meio de um acordo entre a Ucrânia e o Conselho da Europa, representa um marco jurídico e político de grandes proporções. Embora a iniciativa busque preencher lacunas legais deixadas pela jurisdição limitada do Tribunal Penal Internacional (TPI), ela também levanta preocupações significativas sobre a coerência do direito internacional, a legitimidade das instituições multilaterais e os precedentes que pode estabelecer para o futuro da ordem jurídica global. O acordo assinado em Estrasburgo por Volodymyr Zelensky e Alain Berset prevê a criação de um tribunal especial com competência para processar altos dirigentes russos, incluindo o presidente Vladimir Putin, p...
A transição climática como disputa de poder global
África, Américas, Ásia, Bolívia, Chile, China, Estados Unidos, Indonésia, Organizações Internacionais, República Democrática do Congo, Sul Global, União Europeia

A transição climática como disputa de poder global

A mudança climática já não é apenas uma emergência ambiental. Ela tornou-se um eixo estratégico que reorganiza as hierarquias de poder no sistema internacional. O que antes era tratado como tema técnico de conferências climáticas agora se impõe como campo de disputa entre Estados, empresas, blocos regionais e visões de mundo concorrentes. A transição energética e ecológica, longe de ser consenso, é palco de conflitos distributivos, negociações tensas e tentativas de reconfiguração da ordem global. No centro desse processo estão a corrida por minerais críticos, a reindustrialização verde, os impasses entre Norte e Sul sobre financiamento climático e perdas & danos, além da emergência de novas geografias políticas em torno da energia limpa. A corrida por minerais críticos — como lítio...
O que são os BRICS e por que querem mudar o sistema global
BRICS, Organizações Internacionais

O que são os BRICS e por que querem mudar o sistema global

O grupo BRICS — formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul — surgiu no início dos anos 2000 como um acrônimo para agrupar economias emergentes com grande potencial de crescimento. Mas com o passar do tempo, esse agrupamento informal transformou-se em um bloco político e econômico que busca não apenas mais influência, mas uma mudança estrutural na ordem internacional. O objetivo é claro: criar alternativas ao sistema global dominado por instituições ocidentais, como o FMI, o Banco Mundial e o dólar como moeda hegemônica. A força dos BRICS está nos números. Juntos, os cinco países representam mais de 40% da população mundial, cerca de um quarto do PIB global (em paridade de poder de compra) e grandes porções de recursos naturais, produção agrícola e poder militar. Mas sua re...
A simetria oculta nas relações entre Europa e Sul Global
Ásia, China, Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC), Europa, Organizações Internacionais, Rússia, Sul Global, União Europeia

A simetria oculta nas relações entre Europa e Sul Global

A relação entre a União Europeia e os países da América Latina e do Caribe, formalizada por meio da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC), tem sido marcada por discursos de cooperação, investimento e desenvolvimento conjunto. No entanto, na prática, o comportamento europeu revela um padrão recorrente de imposição de interesses próprios por meio de instrumentos econômicos e políticos que restringem a autonomia do Sul Global. Sob o verniz da parceria, opera-se um sistema de coerção que transfere os custos das decisões europeias para os países em desenvolvimento, exigindo obediência em troca de acesso a mercados ou financiamento. Um exemplo revelador dessa coerção é a ameaça da União Europeia de impor sanções a Bangladesh sob a justificativa de importação de grãos pr...
O fim da globalização como a conhecemos
Américas, Ásia, Banco Mundial, Canadá, China, Estados Unidos, México, OMC, Organizações Internacionais, Sul Global

O fim da globalização como a conhecemos

O modelo de globalização que dominou as últimas décadas, baseado na liberalização comercial, na mobilidade irrestrita de capitais e na primazia das cadeias globais de valor, dá sinais de exaustão. O que se observa atualmente não é o colapso da globalização em si, mas uma metamorfose silenciosa e estrutural. Guerras comerciais, rearranjos regionais e disputas pelo controle de tecnologias estratégicas configuram um novo ciclo de fragmentação econômica, no qual as prioridades nacionais e os interesses geopolíticos se impõem sobre a lógica da integração irrestrita. A ordem econômica mundial que emergiu de Bretton Woods está sendo desmontada em favor de uma configuração mais dispersa, volátil e competitiva. O sistema internacional instituído após a Segunda Guerra Mundial, com instituições co...
Multipolaridade: o que é e por que ela muda o sistema internacional
África, África do Sul, Américas, Brasil, Estados Unidos, Europa, G7, Irã, Organizações Internacionais, Oriente Médio, OTAN, Rússia, Turquia

Multipolaridade: o que é e por que ela muda o sistema internacional

Desde o fim da Guerra Fria, o mundo tem sido amplamente descrito como unipolar, com os Estados Unidos no centro da política, economia e segurança globais. Mas esse cenário está mudando. A emergência de novas potências, o enfraquecimento das instituições multilaterais e o avanço de projetos regionais autônomos configuram uma transição em curso: o mundo caminha para uma ordem multipolar. Esse conceito, frequentemente citado, é mais do que uma descrição técnica — ele traduz uma disputa por poder, influência e modelos alternativos de organização global. Multipolaridade significa, essencialmente, um sistema internacional em que várias potências têm peso equivalente ou competitivo, sem que uma delas consiga impor sua vontade sobre as demais. Isso não significa ausência de hierarquias, mas sim...
A nova corrida dos minerais: lítio, terras raras e o mapa do poder do século XXI
África, Américas, Estados Unidos, Organizações Internacionais, República Democrática do Congo, União Europeia

A nova corrida dos minerais: lítio, terras raras e o mapa do poder do século XXI

Nos séculos passados, o poder global foi moldado por quem controlava o ouro, o petróleo ou as rotas comerciais. No século XXI, essa lógica se atualiza — agora, os grandes recursos estratégicos são o lítio, as terras raras, o cobalto e outros minerais cruciais para a transição energética e a revolução tecnológica. Uma nova corrida global está em curso, envolvendo potências, corporações e blocos econômicos que disputam acesso, controle e influência sobre depósitos geológicos antes periféricos. E, como toda corrida de poder, ela reorganiza o tabuleiro geopolítico global. O lítio é o símbolo mais visível dessa nova era. Elemento essencial para baterias de carros elétricos, celulares e sistemas de armazenamento de energia, ele é abundantemente encontrado em três países que compõem o chamado ...
A África no centro do tabuleiro: por que o continente virou uma arena geopolítica global
África

A África no centro do tabuleiro: por que o continente virou uma arena geopolítica global

Durante muito tempo, a África foi tratada como periferia nas análises internacionais — ora como espaço de intervenção humanitária, ora como fonte de recursos naturais. No entanto, nas duas últimas décadas, o continente deixou de ser apenas receptor de influência externa e tornou-se o novo epicentro das disputas geopolíticas do século XXI. Grandes potências, como China, Estados Unidos, Rússia, Turquia e potências regionais do Golfo, vêm travando uma silenciosa mas intensa disputa por presença, acesso e influência em solo africano. E os motivos são estratégicos: recursos, rotas, votos diplomáticos e projeção de poder. A primeira razão para essa centralidade é demográfica. A África será, nas próximas décadas, o continente com maior crescimento populacional do planeta. Projeções indicam que...