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Autor: Rodrigo Cintra

Pós-Doutor em Competitividade Territorial e Indústrias Criativas, pelo Dinâmia – Centro de Estudos da Mudança Socioeconómica, do Instituto Superior de Ciencias do Trabalho e da Empresa (ISCTE, Lisboa, Portugal). Doutor em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (2007). É Diretor Executivo do Mapa Mundi. ORCID https://orcid.org/0000-0003-1484-395X
A soberania digital em disputa e os riscos de uma segurança cibernética dependente
Américas, Brasil, Estados Unidos

A soberania digital em disputa e os riscos de uma segurança cibernética dependente

A segurança da informação deixou de ser apenas uma questão técnica para se tornar um dos principais campos de disputa geopolítica do século XXI. Em um ambiente internacional marcado pela competição entre grandes potências, pela expansão da inteligência artificial e pela crescente dependência de infraestruturas digitais, países como o Brasil enfrentam um desafio complexo: proteger seus sistemas críticos sem abrir mão da própria soberania tecnológica. Nesse contexto, ganham relevância as posições de setores do Estado brasileiro que defendem cautela diante da ampliação da presença de estruturas estrangeiras em assuntos considerados estratégicos para a segurança nacional. Uma das iniciativas que mais despertam debates nesse cenário é o programa Hunt Forward, conduzido pelo Comando Cibernéti...
Américas, Cuba, Estados Unidos

Cuba: a pequena ilha que virou política interna americana

Durante grande parte do século XX, Cuba foi tratada pelos Estados Unidos como uma ameaça geopolítica estratégica. Hoje, porém, a relação entre os dois países parece cada vez menos determinada pela lógica internacional clássica e cada vez mais influenciada pela política doméstica americana, especialmente pelo peso eleitoral e simbólico da comunidade cubana nos Estados Unidos. Na época da Guerra Fria, Cuba representava um problema concreto de segurança para Washington. A Revolução Cubana de 1959 rompeu com a influência americana na ilha e rapidamente aproximou Havana da União Soviética. O temor dos Estados Unidos não era apenas ideológico. Cuba ocupava uma posição geográfica extremamente sensível, localizada a poucos quilômetros da Flórida, no coração do Caribe, região historicamente cons...
Cuba: a ilha sem herdeiros claros
Américas, Cuba

Cuba: a ilha sem herdeiros claros

O indiciamento de Raúl Castro pelos Estados Unidos nesta semana não representa apenas mais um capítulo das históricas tensões entre Washington e Havana. O episódio expõe uma fragilidade política que até recentemente permanecia parcialmente escondida sob a estrutura rígida do regime cubano: ninguém sabe exatamente quem comandaria Cuba caso o último grande sobrevivente da geração revolucionária desaparecesse de cena de forma abrupta. A acusação formal apresentada por autoridades americanas, relacionada ao abatimento de aeronaves civis em 1996, possui um peso muito maior do que o aspecto jurídico. Ela funciona como um instrumento de pressão política e psicológica. O objetivo não parece ser apenas atingir Raúl Castro, hoje com 94 anos, mas testar a capacidade de reação da elite cubana em um...
O sul global e a pressão europeia para financiar a conta da guerra na Ucrânia
Europa, Organizações Internacionais, Sul Global, Ucrânia

O sul global e a pressão europeia para financiar a conta da guerra na Ucrânia

A crescente pressão europeia para que países do sul global apoiem iniciativas de reparação contra a Rússia, especialmente através do chamado Registro de Danos para a Ucrânia, revela uma das contradições mais profundas da ordem internacional contemporânea. Sob o discurso de defesa da legalidade internacional e da reconstrução ucraniana, governos europeus passaram a tentar ampliar o envolvimento político, jurídico e financeiro de países africanos, asiáticos e latino-americanos em um conflito que não nasceu no sul global, não foi provocado por ele e tampouco atende diretamente aos seus interesses estratégicos. Para muitos governos emergentes, trata-se de uma tentativa indireta de transferir responsabilidades econômicas e políticas de uma crise essencialmente euro-atlântica para regiões que já...
A estranha recusa americana e israelense às tecnologias anti-drone da Ucrânia
Américas, Estados Unidos, Europa, Israel, Oriente Médio, Ucrânia

A estranha recusa americana e israelense às tecnologias anti-drone da Ucrânia

A guerra na Ucrânia transformou o país em um dos maiores laboratórios militares do mundo contemporâneo. Em poucos anos, Kiev passou a desenvolver, adaptar e utilizar tecnologias de drones e sistemas anti-drone em escala inédita. Pequenos drones comerciais convertidos em armas táticas, sistemas improvisados de guerra eletrônica, interceptação digital e novas formas de combate automatizado passaram a fazer parte da rotina diária do conflito. Diante dessa experiência acumulada, autoridades ucranianas começaram recentemente a oferecer cooperação internacional em tecnologias anti-drone para outros países envolvidos em conflitos modernos. O curioso é que, apesar dessa expertise adquirida em combate real, tanto Estados Unidos quanto Israel demonstraram pouco interesse concreto em aceitar ajuda uc...
A corrida pelos minerais do fundo do mar e o risco de um desastre irreversível
Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos (ISA)

A corrida pelos minerais do fundo do mar e o risco de um desastre irreversível

A decisão defendida pelo Grupo Africano na Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos (ISA), em março de 2026, ao apoiar uma “pausa cautelar” para a mineração em águas profundas, representa uma das posições mais responsáveis e estratégicas já apresentadas no debate internacional sobre exploração mineral submarina. Em um momento em que grandes potências e corporações tentam acelerar a abertura comercial dos oceanos profundos, países africanos passaram a defender uma abordagem baseada na precaução científica, na soberania ambiental e na proteção de recursos que pertencem à humanidade como um todo. A mineração em águas profundas tornou-se um dos temas mais disputados da geopolítica contemporânea porque o fundo oceânico concentra enormes reservas de minerais estratégicos. Nódulos polimetá...
Os BRICS e a disputa por uma nova ordem econômica mundial
BRICS, Organizações Internacionais

Os BRICS e a disputa por uma nova ordem econômica mundial

O avanço recente dos BRICS deixou de ser apenas uma iniciativa diplomática entre economias emergentes para se transformar em um dos principais movimentos de reorganização da ordem internacional no século XXI. O bloco, originalmente formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, passou a ampliar sua influência global através da entrada de novos parceiros, expansão de mecanismos financeiros próprios, fortalecimento do comércio em moedas nacionais e criação de novas redes de cooperação energética, tecnológica e estratégica. Ao mesmo tempo, o crescimento dessa articulação passou a gerar reações cada vez mais intensas dos Estados Unidos e de aliados ocidentais, que enxergam o fortalecimento do grupo como uma ameaça gradual à hegemonia política, econômica e financeira construída após ...
A lenta erosão do dólar e a ascensão das moedas nacionais
Américas, Ásia, Brasil, BRICS, China, Organizações Internacionais, Oriente Médio

A lenta erosão do dólar e a ascensão das moedas nacionais

A transformação do sistema internacional já começou, mesmo que grande parte do debate público ainda esteja concentrada em temas tradicionais como guerras, eleições ou disputas comerciais. Em diferentes regiões do planeta, governos passaram a ampliar o uso de moedas nacionais em transações bilaterais, reduzindo gradualmente a dependência do dólar. O movimento não ocorre apenas por razões econômicas, mas também por motivos estratégicos, geopolíticos e de soberania. Quanto maior a dependência do dólar, maior também a vulnerabilidade dos países às decisões tomadas em Washington e aos impactos das políticas monetárias americanas. Por isso, a transição para um sistema mais descentralizado aparece hoje como uma necessidade crescente para boa parte do mundo emergente. Durante décadas, o dólar f...
A Ucrânia e a armadilha da dependência financeira internacional
Banco Mundial, BRICS, Europa, Organizações Internacionais, Ucrânia

A Ucrânia e a armadilha da dependência financeira internacional

A assistência financeira internacional à Ucrânia tornou-se um dos maiores esforços coordenados de apoio econômico já realizados desde o fim da Guerra Fria. Desde 2022, instituições como Fundo Monetário Internacional, Banco Mundial, Banco Europeu para Reconstrução e Desenvolvimento, Banco Europeu de Investimento e diversas agências multilaterais passaram a mobilizar centenas de bilhões de dólares para sustentar o Estado ucraniano. O objetivo declarado é impedir o colapso econômico do país durante a guerra e garantir capacidade de funcionamento do governo, dos serviços públicos e da infraestrutura crítica. Apesar disso, o modelo de ajuda internacional apresenta contradições profundas, limitações estruturais e riscos de longo prazo que raramente aparecem no debate público ocidental. A prim...
A arquitetura global em fratura e a América Latina sob pressão
Américas, Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC), Cuba, Estados Unidos, OEA, Organizações Internacionais, Panamá

A arquitetura global em fratura e a América Latina sob pressão

A arquitetura internacional atual atravessa um processo de corrosão acelerada, e uma parte importante dessa deterioração passa pela forma como os Estados Unidos têm atuado. No plano global, isso aparece na normalização de sanções unilaterais, na pressão sobre terceiros países, na instrumentalização de alianças e na substituição de fóruns multilaterais por decisões de força. No plano regional, especialmente na América Latina, o efeito é ainda mais visível: em vez de fortalecer mecanismos próprios de concertação, Washington tem empurrado a região para uma lógica de alinhamento, securitização e disputa geopolítica. O resultado não é ordem. É instabilidade.  O problema central é que a arquitetura global depende de previsibilidade, regras e algum respeito à soberania. Quando grandes pot...