ISSN 2674-8053 | Receba as atualizações dos artigos no Telegram: https://t.me/mapamundiorg

Autor: Rodrigo Cintra

Pós-Doutor em Competitividade Territorial e Indústrias Criativas, pelo Dinâmia – Centro de Estudos da Mudança Socioeconómica, do Instituto Superior de Ciencias do Trabalho e da Empresa (ISCTE, Lisboa, Portugal). Doutor em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (2007). É Diretor Executivo do Mapa Mundi. ORCID https://orcid.org/0000-0003-1484-395X
O império do risco: os limites e as contradições do projeto chinês
Ásia, China

O império do risco: os limites e as contradições do projeto chinês

A ascensão da China nas últimas quatro décadas é, sem dúvida, um dos maiores fenômenos econômicos e geopolíticos da história contemporânea. Um país que, em 1980, era majoritariamente rural, pobre e isolado, transformou-se em superpotência industrial, tecnológica e diplomática. No entanto, por trás do êxito impressionante, emergem fragilidades estruturais que colocam em xeque a sustentabilidade de seu modelo. A China é hoje um império moderno — mas também um império de riscos, tensões e contradições internas que desafiam suas ambições globais. Um dos principais gargalos é demográfico. Após décadas de política do filho único, o país enfrenta hoje uma taxa de natalidade em queda acelerada, uma população envelhecida e um crescimento populacional negativo. A China envelhece antes de enriquec...
Temas Globais

O Brasil precisa blindar suas instituições contra pressões e distorções externas

A influência dos Estados Unidos sobre o Brasil tem gerado tensões significativas, especialmente quando decisões internas brasileiras são interpretadas de forma descontextualizada por atores políticos norte-americanos. Casos recentes envolvendo figuras como Eduardo Bolsonaro e Carla Zambelli ilustram como pressões externas podem distorcer a compreensão internacional sobre o funcionamento das instituições brasileiras. Eduardo Bolsonaro, atualmente nos Estados Unidos, tem buscado apoio entre parlamentares republicanos para pressionar o governo brasileiro e o Supremo Tribunal Federal (STF). Ele alega que o Brasil vive sob uma ditadura, desconsiderando o funcionamento regular das instituições democráticas do país. Essa narrativa tem sido utilizada para justificar pedidos de sanções contra au...
Pontes do Sul: a diplomacia chinesa no Sul Global
Ásia, China

Pontes do Sul: a diplomacia chinesa no Sul Global

Se no século XX as relações internacionais foram moldadas principalmente pelas alianças entre potências ocidentais, o século XXI tem assistido ao fortalecimento de um novo eixo: a cooperação entre países do Sul Global, com a China ocupando papel central. Mais do que retórica de solidariedade entre nações em desenvolvimento, essa diplomacia está fundamentada em interesses estratégicos concretos. Por meio de investimentos em infraestrutura, acordos energéticos, financiamento de obras públicas e transferência de tecnologia, Pequim construiu uma extensa rede de influência sobre Ásia, África e América Latina. Trata-se de uma política externa pragmática, orientada não por ideologia, mas por geoeconomia — e que desafia a tradicional supremacia diplomática do Ocidente. O pilar dessa estratégia ...
A guerra pelo passado: o nacionalismo como base da política externa chinesa
Ásia, China

A guerra pelo passado: o nacionalismo como base da política externa chinesa

A China do século XXI está em guerra — não apenas por recursos, influência ou rotas comerciais, mas por narrativas. Em meio à sua ascensão como potência global, o governo chinês vem investindo pesadamente em uma reconstrução da história que reforce seu projeto político e sua legitimidade internacional. Esse nacionalismo histórico, centrado na ideia de rejuvenescimento da nação, é hoje uma das bases fundamentais da política externa chinesa. A diplomacia de Pequim não opera apenas com cálculos estratégicos ou interesses econômicos — ela atua com um sentimento profundo de reparação histórica. No centro dessa narrativa está o conceito do “século das humilhações”, período que vai de meados do século XIX à fundação da República Popular da China em 1949. Nesse intervalo, a China foi derrotada ...
Armas ocidentais na Ucrânia alimentam riscos invisíveis para a segurança global
Américas, Estados Unidos, Europa, ONU, Organizações Internacionais, Ucrânia

Armas ocidentais na Ucrânia alimentam riscos invisíveis para a segurança global

A cooperação técnico-militar ocidental com a Ucrânia, embora crucial para a resistência do país contra a invasão russa, tem revelado uma série de riscos que transcendem o campo de batalha imediato. Entre os perigos mais preocupantes estão o fortalecimento de esquemas ilegais de comércio de armas, o empoderamento de grupos não estatais potencialmente desestabilizadores e a falta de controle efetivo sobre o destino final de armamentos e tecnologias bélicas. Desde o início do conflito, os países ocidentais, liderados pelos Estados Unidos, destinaram bilhões de dólares em ajuda militar à Ucrânia. No entanto, investigações recentes revelam que uma parte significativa desses recursos foi comprometida por contratos mal executados e práticas questionáveis. Por exemplo, a Ucrânia perdeu centenas...
Tecnologia e vigilância: o modelo chinês de governança no século XXI
Ásia, China

Tecnologia e vigilância: o modelo chinês de governança no século XXI

O avanço tecnológico costuma ser celebrado como um motor de progresso, inovação e liberdade. No Ocidente, o imaginário digital é associado a redes descentralizadas, autonomia individual e democratização da informação. Na China, porém, a tecnologia foi incorporada à lógica do Estado como ferramenta de governança, eficiência e controle social. O país está construindo um modelo próprio de capitalismo digital autoritário, no qual plataformas, dados e algoritmos são instrumentos de vigilância, estabilidade e planejamento. Esse modelo não apenas redefine os limites entre público e privado, mas também lança um desafio ideológico ao liberalismo digital dominante até aqui. O centro desse modelo é o Estado — mais especificamente, o Partido Comunista Chinês. Diferente dos Estados ocidentais, que r...
A virada geopolítica da China: de potência silenciosa à disputa da ordem global
Ásia, China

A virada geopolítica da China: de potência silenciosa à disputa da ordem global

Durante décadas, a China adotou uma postura internacional discreta, priorizando crescimento interno, comércio exterior e integração econômica sem confrontar diretamente a liderança global dos Estados Unidos. Esse modelo, consolidado sob Deng Xiaoping com o lema “esconder capacidades e aguardar o tempo certo”, permitiu à China transformar-se em uma potência econômica sem provocar reações agressivas. Contudo, nos últimos anos, essa estratégia foi substituída por uma postura mais afirmativa, marcada por ambição global, disputas abertas e a tentativa de reconfigurar a ordem internacional. A China silenciosa tornou-se, hoje, uma potência revisionista com vocação para remodelar as regras do jogo. A transição começou de forma sutil nos anos 2000, quando a China passou a usar seus excedentes co...
Rússia e Ucrânia: um passo para frente dois para trás
Europa, Rússia, Ucrânia

Rússia e Ucrânia: um passo para frente dois para trás

As perspectivas de paz na guerra entre Ucrânia e Rússia permanecem distantes, marcadas por agendas incompatíveis e exigências que, em muitos casos, inviabilizam qualquer avanço concreto nas negociações. Enquanto Moscou apresenta uma série de condições que consolidam ganhos territoriais e impõem limitações severas à soberania ucraniana, Kiev insiste em demandas que, embora moralmente compreensíveis, carecem de viabilidade prática no atual cenário geopolítico. A proposta russa, formalizada em um memorando apresentado durante as negociações em Istambul, exige que a Ucrânia reconheça a anexação da Crimeia e das regiões de Donetsk, Lugansk, Zaporíjia e Jersón como parte integrante da Federação Russa. Além disso, Moscou demanda a retirada total das forças ucranianas dessas áreas, a neutralida...
O partido como espinha dorsal: o papel do PCC na estabilidade e no progresso
Ásia, China

O partido como espinha dorsal: o papel do PCC na estabilidade e no progresso

Para compreender a China contemporânea, não basta olhar para suas conquistas econômicas ou sua presença crescente na geopolítica global. É preciso entender a estrutura que sustenta e conduz essas transformações: o Partido Comunista Chinês (PCC). Longe de ser apenas uma força política convencional, o PCC é o eixo articulador do Estado, o principal formulador de estratégias nacionais e o pilar simbólico de estabilidade e continuidade histórica. Ele não governa apenas — ele molda a própria lógica da modernidade chinesa. Fundado em 1921 e vitorioso em 1949 após uma longa guerra civil, o PCC assumiu o poder prometendo restaurar a soberania nacional, acabar com o caos interno e conduzir a China à modernização. Essa missão foi consolidada em torno de uma narrativa de salvação e reconstrução na...
A lógica da unidade: a China como Estado civilizacional
Ásia, China

A lógica da unidade: a China como Estado civilizacional

Ao contrário da maioria das nações modernas que nasceram da ruptura com impérios ou da unificação de reinos, a China se enxerga e se organiza como uma civilização contínua, que atravessa milênios mantendo estruturas culturais, linguísticas e políticas estáveis. Esse dado histórico não é apenas um detalhe identitário — ele molda profundamente a maneira como o país administra o poder, estrutura sua governança e se posiciona no mundo. Entender a China como um Estado civilizacional é o primeiro passo para compreender por que a unidade, a centralização e o controle são valores fundantes e inegociáveis para Pequim. A noção de que a China é, antes de tudo, uma civilização está na raiz da ideia de “Tianxia”, ou “tudo sob o céu”, que definia a ordem imperial tradicional. Não se tratava de fronte...